Críticas

Clock domingo, 19 de junho, 2011 - às 11h20

Meia Noite em Paris: o retorno de Woody Allen à boa-forma

Cineasta descobre Paris, retorna aos anos 20 e com uma história cheia de magia e arte faz seu melhor filme em anos.

Woody Allen, finalmente, encontrou a sua Nova York europeia. Depois de passar por Barcelona e, demasiadamente, insistir com Londres, o cineasta aporta na Cidade Luz para contar a sua mais bela história em anos. Com “Meia Noite em Paris”, Allen demonstra-se ousado através de um projeto que já parecia idealizado antes mesmo de ser produzido. A impressão é de que Paris e Allen aguardavam a possibilidade desse encontro há tempos e dele nasce uma química natural, descontraída e, acima de tudo, fantástica.

Tudo porque o diretor resolve resgatar o realismo mágico que utilizou anteriormente em “Neblina e Sombras” (1991) e, mais eficientemente, em “A Rosa Púrpura do Cairo” (1985). O recurso permite que seu protagonista volte no tempo, não só para exaltar Paris (uma das poucas cidades que permitem que tal retorno seja possível sem grandes inclusões técnicas), mas também para homenagear os seus artistas preferidos, “ressuscitando-os” com uma inocência e comicidade que apenas Woody Allen seria capaz de fazer.

O alterego do diretor desta vez chama-se Gil (Owen Wilson), um roteirista norte-americano bem-sucedido, mas frustrado. Ele quer ser escritor e também, depois de conhecer a capital francesa, morar por lá. A noiva Inez (Rachel McAdams), no entanto, discorda. Ela odeia a simples ideia de deixar os Estados Unidos. Mas Paris exerce um tamanho fascínio sobre Gil (especialmente se estiver chuvosa) que faz com que ele embarque em uma viagem até os anos 20, onde encontra a si mesmo e, especialmente, os mais consagrados artistas do último século, das mais diversas áreas.

Estão lá os escritores F. Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway, o músico Cole Porter, o pintor Pablo Picasso e o cineasta Luis Buñuel, dentre outros que esbarram com o personagem com a naturalidade de um habitual encontro, sendo essas reações (também compartilhada por Gil) o principal atrativo cômico do filme. Mas “Meia Noite em Paris” não foi feito para fazê-lo gargalhar intensamente. O objetivo de Allen é muito mais fascinar com as possibilidades que a sua imaginação permita que aconteçam. E que imaginação! A cada badalada que soa na madrugada parisiense, a ânsia pela personalidade artística que conheceremos adiante já faz um sorriso abrir de orelha a orelha.

E a gratificação vem, principalmente, pelo fato de Woody Allen não levar seu texto a sério, pondo a descontração em primeiro lugar, fazendo seus históricos artistas colocarem-se em situações que jamais imaginaríamos, como se declararem invejosos ou estarem envolvidos em confusos enlaces amorosos. Vê-los em comuns mesas de bar discutindo temáticas super relevantes, que hoje são motivos das mais profundas pesquisas científicas, é de um prazer difícil de descrever. E tudo acontece de uma forma bem simples, sem necessidades de efeitos especiais ou conceituada direção de arte.

Paris parecia estar pronta para receber o que Allen tinha para contar, e toda essa loucura temporal não poderia ser possível em nenhuma outra capital mundial, tanto do ponto de vista técnico quanto narrativo. A preservação das antiguidades, além da própria história da metrópole (palco de diversas manifestações e movimentos artísticos) a credenciam para contar tal trama eterna. Valorizando os tempos passados, o roteiro reflete também sobre a atualidade e a mania que temos de exaltar o passado e desqualificar o presente. Para tanto, é preciso dar uma rápida passada no século XIX, possível num piscar de olhos.

O longa traz ainda uma tocante história de amor impossível, palavra que aqui assume um outro sentido. Se Allen exagera na composição da personagem Inez, uma mulher que nunca deveria ser companheira de Gil, acerta em cheio na criação de Adriana, a moça que teria servido de inspiração para um quadro de Picasso na década de 20. Bela e extremamente sensual, a estudante de alta costura atrai não só os olhares do protagonista, mas também do público, certificação de mais um desempenho notável da sempre competente Marion Cotillard, na melhor atuação do filme.

Owen Wilson também merece destaque. Sem querer imitar os trejeitos do clássico personagem que encarna, o ator aposta no carisma que já provou que tem de sobra. É um homem indeciso, inseguro, mas ciente de que deve fazer algo com sua vida. E não há melhor escolha do que ficar na Paris exibida por Woody Allen, especial em cada esquina, que ficam ainda mais atraentes debaixo de chuva. Um local de inspiração artística, seja para pintores, escritores ou cineastas, especialmente se ele tiver a categoria desse norte-americano que dirige e escreve este adorável trabalho. Simplesmente adorável!

  • LUNATIC

    Alguem tem a frase que o Hemingway fala no carro sobre morte e amor?

    • Angela

      Não lembro a frase exata mas a ideia que expressa. Somente quando nos entregamos ao amor enganamos a morte.

    • Thiago Mesquita

      Algo sobre “no ponto mais sublime do amor, você perde o medo de morrer”. Claro que não estou escrevendo com as próprias palavras do personagem.

    • Ney Rocha

      Hemingway diz: Nunca escreverá bem se tiver medo de morrer. É algo que todos os homens tiveram e sempre terão. Já fez amor com uma mulher realmente notável? E quando faz amor com ela sente uma paixão bela e real… e nesses momentos perde o medo da morte? Acho que amor verdadeiro seria um escudo contra a morte. Um covarde não ama ou não ama de verdade, o que é o mesmo. Quando o homem é corajoso e verdadeiro encara a morte de frente. Amam com paixão, para afastar a morte da mente. Até que ela retorna, como acontece a todos os homens. E então deve voltar a fazer amor de verdade. ///////

  • Luis Picazio

    Um filme maravilhoso, imperdível.Produção impecável.Uma obra prima.

  • http://marlovaaseff.blogspot.com marlova

    Adorei o filme! Fazia tempo que não gostava tanto de um filme!

  • claudia de sá ferreira

    Amei a crítica sobre “Meia noite em Paris”. Woody Allen , como todo gênio, consegue “falar profundamente sobre coisas banais” e “falar banalmente sobre coisas profundas”. Voilá!!!

  • http://www.microargumentos.blogspot.com Angela

    Afinal uma crítica que descreve completamente meu encantamento com este filme magnífico.
    Só não parecia este “espetáculo” aquele que desconhece arte e história.
    É uma benção encontrar um crítico tão sensível quanto claro.

  • Mário Motta

    Crítica a altura dessa memorável experiência cinematográfica proporcionada por Woody Allen,parabéns!

  • Carlos Eduardo de S. Rodrigues

    Também gostei bastante do filme.
    Percebi, assim que acabou, que é um filme muito agradável de ver. Você vai tomando gosto pela história, e quando para pra pensar já está incluso nela.
    Apesar trama fantasiosa, que acabei aceitando e me deixando levar, há uma passagem que mesmo assim considerei absurda a “casualidade” do roteiro: despretensiosamente, Gil passeando em Paris durante o dia, dá de cara com uma barraca-sebo de livros e encontra o diário da personagem de Marion Cotillard (belíssima). Pegou pesado!

  • Viviane Dreher

    Achei este um filme leve do Allen. É um daqueles filmes que dá pra ver, de boa, em uma tarde, na televisão aberta.
    Não que todo mundo vá entender algumas nuances, mas a história geral do filme qualquer pessoa não introduzida ainda ao universo do Woody pode compreender.
    O filme é, na melhor definição, agradável de se ver.
    Contudo, em uma visão mais aprofundada, não consigo encontrar esse alterego do diretor na personagem de Gil. Exceto pela hipocondria, não consigo enxergar as peculiaridades do Woody Allen. Em outros filmes, elas são bem visíveis; neste, por outro lado, há uma leve indicação, mas poderia ser uma peculiairdade de qualquer um, não só do Allen.
    Enfim, recomendo o filme.
    Não é uma obra prima, mas vale a pena o valor do ingresso.

  • João Victor

    Não compreendo como filmes pseudo-cults conseguem ganhar uma nota 9. NOVE!

    Ainda mais vindo do Woody Allen, tão amado e idolatrado pelos pseudo-cults.

    O mesmo Woody Allen que fez Cassandra’s Dreams.

  • Paulo Flabes

    Realmente pegou pesado Carlos Eduardo.
    Além disso acontece um paradoxo quando ele encontra o diário da personagem de Marion Cotillar. Segundo o diário Gil iria fazer amor com ela naquela noite, o que não acontece! Se não aconteceu ela não poderia ter escrito no diário!
    Não precisava fantasiar tanto!

    • m. as

      mas ela não falou que fez “amor” com ele… ela fala que sonhou que…

      o que está dentro do contexto pois ela resolveu ficar na Belle Époque…

  • Fernando

    Ótimo texto sobre um belo filme. Um dos melhores de Allen nos últimos anos.

  • Rafael Freitas

    O livro fica mais pra uma autobiografia do que um diario, e a passagem que e lida e narrada como um sonho, ela sonha que ele dá os brincos e eles fazem amor, e gil se aproveita disso para criar um momento especial que e quebrado por outra quebra temporal ^^

  • Mario Tavares Dias

    Não contive o riso, quando é constatado o desaparecimento do detective.

  • Thiago Mesquita

    Que filme maravilhoso! Espetacular, em (quase)todos os aspectos

    Não sou fã do Woody Allen, mas esse filme é maravilhoso.

    Owen Wilson merecia concorrer ao Oscar; Marion Cotillard, por quem sou louco, em mais uma interpretação magnífica.

    Trilha sonora muito boa também, excelente.

    Enfim, harmonia entre todos os aspectos do filme, principalmente na caricatura de todos os artistas históricos: Hemingway, casal Fitzgerald, Dali, Picasso…

  • Victor Hugo

    Concordando com o Carlos Eduardo. É um filme extremamente agradável de se ver! Muito bom mesmo. Principalmente com as inúmeras referências.

  • keite albino

    o trabalho do woody allen é muito bom ele é genial e meia noite em paris é mais um exemplo disso, ele enaltece a paris que todos sonhamos em conhecer a cidade luz que faz com que os grandes gênios se encantem e com o Allen não seria diferente é claro, mais a lição de moral do filme é que eu mais gostei, por mais que agente goste do passado nunca podemos disperdiçar o futuro vivendo do passado.adorei a atuação do Owen wilson já gostava de alguns fimels dele mais ele se arrasou fazendo um filme do Allen que é cheio de palavras faladas rápido demais e com um roteiro complicado. nota :9,0

  • keite albino

    o trabalho do woody allen é muito bom ele é genial e meia noite em paris é mais um exemplo disso, ele enaltece a paris que todos sonhamos em conhecer a cidade luz que faz com que os grandes gênios se encantem e com o Allen não seria diferente é claro, mais a lição de moral do filme é que eu mais gostei, por mais que agente goste do passado nunca podemos disperdiçar o futuro vivendo do passado.adorei a atuação do Owen wilson já gostava de alguns filmes dele mais ele arrasou fazendo um filme do Allen que é cheio de palavras faladas rápido demais e com um roteiro complicado. nota :9,0

  • Ney Rocha

    Ney Rocha – Beleza de filme, uma viagem no tempo pela bela Paris, pela arte, pela vida, pelos sonhos e realidades, pela essência da existência humana. Simples, inteligente, encantador, envolvente. A bela fotografia enriquecendo ainda mais as belezas de Paris. Woody Allen cada vez melhor. Elenco perfeito. Lindas e apropriadas músicas. DEMAIS! /////