Desrespeitando ao mesmo tempo ao Império Romano e à lenda do Rei Arthur (onde foi que eu já vi isso antes?), o maior destaque desta fraquíssima produção - que mais parece o piloto de uma série de TV ruim - é verificar que a carreira de Sir Ben Kingsley continua a ir de mal a pior.
Depois do sucesso da trilogia "O Senhor dos Anéis", vários filmes tentaram emular a fórmula épica da superprodução de Peter Jackson, com vários fracassos retumbantes e alguns sucessos parciais. Porém, poucos de tais projetos conseguiram fracassar tanto quanto "A Última Legião", uma produção que, embora possua um elenco estelar, este não corresponde a seu potencial, tanto por conta de seu próprio desinteresse, quanto por um roteiro extremamente falho. Além disso, vários outros problemas permeiam a fita, que por momentos lembra muito um "primo pobre" da série de TV "Roma" e do já ruim "Rei Arthur", dirigido por Antoine Fuqua. Acreditem, quando uma película cinematográfica perde em termos técnicos para uma série de TV, algo está errado com a primeira. E olha que nem entramos na questão dos inexistentes méritos artísticos da fita.
Na trama, elaborada por quatro roteiristas diferentes, acompanhamos o golpe dos bárbaros (e estereotipados) gódos contra o Império Romano, atacando sua capital e capturando o jovem e recém-empossado imperador Rômulo (Thomas Sangster), assassinando a família deste e todos em seu caminho. O líder dos bárbaros, Odoacre (Peter Mullan), resolve exilar o infante em uma ilha-prisão ao invés de matá-lo, o que enfurece o segundo em comando dos invasores, o brutal Wulfila (Kevin McKidd). Acompanhando o imperador sem reino em seu cativeiro está o velho Ambrosinus (Ben Kingsley), que passou sua vida em busca de uma lendária espada que pertenceu a Julio César. Enquanto isso, o chefe da guarda pessoal de Rômulo, Aurélio (Colin Firth), prepara o resgate de seu soberano, sendo o auxiliado por um senador romano, contando apenas com seus homens de confiança e a donzela guerreira indiana Mira (Aishwarya Rai). Eles conseguem resgatar o velho e o menino, mas encontram uma situação política bastante desfavorável, sendo obrigando a partirem numa busca pela a última legião do exército romano, situada junto à ilha da Bretanha, que se encontra ameaçada pelas forças do vilanesco Vortigern (Harry Van Gorkum).
Os problemas do longa já começam na história acima. Ao assistirmos a um filme neste estilo, não buscamos uma reconstrução fática dos acontecimentos, razão pela qual uma reclamação pela falta de fidelidade histórica seria incabível. Porém, há de se esperar uma trama que faça sentido. Ora, durante a projeção, a motivação dos personagens muda a todo o momento. Se, inicialmente, o plano era reunir forças para lutar contra a invasão bárbara a Roma, por que o grupo liderado por Aurélio resolve fundar um novo reino na Bretanha? A mudança de idéia dos protagonistas não fora bem explicada – assim como nada no filme, o que mostra a falta de coordenação entre os roteiristas. Aliás, o desespero mostrado nos últimos momentos da fita para ligar esse arremedo de história à lenda do Rei Arthur consegue desrespeitar ainda mais a inteligência do espectador.
Apesar de contar com um elenco mais do que razoável, nenhum dos atores consegue entregar uma interpretação ao menos interessante, começando pelo protagonista do longa. Colin Firth vive o soldado Aurélio como se tivesse em um dos filmes da franquia Bridget Jones, não dando nenhum peso dramático ao veterano militar. Além disso, ele não possui nenhuma química com seu "par romântico", a atriz Aishwarya Rai, que, a despeito de sua beleza estonteante, possui o mesmo carisma que uma macieira. Aliás, o relacionamento dos dois é estranho, já que não trocam um beijo sequer durante todo o filme, apesar do relacionamento ser explicitado pela trama. Já Ben Kingsley deve estar querendo que lhe tomem seu Oscar, continuando sua série de aparições em filmes desastrosos. Neste filme, o ator encarna uma imitação ruim do Gandalf interpretado por Ian McKellen em "O Senhor dos Anéis", com sua caracterização lembrando muito com um cosplay do personagem criado por Tolkien em algum evento de anime, o que é piorado por suas frases de efeito, que devem ter sido tiradas de um RPG muito do mal-escrito. Ah, se temos um cover do mago cinzento, claro que teríamos uma versão de Frodo Bolseiro. O herói relutante da produção é vivido por Thomas Sangster, que até consegue angariar um pouco de simpatia junto ao público, mas por sua juventude, não por sua interpretação.
Se um filme é tão bom quanto seus vilões, está explicado o motivo da baixa qualidade da película. O Odoacre de Peter Mullan é um dos conquistadores mais influenciáveis e incompetentes que já vi. Aliás, pouco vi, já que o personagem simplesmente some depois do primeiro ato, sendo substituído por Vortigern. Interpretado pelo desconhecido Harry Van Gorkum, ele jamais tira uma máscara ridícula de seu rosto, e se restringe a falar de um modo supostamente ameaçador, chegando a lembrar um vilão de filmes do Didi. Não podemos esquecer de Wulfila, o grande antagonista do herói que promove o duelo final. Kevin McKidd jogou fora todo o respeito que tinha ganhado com seu ótimo trabalho na série "Roma" com uma ridícula interpretação do típico assassino brutamontes, apesar de Wulfila ser o personagem mais racional dos que aparecem em cena – o que não é difícil.
Há de se reconhecer algo: o diretor Doug Lefler sabe respeitar suas origens. Egresso de séries como "Mortal Kombat", "Xena – A Princesa Guerreira" e "Hércules", ele mantém o mesmo nível técnico de seus trabalhos televisivos nesta sua estréia cinematográfica. Mostrando absoluto desconhecimento da linguagem cinematográfica, ele se mostra incapaz de dirigir seus atores, contar uma história de maneira adequada ou mesmo criar um plano esteticamente agradável, chegando até mesmo a tentar imitar a passagem da Sociedade do Anel por Caradhras em determinada cena, num esforço obviamente falho. As cenas que mostram batalhas são tolas e sem emoção. Aliás, os embates finais, que deveriam ser as cenas mais elaboradas da produção, são pateticamente anti-climáticos, com o destaque negativo ao confronto entre Ambrosinus e Vortigern. Aliás, o (des)mérito não é de todo de Lefler, já que igualmente sofrível está o trabalho do diretor de fotografia Marco Pontecorvo. A edição feita por Simon Cozens é mais um item da longa lista de falhas da película. Um exemplo? Preste atenção na introdução do filme e tente dizer se aquilo não é a abertura de algum seriado de TV, sem contar a constrangedora seqüência que encerra a produção.
Totalmente esquecível, a existência de "A Última Legião" só serviu para Hollywood, mais uma vez, jogar na latrina a lenda do "Rei Arthur" e, de novo, aproveitar a ocasião para sujar a épica história do Império Romano.
