Cinema com Rapadura

OPINIÃO   quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Valsa com Bashir

"Valsa Com Bashir" é um dos maiores socos cinematográficos no estômago já exibidos em tela. Não se deixe enganar pelo seu visual animado: trata-se de um documentário pesado sobre um chocante episódio de um conflito que, infelizmente, não tem data para acabar.

Longas sobre guerras geralmente enfocam o lado heróico das batalhas, a camaradagem entre os soldados, a honra da luta. Poucos são os filmes que exploram o lado mais humano dos combatentes e mais raros ainda aqueles que mostram o trauma daqueles que sobreviveram para contar a história.

A fita começa com uma invasão de cães raivosos a uma cidade, caçando um determinado homem. Exatamente 26 cães. Logo descobrimos tratar-se se um pesadelo recorrente de um veterano soldado israelense da Guerra do Líbano, que procurou seu amigo cineasta Ari Folman, também um sobrevivente do conflito, para falar de seu problema. Perguntado se ele tem memórias da guerra, Folman simplesmente responde que não.

A partir daí, acompanhamos a jornada desse diretor em busca de seu passado perdido. A partir de uma imagem de algo que pode ou não ter acontecido, Ari parte em uma peregrinação, na qual ele reencontrará velhos amigos de sua época no exército, bem como antigos fantasmas, que a maioria silenciosa prefere ignorar. Na base de tudo isto está o massacre de refugiados libaneses por parte da milícia cristã falangista, aliados de Israel que teriam matado milhares de civis em retribuição ao assassinato de seu líder, Bashir Gemayel.

Se esquivando de um tema ainda mais polêmico, Ari Folman se furta de falar das origens do conflito, não tornando este o foco de seu filme. Ao invés disso, temos um intenso estudo do impacto psicológico da guerra em diferentes homens, algo bem mais interessante do ponto de vista humano. Vemos na tela a convergência de um relato aterrador do que uma situação bélica real causa na psique de uma pessoa com um estilo de animação cru que, propositadamente, incomoda bastante o espectador, em uma mistura onírica de um sonho horripilante e uma realidade brutal, ambas ressaltadas pela energética trilha da fita.

Em dado momento, um dos entrevistados diz: "não me filme". Perguntado por Folman se ele poderia ser desenhado, o antigo colega de exército concorda. Interessante notar que o tal entrevistado era visto como alguém altamente inteligente em seu povoado, talvez até um futuro ganhador do Nobel. Transformado em um comerciante próspero na Holanda, ele vê com vergonha seus dias militares, escondendo de seu filho os fatos da guerra. Chega a ser irônica a revelação de que seu alistamento fora voluntário, ato no qual ele buscava uma reafirmação de sua masculinidade.

É quase impossível descrever a tristeza retratada por Folman quando ele mostra o que Beirute se torna ao ser devastada, contrapondo suas ruínas com a metrópole que ela fora outrora. Em outro relato, acompanhamos outro soldado em sua viagem de tanque ao Líbano, até sua unidade ser emboscada por um grupo de resistência. A famigerada "culpa de sobrevivente" dá o tom neste ponto do filme, com o embaraço do homem por ter conseguido voltar sendo evidente em sua voz.

Como sempre, vemos que a omissão dos poderosos sempre causa o sofrimento da "plebe", com Folman não poupando os líderes engravatados e generais relapsos de críticas severas e incisivas, recheadas de ironia e humor negro.

Porém, o tom fica mais sério quando a fita chega a seu ápice e mostra a que ponto chegou o desinteresse dos políticos israelenses em relação às atrocidades com civis, permitidas – e (in)diretamente auxiliadas e iluminadas – por seus soldados. É neste ponto que a realidade vence de vez o pesadelo onírico, se mostrando ainda mais terrível que meros devaneios assustadores.

Folman merece parabéns por sua iniciativa corajosa em mostrar o lado podre de seu próprio país. Não se trata de anti-semitismo ou fomentar o ódio contra os judeus ou qualquer outro povo, longe disso. O que ele fez foi expor uma ferida pútrida provocada por governantes que poderiam ser de qualquer país ou etnia. Homens poderosos, mais do que falhos, que possuem sangue de pessoas comuns em suas mãos. Balas, facas e tragédias não escolhem religião ou cor da pele, a tragédia humana pode recair sobre todos, bastando apenas que estejam vivos.

Este poderoso filme é uma obra que se faz recomendada para todos aqueles que queiram entender um pouco mais sobre o mundo onde vivem e sobre a natureza do verdadeiro mal

Thiago Siqueira
@thiago_SDF

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