Cinema com Rapadura

OPINIÃO   sábado, 06 de outubro de 2007

Morte no Funeral

Do mesmo diretor de "Os Picaretas" e "Os Safados", este longa-metragem chega aos cinemas brasileiros de forma muito discreta, agradando principalmente por sua despretensão e humor inteligente.

Quando o patriaca de uma típica família britânica morre, todos reúnem-se para prestar uma última homenagem no funeral que será realizado na propriedade localizada no campo. Quer dizer, a princípio. Já no início percebemos a primeira crítica que o cineasta Frank Oz passa para o público: sobre como muitas das pessoas que comparecem aos enterros sequer ligam para o defunto e estão ali preocupadas com tantas outras coisas que nem ao menos sentem realmente a pessoa que se foi.

O filme traz em sua trama várias histórias paralelas que se entrelaçam. Os dois irmãos que, de certa maneira centralizam a história, Daniel e Robert, travam uma típica relação entre pessoas que precisaram aprender a conviver juntos pura e simplesmente porque são parentes. Fica claro que entre os dois existe uma intimidade provocada pela convivência, mas que em comum eles não têm nada a ver um com o outro. Daniel sonha em ser escritor; Robert é um famoso romancista. Daniel preparou um discurso em homenagem ao pai e ninguém faz questão em disfarçar a frustração em não escutar as palavras inspiradas de Robert. E os segredos dentro dessa família estão só começando, porque tudo complica ainda mais com a chegada de um anão misterioso que ameaça os dois de contar a todos que tinha um caso com o pai deles, caso não concordem em pagar quinze mil libras.

Ácido, irônico e fazendo piada com temas politicamente incorretos, Oz consegue tirar o que há de melhor em cada uma das situações. Brinca sem parecer taxativo ou sem cair na ridicularização dos elementos. Faz rir pela simples maneira de lidar com situações cotidianas das quais pouca gente se atreve a brincar. Ironiza a pequena sociedade burguesa da Inglaterra, que trata tudo com tamanha formalidade que chega a perder o que seria mais importante: as emoções.

A vontade do cineasta em criticar a perfeição pregada nesse meio vinha sendo trabalhada desde o mal sucedido "Mulheres Perfeitas", último trabalho antes de "Morte no Funeral". Se lá ele pecou em cenas exageradas e que não funcionaram bem (mesmo trazendo Nicole Kidman como sua protagonista), aqui ele soluciona esses problemas e traz um elenco não muito conhecido do público, porém extremamente talentoso.

O elenco, aliás, é tão sensacional e decisivo para este filme que ao fazer citações eu corro sérios riscos em desmerecer alguém. Porém, há que se falar em alguns nomes. Matthew Macfadyen ("Orgulho e Preconceito") entra na pele de Daniel, dando a essa produção ainda mais credibilidade. Mesmo não sendo uma das figuras mais conhecidas da indústria cinematográfica, ele se firma cada vez mais, provando ser, além de bom ator, versátil. Sem cair na falsa caracterização desse homem, Macfayden consegue tirar humor de maneira inteligente e bastante discreta. Entretanto, a discrição fica somente na sua convincente atuação, porque o público cai na risada. No elenco ainda merecem créditos Daisy Donovan e Alan Tudyk, que encabeçam uma das tramas paralelas que se desenrola durante a película. Tudyk merece destaque por ter encarado, talvez, um dos personagens mais difíceis de "Morte no Funeral", por ser ele o mais passível de cair no ridículo e óbvio. E não posso deixar de citar Peter Dinklage, que interpreta o personagem sem noção que acaba desenrolando muitos dos fatos hilários da trama.

O roteiro é bem amarrado e tem ótimos ganchos. Dean Craig é praticamente estreante na área, não tendo realizado muitos trabalhos. Anteriormente ele havia feito "Caffeine", que sequer chegou a estrear no Brasil. De inexpressivo, ele consegue acertar a mão agora, travando situações inusitadas. Talvez seu único pecado tenha sido a inserção de uma seqüência provavelmente desnecessária, mas nem mesmo isso consegue tirar o brilho da trama.

"Morte no Funeral" é a melhor comédia que chegou aos cinemas este ano, acertando por investir na inteligência dos seus espectadores.

Beatriz Diogo
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