Críticas   quarta-feira, 29 de março de 2017

Fragmentado (2016): A volta por cima de M. Night Shyamalan

Com um suspense psicológico digno de aplausos, o diretor mostra que trajetórias e acaso podem, juntos, conceber grandes personagens.

No ano de 1999, um diretor novato tomou o mundo de assalto com um thriller arrepiante que, de tão bom, até concorreu ao Oscar de melhor filme. Esse longa era “O Sexto Sentido” e este cineasta se chama M. Night Shyamalan. Na época, houve até quem o comparasse com o grande mestre do suspense Alfred Hitchcock e muito se esperava de sua próxima obra. Foi com muita surpresa que o diretor apresentou, em 2000, uma ideia muito a frente de seu tempo: um filme de super-herói realista. “Corpo Fechado”, assim como o longa anterior, era um drama sobre o lugar das pessoas no mundo, com um plot twist tão inacreditável quanto outrem. No entanto, aparentemente, o público não estava preparado para o filme e o relegou a uma categoria menor. O esqueceu. Dezessete anos depois,  Shyamalan volta ao tema que lhe é tão caro em “Fragmentado”. Afinal, qual é o nosso lugar no mundo?

Kevin é um homem portador de um transtorno dissociativo de identidade, que convive com 23 personalidades diferentes. Para complicar, uma de suas personalidades rapta três adolescentes na frente de um Shopping. Não convém contar mais sobre a trama, a fim de não estragar a experiência de desfrutá-la, porém conhecer um pouco mais sobre essa “doença” da vida real, talvez seja algo que a enriqueça ainda mais. Basta saber que as diferentes personalidades do portador, mesmo que dentro de um corpo só, podem possuir características diferentes, como ser mais forte, mais inteligente, e até mesmo manifestar uma doença que não se apresente nas outras.

Shyamalan mostra que o tempo e o fracasso de algumas de suas obras mais recentes como “Depois da Terra” e “O Último Mestre do Ar”, não lhe afetaram em nada e entrega um trabalho, no mínimo, incrível. Digno de seu quarteto de ouro do início de carreira: os já citados “Sexto Sentido” e “Corpo Fechado” e os assustadores “A Vila” e “Os Sinais”, seja no roteiro ou seja na direção, o cineasta se esbalda no que existe de melhor no quesito suspense. Com câmeras fechadas mostrando o sufocamento da clausura e travelings alucinantes por corredores intermináveis, ele climatiza as cenas de maneira a acreditarmos que nós também estamos presos lá com as garotas. Isso quando ele não resolve brincar com as percepções e filmar cada personalidade de maneiras diferentes. Como, por exemplo, o inocente Hedwig, que é mostrado normalmente por cima, para demonstrar como ele é pequeno. Ou Dennis, que possui TOC e é mostrado sempre de forma simétrica… e por aí vai.

E que elenco! A veterana atriz Betty Buckley (“Fim dos Tempos”), empresta veracidade e doçura para a Dr. Karen Fletcher, que é a psicoterapeuta de Kevin, seu alicerce com o mundo real e quem nos guia pela turbulenta história do rapaz. Anya Taylor-Joy, apesar de muito nova, já havia se mostrado uma atriz muito talentosa no surpreendente “A Bruxa”, compõe uma personagem difícil, cheia de camadas e dona de um sofrimento encravado em sua alma. Sem James McAvoy (“X-Men: Apocalipse”), o filme dificilmente existiria do jeito que ele é. Ele interpreta com maestria algumas das personalidades de Kevin e de uma maneira única. Cada nuance, cada olhar, cada voz, até a maneira de respirar, foi pensada para dar vida independente a cada uma delas. Em algumas cenas, é assustador saber diferenciar as identidades se modificando ali na sua frente, somente por um gesto ou um suspiro do ator.

É muito dificil falar de “Fragmentado” sem comprometer o intenso e gratificante prazer de descobri-lo pouco a pouco ao assisti-lo. Se existe alguma dúvida de que Shyamalan voltou a sua melhor forma, “Fragmentado” já basta. Porém a emoção recai mesmo, mais uma vez, naquilo em que o diretor se apegou em toda a sua carreira e que nunca abandonou: a busca incessante pela humanidade de seus personagens. Sejam eles monstros, fantasmas ou super-heróis do mundo real.

Rogério Montanare
@rmontanare

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Fragmentado (2016)

Split - M. Night Shyamalan

Kevin (James McAvoy) possui 23 personalidades distintas e consegue alterná-las quimicamente em seu organismo apenas com a força do pensamento. Um dia, ele sequestra três adolescentes que encontra em um estacionamento. Vivendo em cativeiro, elas passam a conhecer as diferentes facetas de Kevin e precisam encontrar algum meio de escapar.

Roteiro: M. Night Shyamalan

Elenco: James McAvoy, Anya Taylor-Joy, Betty Buckley, Haley Lu Richardson, Jessica Sula, Brad William Henke, Sebastian Arcelus, Neal Huff, Kim Director, Lyne Renee, M. Night Shyamalan, Bruce Willis, Maria Breyman, Peter Patrikios, Roy James Wilson, Robert Bizik, Kerry Dutka, Izzie Coffey, Rosemary Howard, Jon Douglas Rainey

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  • João Guilherme dos S. Nogueira

    Parabéns Rogério!!! Ótima crítica!!!

    Assisti esse filme há 4 dias atrás e ainda tenho assunto pra falar sobre ele…
    Simplesmente ESPETACULAR!!!!!!!

    Shyamalan VOLTOU COM TUDO MESMO… que venham mais obras como essa! ♥

  • Blackk wolfs

    Que venha o Shyamalaverso XD

    • João Guilherme dos S. Nogueira

      KKKK VERDADE!!!! JÁ TAVA ME ESQUECENDO DESSE PLOT TWIST!!!!!! kkKKK

      Fenomenal!!!!!!!!! =D

  • Wladimir Froes

    Deu sono

  • Sarah Oliveira

    Melhor filme de origem de vilão já feio =P

    Shymalanverso rules!

  • Marco Antonio kito

    Eu nao gostei e pelo que eu vi outros no cinema tambem nao , tinha uma baita historia e fizeram merda.

  • Bruno Ochoa

    Dr glass no final foi dá hora. A nota acho q foi muito alta. 9.5 oxi
    Mas é um bom filme.

  • Acho que um 9.5 é bem, bem exagerado…. É o melhor filme do Shyamalan em tempos, verdade, mas esse filme tem problemas sérios de roteiro… Mas é uma pena não poder discuti-los sem dar spoilers…

  • FERNANDO GALLO

    Costumo analisar filmes pela maneira que os acontecimentos me prendem. Muitos criticam um filme como esse, dizendo que é parado, que o roteiro tem problemas, mas não fazem um imersão sem rótulos no próprio entretenimento. Daí tudo flui e todos os ingredientes de um filme aterrorisante, tenso e inesperado estão ali. A crítica aqui mandou bem demais e soube expressar exatamente o que eu vi. Sensacional sem me ater a detalhes…afinal, é um filme e perfeição nem na vida real.

  • Talison

    Enquanto estava no suspense psicológico eu estava achando sensacional. Mas a troca de gênero no 3º ato, mesmo que o filme e o trailer tenham nos preparado pra isso, acabou comprometendo. Sai da complexidade para o simplismo rapidamente, sem nenhuma transição. São 2 filmes distintos.
    Mas, apesar disso, Shyamalan mostra que está retornando aos bons tempos.

  • Paulo Silva

    Porra, tudo agora tem que ter um universo. Mas que bosta. Mas o filme é acima da média, muito bom mesmo. Agora comoa Anya Taylor-Joy é estranhamente bonita hahaha gordelícia!!!

  • Manolo Carvalho

    Razoável o filme. Um dos grandes problemas dos filmes do diretor é querer tornar o assunto do filme muito maior do que realmente o é. Não é tão assustador,ou tenso,ou trágico quanto ele quer demonstrar que é. 24 personalidades. Menos de um quarto são apresentadas. Personagens secundárias genéricas e sem carisma. Tema principal mal explorado. O que salvou o filme foi a interpretação de James McAvoy. Ainda não foi dessa vez que O Sexto Sentido foi superado.

    • Andrey Brito

      Compartilho da sua opinião. 24 personalidades e não foram mostradas nem 6 num filme de 2h – mas que tive a impressão de ter sido mais. 9,5? Faz-me rir. Cheguei a cochilar na sessão de tão parado que esse filme é. Onde ficou o suspense? A tensão? Num filme desse assunto, a presença da psicóloga seria fundamental e a mesma só apareceu para sair de cena. Não gostei do filme.

  • O final acabou estragando o filme. Esperava mais realismo e menos exageros.

    • Rayan

      Eu também achei meio estranho pq achei que seria mais realista mas acho que o filme é tão bom que compensa o final ruim

  • Anderson Lima

    Baseado em fatos reais…

  • Anderson Lima

    Para quem não entendeu: continuação de Unbreakable. Sem mais.