Cinema com Rapadura

OPINIÃO   sábado, 02 de fevereiro de 2008

Meu Monstro de Estimação

Tempos de guerra são difíceis para todos, e o sofrimento familiar durante Segunda Guerra Mundial, com esposas perdendo seus maridos e filhos perdendo seus pais também. No entanto, "Meu Mostro de Estimação" se utiliza desta temática relativamente batida para contar, de um modo bastante sensível, a história de um menino e sua peculiar mascote: a criatura que viria a ser chamada de "o monstro do lago Ness".

Baseado no livro "The Water Horse", escrito por Dick King-Smith (1943 – 1999), mesmo autor da obra que inspirou "Babe – O Porquinho Atrapalhado", "Meu Monstro de Estimação" se passa na Escócia, e começa com um senhor de idade (Brian Cox) contando a dois turistas a verdadeira história do mundialmente conhecido monstro do lago Ness. Levando-nos de volta a 1942, a narrativa nos apresenta ao pequeno Angus MacMorrow (Alex Etel), jovem fascinado pela água, mesmo tendo medo de nadar. Um dia, enquanto passeava na praia, o garoto acaba encontrando uma estranha pedra.

Então o longa nos encarrega de mostrar a dinâmica da família MacMorrow. A mãe, Anne (Emily Watson), trabalha como governanta na mansão de um lorde local, onde reside com Angus e sua outra filha, Kirstie (Priyanka Xi). Já o patriarca da família, Charlie (Craig Hall), estava alistado na Marinha e morreu em combate, fato que o solitário Angus não conseguiu processar ainda.

Passando quase todo o seu tempo livre na oficina de pai, Angus começa a limpar o seu estranho achado e descobre que se trata de um ovo. Deste, sai uma criatura que o menino nunca vira antes, a qual ele passa a alimentar e cuidar, batizando-a de Crusoé, em homenagem ao livro "Robinson Crusoé". Neste mesmo tempo, a propriedade onde reside é agitada pela chegada de um batalhão do exército, liderado pelo disciplinado Cap. Thomas Hamilton (David Morrissey), que lá ficará alojado por ordens do dono da casa.

Ao mesmo tempo, o misterioso Lewis Mowbray (Ben Chaplin) começa a trabalhar na mansão, contratado por Anne como faz-tudo, ocupando a antiga oficina de Charlie, o que acaba criando, inicialmente, um conflito entre ele e Angus. No entanto, os dois e a irmã do garoto acabam se aproximando para cuidar de Crusoé, mantendo a existência do "bichinho" em segredo de todos… pelo menos até a gulosa criatura começar a crescer um pouquinho demais.

Por esta sinopse vemos que o longa jamais funcionaria se não fossemos levados pelos atores e pela equipe de efeitos especiais da produção na existência de Crusoé. Felizmente, o desempenho do jovem protagonista e dos profissionais técnicos envolvidos não desaponta, realizando um ótimo trabalho na criação do monstro e na interação com a criatura digital. Assim, o personagem-título acaba se tornando uma parte integrante de um grupo de intérpretes que realiza um trabalho perfeitamente condizente com a postura despretensiosa desta história fantástica.

O garotinho Axel Etel, que já havia brilhado no filme de Danny Boyle "Caiu do Céu", mais uma vez conquista o público com seu olhar expressivo. Seu jovem personagem tem de lidar ao mesmo tempo com a sua responsabilidade para com Crusoé, com a perda do pai, e tendo ainda de aceitar que sua mãe terá de começar uma vida nova algum dia junto a alguém.

Convivendo apenas com ela, sua irmã e os demais empregados da mansão, a vida do garoto é excessivamente solitária, pelo menos até a chegada de seu monstrinho e de Lewis, que fazem o garoto recuperar sua vontade de sorrir. Louve-se ainda seu trabalho nas cenas compartilhadas com Crusoé, onde sua interpretação realmente nos faz crer que ele está a ver aquela estranha criatura.

Ben Chaplin, como o recém-chegado Lewis Mowbray não compromete, mas também não oferece uma performace muito marcante. A despeito de se sair bem em cenas junto a seus colegas, o ator por vezes parece pouco a vontade em cenas que interage com a criatura digital. No entanto, sua química com Axel Etel acaba compensando este pequeno ponto fraco, estabelecendo na tela uma relação sincera entre seus personagens.

Estupenda em cena, a atriz Emily Watson nos apresenta a absolutamente crível figura de Anne. Criando aquela que é a figura mais real do longa, Watson mostra uma mulher que, após o período de luto, busca alguém com quem possa compartilhar sua vida e ajudá-la a criar seus filhos. Sua preocupação com a timidez e solidão de Angus nunca parece forçada, convencendo desde a primeira cena, onde seu tom de voz mostra sua decepção com o fato de seu filho não ter se divertido como queria na ida à praia.

Já David Morrissey se apresenta como o inicialmente antipático Cap. Hamilton. O personagem tenta estabelecer uma relação com Angus, tentando dar ao garoto um pouco de disciplina, desejando assim criar um elo com a mãe do pequeno. Sua criação aristocrática, além de seu afeto por Anne, o coloca em constante conflito com Lewis, algo que Morrissey e Chaplin conseguem exprimir sem exageros.

O restante do elenco tem participações pequenas. As participações em flashback de Craig Hall como o pai de Angus, interagindo com uma versão ainda mais jovem do menino, vivida por Louis Owen Collins, são sempre tocantes. A estreante Priyanka Xi tem pouco a fazer em cena como a irmã mais velha do protagonista, Kirstie. Já o sempre competente Brian Cox, em seu curto tempo em cena como o narrador da história, consegue colocar em sua interpretação um senso de nostalgia bastante condizente com seu personagem, criando uma figura marcante.

Se mostrando aqui um eficiente diretor de atores, o cineasta Jay Russell conseguiu combinar seu bom elenco com um elegante senso visual. Sua composição de cenas se mostra competente, sem jamais se entregar a exageros de câmera, pecado que outros diretores, ao trabalhar com fantasias, tendem a cometer. Bastante direto, ele se foca em conduzir a história, deixando seus personagens evoluírem naturalmente.

Se utilizando da competência de sua equipe de efeitos digitais e da imaginação de Axel Etel, ele presenteia o público com uma emocionante seqüência entre Angus e Crusoé no lago Ness que, além de tirar o fôlego do espectador – e do protagonista – serve como um ótimo contraponto em relação ao clímax da história. Uma pena que, justamente este ponto alto do terceiro ato perca um pouco de sua força por conta da fotografia demasiadamente escura nesta cena particular.

No entanto, ao contrário de "Aliens Vs. Predador 2", o excesso de escuridão atrapalhou apenas neste ponto do filme, mais precisamente na cena da fuga de Crusoé. No restante da fita, o diretor de fotografia Oliver Stapleton se aproveita da beleza das locações nas cenas externas para colocar em tela paisagens belíssimas.

Na edição, o trabalho de Mark Warner fora bastante adequado, sabendo sempre inserir cenas fora da narrativa em momentos certos, deixando a trama fluir de maneira deveras tranqüila e compreensiva para o público mais jovem. A trilha sonora do sempre ótimo James Newton Howard se utiliza de temas escoceses para dar um toque mais local à fita.

Esta divertida e tocante versão do monstro do lago Ness vale ser conferida por crianças e seus pais. Recomendado.

Thiago Siqueira
@thiago_SDF

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