Avaliação: 5

M. Night Shyamalan é  o próprio mistério. Quando surgiu com “O Sexto Sentido” foi glorificado como mestre do cinema, e sua obra é copiada maciçamente a ponto de sua premissa se tornar um clichê a ser esquecido. Logo após veio “Corpo Fechado”, considerado por muitos, um dos melhores filmes de heróis já feito, e realmente na época esta linguagem “Alan Moore” de ser dos super poderosos nem vislumbrava a luz do sol em Hollywood.

Após “Sinais” e “A Vila”, as coisas ficaram estranhas. Apesar dos roteiros forçados e deficientes (roteiros que eram sua arma letal), o indiano revelação sempre teve uma ótima mão na direção, trabalhando muito bem o suspense e direcionando de forma correta seus atores. Depois vieram os péssimos “A Dama na Água” e “Fim dos Tempos”, fracassos retumbantes de bilheteria que colocaram a carreira do diretor em uma espécie de torpor, da onde todos esperamos que ele desperte. Infelizmente ainda não aconteceu.

Em seu novo filme, Shyamalan, guiado pelo entusiasmo de suas filhas, resolveu adaptar (algo inédito em sua carreira de diretor) o desenho animado “Avatar: The Last Airbender”, exibido pela Nickelodeon desde 2005. A série conta a história de Aang, um garoto mestre do ar que precisa amadurecer logo, pois ele é o profetizado Avatar, um ser de habilidades extraordinárias e o único capaz de controlar todos os elementos: Ar, Água, Terra e Fogo. Após cem anos de sua ausência, seu mundo encontra-se em guerra, e Aang tem de trazer novamente o equilíbrio entre os povos, finalizando assim o conflito iniciado pela Nação do Fogo. Acompanhado por seus amigos de jornada, os irmãos Katara e Sokka, e os engraçados Appa e Momo (um bisão gigante voador e um lêmure orelhudo também voador), o jovem Avatar terá de apreender a domar seus poderes e também seus sentimentos, e para isso precisa encontrar professores a altura de seu aprendizado.

A concepção do filme é uma trilogia, assim como a série original, divida em três temporadas, sendo intituladas como “Livro Um: Água”, “Livro Dois: Terra” e “Livro Três: Fogo”. No primeiro capítulo, Aang deve aprender a dominar totalmente o elemento água e parte em busca de um mestre na Tribo da Água do Norte. Esta é a história que Shyamalan conta em seu filme.

Apresentando com fidelidade diversos momentos do desenho – como a bela abertura, milimetricamente reproduzida -, o diretor e roteirista acerta em muitas escolhas na hora de transferir a obra para um novo meio, mas erra em diversas outras. Com a consultoria dos criadores do programa, Michael Dante Dimartino e Bryan Konietzko, algumas misturas de eventos são feitas de forma interessante, para assim poder correr com a trama e não passar por cima de muita coisa, mas infelizmente nem tudo sai como o planejado e, apesar da simetria de várias cenas, diversas mudanças são incômodas, principalmente nos momentos finais.

Outro fator praticamente extirpado na adaptação é o humor natural e jovem do seriado, uma praia que Shyamalan nem vislumbra alcançar. Poucos momentos fazem referência a este humor (como Katara congelando Sokka por acidente), mas eles são tão raros que nem vale apena rir deles. Mesmo Appa e Momo perdem toda sua presença, renegados a meros figurantes.

No geral, como filme, “O Último Mestre do Ar” tem muitos problemas. O início é promissor, com personagens sendo apresentados e revelações anunciadas. Já o segundo ato é maçante, pois perde seu foco em meio ao desenvolvimento da trama dos mocinhos e dos vilões, culminando no terceiro ato, alicerçado primordialmente nas cenas de ação. Visualmente belo, os efeitos especiais são de encher os olhos. Toda manipulação de ar, água, terra e fogo são orgânicas e muito realistas, com sequências realmente arrepiantes. A desenvoltura dos golpes chama atenção e todo balé das lutas é calcado no kata de diferentes artes marciais, como Baguazhang, Tai Chi, Hung Ga e Kung Fu Shaolin.

Diferente de seus outros trabalhos, a trilha sonora de James Newton Howard (“O Sexto Sentido”, “Corpo Fechado” e “Sinais”) não alcança um nível satisfatório, ficando apenas na tentativa de emular trilhas de grandes épicos, como “O Senhor dos Anéis” ou mesmo “Star Wars”. Já a fotografia de Andrew Lesnie (da trilogia “O Senhor dos Anéis”) é competente, mas foge totalmente da paleta de cores vivas da série original, ficando apenas na frieza do azul acinzentado.

O time de atores é, em sua maioria, constituído de caras novas e inexperientes. Aang é interpretado pelo campeão de artes marciais de Dallas, Noah Ringer. Escalado principalmente por suas habilidades de luta e sua semelhança com o Avatar, Ringer é limitado como ator e não desperta muito carisma. Seu Aang é bem diferente do seriado. Muito mais centrado e coeso, ele parece não precisar de muito amadurecimento e seu jeito “moleque de ser” praticamente não existe. Katara e Sokka são vividos por Nicola Peltz e Jackson Rathbone (da série “Crepúsculo”). Ambos ficaram incrivelmente parecidos com os irmãos, mas apenas fisicamente, pois enquanto Katara está muito melancólica, Sokka está muito “racional”, sempre com o ar de guerreiro honrado, sem soltar praticamente nenhuma besteira.

Já o time do mal é encabeçado por Dev Patel (“Quem Quer Ser um Milionário?”) interpretando o rancoroso príncipe Zuko. Patel até que tenta usar bem os dilemas de seu personagem, mas não tem muito espaço dentro do atropelamento ironicamente entediante do segundo ato. Como coadjuvantes temos Shaun Toub como um Tio Iroh totalmente sem humor, mas com muita serenidade. Aasif Mandvi é o ordinário Comandante Zhao, também muito exagerado e canastrão. Para terminar, Cliff Curtis interpreta o Senhor do Fogo Ozai, personagem que nem sequer dá as caras na primeira temporada.

Como resultado final, temos uma obra que, ao mesmo tempo em que homenageia “Avatar: The Last Airbender”, acaba errando em pontos primordiais. Para aproximar a série de seu estilo cinematográfico, Shyamalan deixou tudo muito sério e frio, mas apesar de ter sido massacrado pela crítica internacional, o filme não chega a ser péssimo, mas não é muito mais que isso. Para aqueles que não conhecem Aang e sua trupe, não apreciar a obra parece ser um caminho certo, para aqueles que conhecem, fica uma sensação indigesta de que o longa não tem o “verdadeiro espírito” da série. Correndo o risco de não conseguir concluir a trilogia, Shymalan dá outro tiro no pé, e literalmente adormece cada vez mais em seu torpor sem criatividade.