Cinema com Rapadura

OPINIÃO   domingo, 20 de janeiro de 2008

Eu Sou a Lenda

Um mundo detruído? Seres mutantes que se alimentam das poucas coisas vivas que restaram de uma devastação causada por vírus? Will Smith como salvador do resto que sobrou da humanindade? Sim! “Eu Sou a Lenda” tem tudo isso, causando desapontamento aos que esperavam alguma novidade em mais um filme deste gênero.

Existem temas que podem certamente ser explorados indefinidamente sem perder a capacidade de gerar boas histórias. Outros motes, no entanto, requerem um pouco mais de cuidado com relação aos seus derivados, podendo cair no estigma do clichê. O plano de fundo em cima de criaturas ex-humanas que sofreram mutações e agora infernizam quem quer que tenha sobrado imune já havia impressionado espectadores em filmes como o da série “Resident Evil”. Em “Eu Sou a Lenda”, o esquema segue mais ou menos a mesma premissa, sendo que misturado a isso temos ainda a repetida figura de Will Smith como “salvador da pátria”, o suposto último sobrevivente humano de um vírus que transformou as demais pessoas em criaturas predadoras. Neville, personagem de Smith, tenta desenvolver uma cura para o vírus, ao mesmo tempo em que transmite avisos de rádio em busca de outro sobrevivente.

O fato de podermos identificar elementos não tão inéditos assim não faria, por si só, de “Eu Sou a Lenda” um filme com mérito duvidoso. Quem começa a assistir, inclusive, até se envolve na história, como um bom entretenimento. O que acontece, no entanto, é um pecado quase mortal para um filme de ação: a queda do ritmo. De repente, a história eletrizante toma um rumo completamente surpreendente – não pelo sentido positivo da palavra, mas por uma total falta de coerência com o que já havia sido desenrolado.

No elenco, temos Will Smith encarnando um tipo bem frequente em sua filmografia: o herói salvador. Talvez pelo fato de estar acostumado a dar vida a este estereótipo, o ator consegue se sair bem no papel, mostrando ainda ter fôlego para ser o mocinho de filmes de ação em plenos quase 40 anos de idade. O aspecto envelhecido, aliás, foi fato explorado talvez propositalmente pela maquiagem do filme, mostrando o efeito do tempo de isolamento e luta pela sobrevivência no protagonista. Alice Braga, sobrinha da brasileira-exportada Sônia Braga, por sua vez, tem uma participação que frustra as expectativas de quem quer que estivesse esperando algo de seu papel no longa. O desapontamento não vem propriamente de sua performance, mas do fato de seu papel ter sido altamente mal estruturado dentro da trama. Com a aparição de Anna, personagem de Alice, também coincide o descarrilhamento do roteiro, como se o desfecho tivesse sido elaborado com muita pressa de acabar.

Na parte gráfica, felizmente temos acerto. Sem exagero nos traços muito caricaturais, os seres mutantes vistos na tela são convincentes dentro da proposta da trama e, ao contrário de vários filmes que contam com os artifícios do gênero, os efeitos especiais são utilizados na medida certa. A construção de um mundo desabitado há três anos casa bem com a atmosfera desoladora proposta pelo roteiro e ajuda a construir um cenário condizente com as ações que se desenrolam no longa. A trilha sonora não pretende ser notável, mas, na maioria das vezes, é usada adequadamente, já que em alguns poucos momentos sentimos que a música é colocada acidentalmente.

Na verdade, apesar de todas as pequenas falhas quase inerentes a filmes do gênero, “Eu Sou a Lenda” não estaria comprometido se tivesse mantido seu fio condutor linear até o fim. Não seria uma obra grandiosa nem um clássico do cinema moderno, mas certamente se firmaria como um bom exemplar da ação/ficção científica. Assistir ao filme até o fim, aliás, dá uma sensação de morrer na praia e deixa o espectador na espera de algo mais.

Fica a pergunta de quem foi a falha: da direção que perdeu o pulso, do roteiro que perdeu o rumo, ou se a “maturidade” de Will Smith está começando a pesar no vigor de seu desempenho – ou pelo menos na aposta da escolha de seus papéis.

Amanda Pontes
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