Cinema com Rapadura

OPINIÃO   quinta-feira, 16 de julho de 2026

A Morte do Demônio: Em Chamas (2026): o peso da violência sem o peso dramático

Sébastien Vaniček entrega um dos capítulos mais graficamente violentos da franquia, mas a força da metáfora e do gore não encontra o mesmo impacto na construção dramática.

Ao longo das décadas, “A Morte do Demônio” permaneceu no imaginário popular ao transitar entre a comédia grotesca e o horror sobrenatural mais sério sem se prender a uma única identidade. “Em Chamas” segue o caminho mais sombrio adotado pelas produções recentes da cinessérie, apostando todas as fichas no terror físico e profundamente violento. A escolha resulta em momentos de grande impacto visual, mas também mostra uma narrativa muito mais preocupada em sustentar a metáfora do que em desenvolver os personagens ou a tensão.

O sofrimento não surge apenas como consequência da violência sobrenatural, mas também como uma extensão da deterioração emocional da protagonista. O filme estabelece uma ligação direta entre as marcas traumáticas do relacionamento abusivo de Alice (Souheila Yacoub) e a possessão demoníaca, tratando ambos como manifestações de um mesmo processo devastador. O diretor Sébastien Vaniček estabelece um ambiente de opressão silenciosa antes mesmo da chegada dos Deadites — um bom exemplo é a cena em que ela divide a mesa com a família do marido, uma das sequências mais desconfortáveis do longa.

A metáfora em si não é um problema, não fosse a incapacidade do roteiro de expandi-la. Depois que o conflito sobrenatural começa, a narrativa passa a repetir continuamente a mesma associação de abuso e culpa com a possessão. Dessa forma, o roteiro perde a oportunidade de aprofundar as consequências emocionais desse trauma, ou ainda permitir que Alice exista como alguém além dele. Ao insistir nas mesmas imagens e nos mesmos conflitos, o simbolismo perde força e passa apenas a ilustrar uma ideia que já havia sido compreendida há muito tempo.

Souheila Yacoub entrega uma atuação física impressionante, sustentando longas sequências de perseguição e desespero. O desgaste emocional é perceptível em suas reações, e a atriz assume sem dificuldades o enorme peso dramático da sua trama. Os demais atores cumprem aquilo que o roteiro exige de forma eficiente, sobretudo depois de se transformarem em Deadites. As interpretações e o excelente trabalho de maquiagem tornam essas criaturas perturbadoras. Contudo, o massacre começa antes da família ser devidamente apresentada, e muitos mal têm tempo para que suas perdas sejam sentidas.

Vaniček demonstra enorme domínio da linguagem visual do gênero, exceto pela dessaturação excessiva das cores que limita a expressividade das imagens. Seu grande mérito está em privilegiar o uso da casa e dos objetos dentro dela como ferramentas de apoio à encenação — uma cena que marca bem esse controle acontece quando ele gira a câmera algumas vezes para manter os personagens enquadrados até mudar as perspectivas e mostrá-los no teto de cabeça para baixo. Os mergulhos rápidos e trajetórias imprevisíveis de drones conversam com a energia caótica que Sam Raimi imprimiu à franquia com uma sensação contínua de instabilidade espacial. O design de som trabalha na mesma direção, com rangidos, respirações, estalos e ruídos metálicos ocupando o espaço sonoro de maneira agressiva.

O gore, elemento característico da franquia, aparece com grande eficiência. Não existe preocupação em tornar a violência elegante ou estilizada — o corpo humano é tratado como um objeto sempre pronto para ser degradado. Vaniček aposta majoritariamente em efeitos práticos; ossos expostos, mutilações, queimaduras e deformações corporais são apresentados com um nível de detalhamento que deleita os fãs do gênero. Por isso é de se estranhar a decisão de recorrer a um Deadite criado em CGI depois de quase duas horas demonstrando confiança nessa abordagem. A criatura digital está longe de alcançar a mesma presença física dos monstros anteriores, afetando negativamente o clímax da obra.

A maneira como o roteiro administra a tensão também incomoda ao interromper a narrativa em vários momentos com pequenas piadas ou referências destinadas aos fãs da franquia. A sequência da motosserra ilustra bem esse ponto, com uma intenção clara de provocar reconhecimento, mas sem acrescentar praticamente nada ao andamento da trama. Em outros momentos, comentários espirituosos quebram o ritmo justamente quando a atmosfera de tensão estava chegando ao máximo.

Ainda assim, essas tentativas não impedem que o filme permaneça excessivamente sério. “A Morte do Demônio: Em Chamas” evita abraçar o tipo de irreverência comum à fase clássica da franquia, na qual o absurdo era o combustível para o horror. Nesta nova incursão, violência e desconforto não faltam, mas o excesso de gore não substitui o peso dramático que falta à narrativa.

Martinho Neto
@omeninomartinho

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