Cinema com Rapadura

OPINIÃO   quinta-feira, 19 de junho de 2008

Um Beijo Roubado

Com uma história simples e repleta de simbologias, “Um Beijo Roubado” é um filme delicado sobre o encontro e a capacidade de cada um para simplesmente receber o que a vida tem a oferecer.

A transparente Elizabeth (Norah Jones) sente-se sem rumo. Descobre da maneira mais estranha que seu até então namorado não só terminou o relacionamento, como já circula com outra mulher. É então que ela conhece o especial Jeremy (Jude Law), um homem que possui um bar/café e coleciona chaves de pessoas que abandonaram suas antigas vidas pelo caminho. Quando questionado sobre o motivo de fazer isso, ele responde simplesmente que, se jogar as chaves fora, algumas portas nunca poderão voltar a serem abertas.

De certa forma, a fala dele é uma vitrine para o que vem a seguir. É então que Lizzie decide seguir o sonho nunca realizado pelo novo confidente e viajar os Estados Unidos para ganhar novas experiências, e quem sabe nesse caminho, encontrar novamente o que ficou perdido, para que as coisas voltem a fazer sentido.

É interessante observar a maneira eficaz do diretor Wong Kar Wai de traduzir nas telas o principal trunfo de sua trama: Elizabeth de início é espectadora da própria vida. Confusa com o fim de seu relacionamento (com um personagem que sequer é apresentado, dado sua pouca importância para a trama), ela se coloca na posição de observadora do mundo que parece não conhecer. Só depois que começa a percorrer o rumo de sua descoberta interna, ela passa a tomar seu papel de protagonista e, portanto, suas imagens voltam a ganhar o primeiro plano, em seqüências limpas de qualquer interferência. Envolver-se e deixar-se envolver pelos acontecimentos faz com que ela transforme sua realidade e entre novamente em contato com sua identidade.

O cineasta é tão delicadamente detalhista em sua trama que caberiam inúmeras discussões sobre esse trabalho. É muito forte em todo seu trabalho no cinema a importância das escolhas. Dizem que viver é uma escolha diária – escrever também. Kar Wai é extremamente cuidadoso, e sabe como contar histórias de amor de uma maneira bastante peculiar, por não envolver necessariamente duas pessoas para que aconteça. O amor existe e está ali, às vezes perdido em uma prateleira, disponível para quem se dispor a recebê-lo. “Um Beijo Roubado” não pode ser encaixado como uma comédia romântica, não é um drama, não é só um romance. Ele não poderia ser categorizado em determinado gênero porque esbanja particularidade, é muito íntimo, apesar de ter sido colocado pelo próprio estúdio na ala de “drama-romance”.

A trama, composta por Kar Wai, teve roteiro realizado por este em parceria com o desconhecido Lawrence Block, que até então havia trabalhado como colaborador em filmes pequenos. O roteiro funciona como o palco de uma história bem trabalhada que reserva para quem o assiste pequenas e deliciosas surpresas, como um bom beijo roubado.

Só depois de assistir entendi realmente o que levou o cineasta a colocar a cantora (e estreante nas telas) Norah Jones no papel central da película. Afinal, havia muito em jogo para ele, já que o projeto inteiro foi aguardado com muita expectativa pela crítica e pelos próprios fãs de suas realizações. Sem querer desmerecer a primeira tentativa de Jones, mas no fundo ela acaba por interpretar a si mesma, em uma situação que trouxe muito do que a cantora deve ter vivido dentro do próprio set: de uma atenta espectadora de atores consagrados que estão desenvolvendo o roteiro ao seu redor, para só depois adquirir segurança em arriscar alguns passos em cena. Tímidos, porém destemidos.

Também, pudera. Difícil não se deixar intimidar quando se é iniciante e contracena com Rachel Weisz (vencedora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por "O Jardineiro Fiel"), David Strathairn (“Boa Noite e Boa Sorte”), Jude Law ("Closer – Perto Demais") e Natalie Portman ("Em Qualquer Outro Lugar"). O fato de a tímida Jones não estar à vontade só contou positivamente no longa, já que Elizabeth precisa exprimir o mesmo desconforto em relação ao mundo. O reflexo é um traço marcante e decisivo em uma história que bate tanto na tecla dos encontros não só entre pessoas, mas principalmente em encontrar você entre lacunas que foram perdidas entre traumas e decepções. Existe uma verdade que não foi revelada, mas caminha para acontecer.

Sempre achei Law um daqueles atores charmosos que consegue convencer você de qualquer coisa sobre a qual queira falar. Dessa vez, me apaixonei por ele. Talvez tenham sido as falas bem colocadas, mas acredito que a simplicidade com quem ele abraçou esse personagem foi o que me conquistou. Apesar de não aparecer tanto (o que foi outro acerto, tendo em vista a construção da história), ele está ali, em cada viagem que Elizabeth faz, em cada jornada que a ajuda a encontrar mais de si. Sua despretensão e a maneira como conduz um quase apagado Jeremy o tornaram grande na frente da câmera. Seu papel é de suma importância, porque nele está pautado as principais descobertas da realização.

E claro, em um filme tão gostoso de ser assistido, não poderia faltar a voz suave da (dessa vez sim) cantora Norah Jones, que inicia e termina o longa, embalando a película com uma dessas músicas que faz com que o público saia dos cinemas se sentindo sonhador, mas mais que isso: capaz de, também, embarcar corajosamente em uma viagem interna, em dar aquela reviravolta na vida.

Beatriz Diogo
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