Mais um filme baseado em livro ganha as telas durante as férias escolares. A história original escrita por Susan Cooper reúne uma densa literatura para um filme de pouco mais de uma hora e meia. O resultado final é que “Os Seis Signos da Luz” entretém, mas não consegue estar no páreo das grandes fantasias.
Depois de “A Bússola de Ouro”, a mais recente investida fantasiosa nos cinemas é o “Os Seis Signos da Luz”. O longa conta a história de Will (Alexander Ludwig), um menino de família grande e que acaba de completar 14 anos de idade. Além das mudanças corporais e o eventual interesse por garotas, Will começa a perceber estranhos eventos em sua vida. Coisas se movem e corvos aparecem em todos os lugares. Confuso, Will acaba descobrindo que é especial. Ele é herdeiro de uma linhagem de guerreiros que lutam contra os poderes malignos da escuridão. O garoto acaba sendo orientado por Anciões que mostram a verdadeira missão de Will: salvar o mundo. Para isso, ele precisa juntar seis signos que estão em diferentes lugares para que a luz e o bem vençam. Uma história simples que é só uma desculpa para eventos macabros e luta do bem contra o mal possam acontecer. Estamos acostumados a ver isso, então não tem nenhuma inovação até aí.
O filme começa seguindo bons passos. Tanto o diretor David L. Cunningham quanto o roteirista John Hodge entram em sintonia para criar um clima de mistério para a história. Não só Will fica confuso com o que ele vai enfrentar pela frente, mas o espectador também fica ansioso para descobrir isso. O primeiro ato do filme mostra um bom desenrolar, aproximando o Will do público, que acaba simpatizando com o protagonista. Hodge acerta também na forma como começa revelando o propósito da história, indo aos poucos de encontro com o conhecimento do protagonista, mas perde a mão quando a aventura começa. A partir da metade do filme, muitos detalhes não são explicados e os constantes perigos que Will passa acabam soando muito forçados, como se as coisas precisassem ser breves para não alongar o filme. Isso acaba não funcionando. Me admiro que Hodge tenha conseguido perder a força do enredo e da resolução dos conflitos, já que ele foi o responsável pelo excelente e memorável “Trainspotting”.
Na trama, as coisas acabam sendo muito óbvias e as surpresas são anuladas, o que é fatal para uma fantasia. Claro que a obra de Susan Cooper deve ser bem mais detalhista e explica vários parênteses que ficam em aberto. Deve ter sido até difícil compactar cinco livros em um só filme, mas aí não é uma decisão que cabe o público ou a crítica relevar. O que importa é o resultado como produção cinematográfica, independente das veias que o roteiro procure correr. Até a questão dos personagens foi prejudicada, dando pouco carisma e espaço para os bonzinhos, com exceção de Will.
Os outros personagens acabam sendo excluídos de um motivo de estar ali, e quando o roteiro tenta dar alguma relevância a eles, acaba não convencendo. O mesmo acontece com o lado romântico em que Will é enquadrado, quando fica atraído por uma menina da escola. Meio a tanta aventura, não tem espaço para que ele protagonize uma cena desesperadora de ciúmes ou de paixonite aguda. O elenco em geral faz o que pode para convencer em tão pouco tempo. O vilão interpretado por Christopher Eccleston parece não ter muita causa, ficando a maior parte do tempo caricato em sua posição. O protagonista, Alexsander Ludwig, exerce bem o que lhe foi posto e carrega como pode o longa nas costas. Os demais atores participam ou em excesso ou sem grandes revelações.
Cunningham também transita em momentos satisfatórios e ruins. É fato que ele tem tato para explorar o texto que tinha em mãos, criando planos realmente interessantes que atraem a atenção do público. Cunningham chega a ser ousado, com destaque para a primeira perseguição que o Cavaleiro faz a Will. O diretor inverte a câmera, aproxima, distancia e sempre registrando emoções e levando o espectador para dentro da ação. Entretanto, Cunningham se perde com o excesso de obscuridade na parte final do filme, quando muitas ações acontecem no escuro e pouco é visto dos personagens. Por mais que tenha dado para perceber que, durante a projeção, o filme vai ganhando um tom mais pesado, a estética não combinou com o que estava sendo levado desde o início. O diretor ainda homenageia (ou não) Tim Burton com os planos semelhantes ao filme "A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça" nas cenas em que o vilão aparece assustando em seu cavalo ou quando tem pequenos encontros com alguém encapuzado. Até o ambiente parece ser o mesmo do filme de Burton.
Cunningham também tem amplo conhecimento para saber a versatilidade dos efeitos visuais que pode conseguir. Mesmo que nem todos sejam tão realistas ou beirando a perfeição como temos em “Harry Potter”, o filme não faz feio. A maior parte do tratamento visual conseguiu atingir o objetivo, mesmo quando não houve naturalidade, como no caso de quando uma casa começa a ser tomada pela água. Cunningham faz com que a água, literalmente, suba as escadas, e computadorizar esse movimento é realmente delicado. Mesmo sem a perfeição desta cena, outras valeram a pena, como o encerramento deste momento embaixo d’água. Ainda como apoio, o diretor utiliza uma trilha sonora que passa batida por também começar eficiente e depois se demonstrar ineficaz. Alguns diretores não podem esquecer que existem cenas que a melhor trilha sonora é feita pelo silêncio.
Produzido pela mesma empresa por trás de “As Crônicas de Nárnia”, “Os Seis Signos da Luz” se mostra mais eficaz pelo visual em si do que pela história pálida e sem muitos atrativos. Um entretenimento mediano para aqueles que gostam de explorar mundos paralelos e presenciar muita aventura. Nada para inovar ou ficar na história do cinema atual.
