Cinema com Rapadura

OPINIÃO   sábado, 03 de outubro de 2009

Salve Geral – O Filme

Apesar de contar com um ótimo elenco e alguns esporádicos pontos fortes, principalmente no seu terceiro ato, "Salve Geral" é uma recriação pobre dos eventos que aterrorizaram São Paulo em 2006, esquecendo do grande público e romantizando perigosamente a facção criminosa do PCC.

Filmes sobre a famigerada "vida bandida" não são raros. Em 2009 mesmo tivemos o ótimo "Inimigos Públicos" sobre o famoso gângster americano John Dillinger, fita que mostrou de relance outro longa sobre o criminoso, “Vencido pela Lei”, fita lançada em 1934, ainda quando Dillinger estava vivo e que ganhou importância na biografia deste.

No entanto, ressalvadas circunstâncias sociais e um bom distanciamento histórico, é extremamente complicado se realizar uma película dramática tendo como tema uma facção criminosa, principalmente quando as consequências dos ataques desta ainda são tão vívidas na memória da população. O grande problema de "Salve Geral" é justamente tentar pisar em ovos, mas inevitavelmente, quebrá-los.

A fita mostra a história de Lúcia (Andrea Beltrão), mãe dedicada que sofrera um grande impacto pela morte de seu marido, se vendo forçada a diminuir seriamente o padrão de vida de sua família. Seu filho, Rafa (Lee Thalor), em uma noite movida pela raiva e irresponsabilidade, se envolve em um incidente e mata uma pessoa inocente por acidente. Jogado no desumano sistema penitenciário brasileiro, ele acaba se envolvendo com a ascendente organização criminosa conhecida como "O Partido" para poder sobreviver.

Enquanto isso, Lúcia faz de tudo para conseguir tirar seu filho da prisão, se tornando advogada e se envolvendo com Ruiva (Denise Weinberg), uma colega de profissão de moral dúbia, com fortes laços com o Partido. O grupo, aliás, sofre com diversas brigas em sua liderança, começando uma sequência de eventos que levam à decretação de um "salve geral" durante o indulto do dia das mães, ordem dada para que os membros da facção criminosa comecem o inferno no Estado de São Paulo.

A decisão em focar a história em Lúcia tem o claro objetivo de colocá-la com os olhos do cidadão comum dentro da organização. No entanto, o filme joga isso pela janela ao trabalhar a personagem como interesse romântico de um os líderes do Partido, o letrado e culto Professor (Bruno Perillo). Com isso, o longa falha em estabelecer uma ligação entre o espectador e os personagens daquela fita.

Ora, de um lado temos cruéis criminosos de carreira, no meio uma mãe desesperada envolvida diretamente com um dos cabeças destes e, do outro, autoridades gananciosas e policiais corruptos, que cometem verdadeiros crimes "do lado da lei" – vide um caso de flagrante preparado que fez meu lado advogado se revoltar dentro do cinema. Quando os ataques têm início, a plateia não tem como se situar dentro daquela situação, já que a única representante "do povo" está bem longe do epicentro da ação e é representada por Chris Couto como uma caricatura da burguesia paulista.

Por mais que o diretor e co-roteirista Sergio Rezende se esforçasse a dar um olhar mais humano para o Partido, não há como o público esquecer que é o PCC que está retratado ali. Não é à toa que o terceiro ato do filme, quando a ação do grupo é deflagrada, é o mais eficiente da fita, já que o filme mostra criminosos agindo como criminosos, com um realismo e um impacto ímpares. No entanto, reitero que o ponto de vista da população afetada faz uma falta tremenda para a produção, que pode soar para a maioria dos espectadores como uma fita essencialmente "pró-crime", transformando a película em uma experiência antipática.

O que ainda segura "Salve Geral" é o elenco. Com exceção de Andrea Beltrão, os personagens principais da produção são vividos por atores desconhecidos do grande público, algo importante para evitar que tal figura seja identificada como o astro global "X". No entanto, o rosto conhecido de Beltrão jamais rouba o brilhantismo da interpretação da atriz, que faz um trabalho fenomenal como a mãe que venderá sua alma ao diabo para salvar o filho. É uma pena que o roteiro sabote os esforços da intérprete com o forçadíssimo romance entre ela e o Professor.

O outro grande destaque do cast é Denise Weinberg, como a inescrupulosa Ruiva. Seduzindo Lúcia com propostas de manipulação do sistema em favor de Rafa e, claro, dinheiro, a figura vivida por Weinberg é a que mais se aproxima da ideia de um vilão tradicional, contando até com um assistente nerd, o inútil personagem HD (Julio Cesar). Os trejeitos expansivos de Ruiva e suas ações imorais chamam a atenção do público, principalmente em um longa-metragem cheio de tons de cinza.

A falha de Rezende em colocar o ponto de vista daqueles que foram afetados diretamente pelos ataques covardes e impiedosos do Partido é o golpe final em uma trama cheia de potencial, que poderia dar ao Brasil uma verdadeira argumentação sobre as origens daqueles ataques que pararam a maior metrópole da América Latina.

O desapontador resultado final de “Salve Geral” é um filme de moral duvidosa, pouca discussão sobre o problema real da criminalidade e viradas de trama absurdas, embora tecnicamente bem-realizado. Uma pena, de fato.

Thiago Siqueira
@thiago_SDF

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