Cinema com Rapadura

OPINIÃO   segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Desejo e Reparação

A perfeição técnica de “Desejo e Reparação” é tão arrebatadora quanto sua história, que persegue os 130 minutos de projeção até conseguir mostrar o porquê de ser um filme verdadeiramente espetacular.

Ian McEwan escreveu o romance “Reparação” e foi ovacionado pela crítica por conseguir registrar não só uma história de amor, como aproximar de uma forma incrível os personagens e suas ambições de quem estivesse lendo. Em parceria com Christopher Hampton, ele criou um filme tão intimista quanto, revelando a peculiaridade em deslizar sobre os personagens e suas ambições, além de mostrar as conseqüências de tudo que não só fazemos, mas do que sentimos. “Desejo e Reparação” é um filme que fala de vários amores, mas que aborda o desejo, a desgraça, o arrependimento, e vidas que se desfazem como pó entre os dedos. Uma trama que é acompanhada de uma equipe técnica que há muito não se mostrava tão competente no cinema hollywoodiano, e principalmente de um diretor que tira o fôlego em seu segundo trabalho para as telonas.

A trama é dividida em três atos. No primeiro, conhecemos Cecilia Tallis (Keira Knightley), uma jovem que possui uma paixão reprimida por Robbie Turner (James McAvoy). Os dois parecem não se dar bem justamente por não saberem lidar inicialmente com essa tensão amorosa. Quem também está apaixonada poe Robbie é a garota de 13 anos, Briony (Saoirse Ronan), irmã de Cecilia. Sempre querendo chamar a atenção, Briony recebe a missão de entregar uma carta de Robbie para Cecilia, mas sua doentia paixão a faz ler. Ao ver o conteúdo, acredita que o rapaz pode ser um tarado, por suas palavras baixas. A partir daí, a garota vê a possibilidade de um possível romance entre a irmã e Robbie, até ter a certeza ao presenciar os dois fazendo amor. Chocada com o que viu, ela levantaria uma falsa acusação contra Robbie quando sua prima Lola é encontrada violentada nas dependências da casa da família. Afirmando que a culpa era de Robbie, o garoto é preso e afastado de Cecilia. Nesse meio tempo, uma guerra explode e muda a vida dos personagens para sempre. Para não padecer na prisão, o herói vira soldado de guerra, sem nunca ter esquecido seu amor por Cecilia.

É bizarro ter que descrever impressões de “Desejo e Reparação” que apenas podem ser sentidas. O filme consegue ser uma mistura de espetáculo visual proporcionado pelo diretor Joe Wright com a narrativa arrebatadora do roteiro. É uma produção que não tem medo de se expor e de provocar. A primeira parte da história é marcada pela leveza do romance, até este ser atrapalhado pela obsessão de Briony. Os personagens são bem justificados e colocados em situações que geram interesse do espectador. Quando a guerra chega, o filme não decai do objetivo principal, que é o romance impedido entre os protagonistas. É possível ver a guerra, as conseqüências dela, sem deixar de humanizar os soldados que estão no conflito, mas que possuem coisas bem mais importantes fora dali. Na terceira parte, a Reparação, somos alvo da crueldade das ironias da vida, e compactuamos o arrependimento e as tentativas de Briony reparar o que fez.

Em todos os momentos, Joe Wright é espetacular. Após o debut com o razoável e sonolento “Orgulho e Preconceito”, o diretor é ousado desde o início. Ele sabe muito bem o que retirar de cada situação, sem perder o crescimento de seus personagens. Wright parece fotografar todos os momentos em cena como uma relíquia, dando significado a olhares intensos ou desejos íntimos dos personagens. Quando vai para a guerra, ele ensina cinema ao compor um plano de mais de cinco minutos sem um único corte, com muitos figurantes em harmonia e que registra as conseqüências de uma guerra para quem estava envolvida nela. Quando precisa fazer o desfecho do filme, Wright tira o fôlego com a tristeza dos personagens e com a palidez de suas atitudes. Como se não bastasse a mão abençoada com que agarrou o projeto, ele ainda tem na cabeça todas as formas de como o filme seria montado, ciente das idas e vindas da história, da montagem impecável e da sonorização ímpar.

A equipe técnica não falha um momento sequer. A trilha sonora composta por Dario Marianelli mescla tensão, paixão e traição em diversos momentos. Os instrumentais são tão bem ajustados que poderia tirar a atenção da trama, mas Wright só permite isso quando é a intenção. Na maior parte da história, vemos uma harmonia incrível da trilha sonora e das captações de som ambiente com a fotografia impecável de Seamus McGarvey. Por mais que em algum momento haja excesso, a capacidade em criar um resultado final indiscutível faz de “Desejo e Reparação” uma obra altamente competente.

O trabalho com o elenco é outra responsabilidade com que Wright se ateve. A intimidade que conquistou com Keira Knightley, que também protagonizou “Orgulho e Preconceito”, fez com que a atriz conseguisse um resultado um pouco mais maduro do que no filme anterior. Ainda não sendo uma atuação excepcional, ela se mostra espontânea e sarcástica, além de retratar bem o que o amor perdido fez com ela. James McAvoy certamente despontará sua carreira, já que mostra uma versatilidade incrível, indo desde o apaixonado Robbie, ao Robbie destruído. Entretanto, o maior destaque fica com as três intérpretes de Briony.

A primeira, Saoirse Ronan, constrói a personagem no primeiro ato, fundamental para que as conseqüências de sua paixão doentia sejam demonstradas. Ronan é de uma expressividade incrível, sem deixar a inocência de lado. Mesmo assim ela adere uma crueldade em potencial, talvez por ser jovem ou talvez por cada um ter seu lado maligno dentro. Romola Garai assume o papel aos 18 anos e o mantém com graciosidade. Neste momento, vemos o paradoxo das duas fases de Briony, agora como estagiária em enfermagem que precisa lidar com os feridos da guerra. Em um determinado momento, Briony se desespera com os feridos e Wright faz questão de mostrar o quanto aquilo a abala. É como se ela sentisse não só a culpa de ter destruído o relacionamento da irmã e mandado Robbie para a guerra, mas como se ela tivesse causado a própria guerra. A terceira é interpretada pela experiente Vanessa Redgrave, que tem pouco tempo em cena, mas é responsável pelo mais intenso momento do roteiro.

Adjetivos não conseguem explicar o feito de “Desejo e Reparação”. Uma história imperdível que anda por onde jamais outro diretor ousou andar com tamanha sensibilidade e astúcia. Um filme inesquecível que se destaca pela eficácia técnica e por uma história tocante do começo ao fim.

Diego Benevides
@DiegoBenevides

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