Cinema com Rapadura

OPINIÃO   quarta-feira, 05 de dezembro de 2007

Quase Verdade, A

Com sutileza, "A Quase Verdade" consegue trabalhar com bom-humor as intrincadas situações que seis franceses enfrentam em seu cotidiano. Com vidas aparentemente simples, aos poucos fica claro para o espectador que nem tudo dentro desde filme é exatamente o que parece.

O que será que acontece quando seis pessoas comuns são colocadas em xeque dentro de uma mesma trama? Esse foi o primeiro questionamento que me ocorreu logo que os personagens foram apresentados na tela. A proposta inicial do longa parece clara, mas está longe de ser exatamente simples. O filme dá a impressão de ser dois dentro de uma só produção. No início, percebemos um intuito, que é modificado na metade, e acertado no final. Explica-se: apesar da mudança brusca de estado, que lança a questão de ter-se tornado dois longas diferentes, ao final pode-se perceber a íntima ligação entre começo, meio e fim, e como nada está colocado ali de maneira descuidada.

Anne está confusa, passa por um momento em seu casamento que ela define como sendo aquele em que tudo está parado, sem novidade ou motivação. Ela é ex-esposa de Marc (François Cluzet, de "Quatro Estrelas"), um homem confuso que parece nunca estar disposto para uma relação amorosa, sempre deixando seus relacionamentos de lado. Casado com Caroline (Julie Delarme, de "O Silêncio do Mar"), grávida, ele tem dificuldades em lidar com a futura experiência de ser pai, volta a sentir-se atraído por Anne (Karin Viard, de "Inferno") e ainda por cima precisa lidar com a súbita atração por Vincent (André Dussollier).

Vincent por sua vez, é introduzido às telas como um escritor que, a convite de Thomas (Sam Karmann, que também assina direção), atual marido de Anne, vai à Faculdade de Lyon dar algumas aulas e é perseguido pelo fato de não aceitar-se como gay inteiramente. Em meio a todas essas confusões sentimentais, surge a sensível Rose-Marie (Brigitte Catillon, de "O Gosto dos Outros"), uma mulher que não consegue mais deixar-se envolver por ter adquirido uma visão cínica do romance, graças a decepções amorosas.

No meio de uma trama como essa, torna-se impossível não se pensar que a trama possa acabar caindo em clichês. Para a surpresa do público, e muito boa surpresa, isso não acontece. Fato é que o roteiro bem construído por Karin Viard, André Dussolier e François Cluzet consegue trabalhar as situações mais comuns de maneira tão sutil, que ainda que tente cair no óbvio, não consegue. Elas mexem com o íntimo de quem assiste, por tornar aqueles personagens bem trabalhados extremamente reais, palpáveis, dignos de uma acirrada discussão pós-filme.

E claro que, se os personagens merecem tanto mérito, em uma história centralizada principalmente em pessoas, os atores são aliados diretos dos roteiristas e do próprio diretor, neste caso, Sam Karmann. Os primeiros por darem a roupagem inicial daquelas pessoas, e o segundo por extrair o melhor de cada integrante de seu elenco. Encabeçado por Viard (Anne), vencedora do prêmio de Melhor Atriz no Festival de Veneza de 2004, os atores da película conseguiram levar para o longa aquilo de melhor que tinham a oferecer, transformando o que eram anotações de roteiro em pessoas, com dramas, erros e acertos.

O problema em comum dos seis está na dificuldade em lidar com o desejo, em identificar os limites impostos por si próprios e pelo que o resto do mundo consideraria como o correto. Em uma sociedade que vive cada vez mais pelas aparências, fica difícil conseguir trabalhar a própria vontade em meio a tantas informações.

Beatriz Diogo
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