O terror psicológico “Os Mensageiros” é o primeiro projeto dos diretores asiáticos Oxide Pang Chun e Danny Pang em língua inglesa e consegue bons momentos de tensão. Entretanto, o projeto falha ao contar a parte dramática da história. Esse desnível prejudica a boa resolução do filme, mas se pegarmos somente a parte do terror, tiramos um saldo positivo.
Uma típica história de família americana. Jess (Kristen Stewart) é uma jovem rebelde de dezesseis anos que está se mudando com a família para uma fazendo na Dakota do Norte. Saindo da agitação de Chicago, os motivos de Jess, seu irmão Ben e seus pais ainda são desconhecidos, porém fica claro que eles estão se refugiando após traumáticos problemas familiares. Tentando manter a ordem na nova vida que decidiram levar, o patriarca Roy (Dylan McDermott) precisa ganhar a vida e começa a cultivar girassóis com a ajuda do forasteiro Johnny (John Corbett), enquanto a matriarca Denise (Penelope Ann Miller) cuida da casa e dos filhos. No silêncio e calmaria da fazenda, o pequeno Ben começa a ver alguns fenômenos paranormais, que pertubariam mais tarde também a vida de Jess. Sem credibilidade com os pais, a garota tenta avisar que fenômenos estranhos acontecem naquela casa, mas Roy e Denise desacreditam. A partir daí, Jess começará a desvendar a história dos antigos moradores do lugar.
Logo após o prólogo que já funciona como base para informar que algo de anormal aconteceu no passado da casa, enquanto a família Solomon se muda para a fazenda, podemos perceber a primeira ação que não funciona mais no cinema. Em tempos onde a vida agitada da cidade continua sendo a melhor opção de trabalho, estudo e convívio, estranha-se que uma família claramente urbana tenha por maior objetivo buscar a calma do interior. Ainda mais quando a casa em que eles irão reconstruir a vida é sinistra e cheia de corvos, sem falar das lendas urbanas que falam sobre estranhos acontecimentos na tal casa. Até porque a história poderia acontecer em qualquer outro lugar. Mesmo assim, o principal acerto do início da história é não revelar o porquê daquela família estar se distanciando da cidade. A priori, há certa tensão e mistério que envolve a vida dos quatro personagens principais e isso é bem sustentado até a segunda metade da película, quando o mistério cai e não ganha vitalidade.
Dados os conflitos iniciais, os roteiristas Mark Wheaton e Todd Farmer decidem abordar a já discutida questão que crianças podem ver fenômenos paranormais que adultos não conseguem. É com o pequeno e carismático Ben que as primeiras aparições de fantasmas irão acontecer, depois passando a atormentar Jess. Tendo visões e testemunhando fatos do outro mundo, a garota passa por maus bocados quando é atormentada pelo seu lado sensitivo, que a obriga a descobrir o que aconteceu com os antigos moradores da casa. De quebra, ela arranja um amiguinho para ser seu cúmplice durante os momentos decisivos, por mais que este pouco dure em cena.
Sem tantas novidades, Wheaton e Farmer propõem uma história que peca por não conseguir harmonizar o lado dramático do lado de terror, como o recente “Espíritos 2” fez. Os roteiristas não conseguem encaixar com naturalidade as descobertas de Jess com os seus conflitos familiares. Quando os porquês da família estar ali são revelados, já não há nenhum efeito interessante para a trama, sendo pouco justificável e facilmente esquecida. Porém, são nos momentos de terror que os roteiristas e os diretores conseguem seus melhores feitos. É fato que o terror das produções contemporâneas ainda se sustentam nos sustos inesperados, mãos na maçaneta da porta, barulhos e batidas, além do exagero no áudio que faz qualquer espectador pular da cadeira. “Os Mensageiros” também traz isso. Porém, o diferencial é que há a preocupação em criar mais um clima de tensão do que dar medo em si. Isso é fato não só pelos fantasmas recriados sem naturalidade, mas também pelo uso abusivo (e positivo) das longas cenas de tensão que surgem como um tormento para quem assiste. É como se soubéssemos o que viria a acontecer, mas mesmo assim fosse inevitável não ficar com frio na barriga. Isso se aplica com maestria quando Jess segura Ben nos braços no corredor e o garoto vê um dos fantasmas, enquanto Jess fica imobilizada durante vários minutos. Outra cena bem trabalhada no quesito timing é quando Ben enxerga algo refletido na colher e até mesmo quando este sai andando até a porta do sótão, como uma armadilha para Jess ser atacada. Além de tais cenas, não poderia deixar de citar a primeira aparição de efeitos paranormais, quando a casa parece ser destruída aos olhos de Jess, em uma seqüência incrivelmente bem registrada.
Ainda na história, espera-se uma boa resolução para os efeitos paranormais, mas os roteiristas só conseguem ficar no óbvio, resolvendo-o em uma questão temporal mais curta, porém com mais momentos de tensão que só não são melhores trabalhados pela insegurança de alguns atores do elenco. A protagonista Kristen Stewart consegue uma boa performance nas cenas onde aparece sozinha e é alvo dos fenômenos. Porém, o mesmo não se repete quando divide a cena com sua família. Talvez, a falta de química para que fizesse crer que entre eles aconteciam problemas foi a responsável para isso. Dylan McDermott faz o típico pai que “quer manter a família unida”, mas seu porte viril pouco combina com a vida de camiseta e chapéu no campo. Penelope Ann Miller vive a mãe angustiada que não se dá bem com a filha e pouco tem a oferecer em suas cenas. O mesmo acontece com John Corbett ao interpretar o visitante Jhonny. Além de uma caracterização inconveniente, o roteiro não proporciona motivos suficientes para que seu personagem possa funcionar de um jeito coerente desde sua primeira aparição. Com um elenco pouco interessante, o maior destaque é o pequeno Ben, um misto de ingenuidade e mistério que provoca redenção de qualquer admirador de crianças fofas (!).
Os diretores conseguem ainda trabalhar o espaço onde a história se passa, ajudados pela direção de fotografia que faz bom uso dos elementos em cena, além da iluminação (ou a falta dela) que varia nos ambientes. Os efeitos visuais são instáveis. Alguns deles aparentam emborrachados demais e dão pouca credibilidade, porém alguns conseguem realmente assustar. A trilha sonora é outra que não se apresentou tão estável no longa. Em alguns momentos, ela aparece como exagero às cenas, tomando espaço do silêncio, que seria muito melhor para criar mais tensão à trama. De qualquer forma, é fato que a direção de arte fez o que pôde para fundir todos os elementos necessários para recriar a realidade que Jess estava vivendo. Entre tantos altos e baixos, o filme revela-se sim um bom representante em seus momentos de terror e tensão, porém falha ao não conseguir conciliar os aspectos técnicos e principalmente de roteiro. Mesmo assim, ainda é uma boa pedida para aqueles que gostam de alguns sustos despretensiosos, sem exigir mais do que isso.
