Cinema com Rapadura

OPINIÃO   sábado, 01 de setembro de 2007

Licença Para Casar

“Licença Para Casar” é mais uma comédia que todo mundo sabe como começa, se desenrola e acaba. O diferencial dela é que não possui nenhum atrativo forte o suficiente para ficar ao menos entre as comédias românticas que, mesmo previsíveis, são simpáticas. O melhor do filme está nos erros de gravação que aparecem durante os créditos, por isso, vale a pena esperar o final.

Roteirizada por quatro cineastas não tão conhecidos, exceto Tim Rasmussen que trabalhou anteriormente na história de “Entra Numa Fria Maior Ainda”, a trama dá foco à vida de Ben (John Krasinski) e Sadie (Mandy Moore), dois apaixonados que resolvem ficar noivos. Sonhando com o tradicional vestido branco e a entrada triunfal na igreja que a família sempre freqüentou, o casal acaba tendo um empecilho para realizar o matrimônio: a igreja de Santo Agostinho está com casamentos marcados para até os próximos dois anos. Decepcionados por não quererem esperar tanto tempo assim, eis que o pastor Frank (Robin Williams) encontra um cancelamento na agenda dos casórios e reserva a vaga para Ben e Sadie. O que os dois não esperavam era que seriam obrigados a passar por um curso de pré-casamento, criado e patenteado pelo pastor Frank, que visa descobrir se os noivos têm mesmo tudo que precisam para se casar e viverem felizes para sempre.

A partir daí, a sonhadora Sadie concorda que o melhor é respeitar as regras do curso e ir para todas as reuniões ministradas pelo pastor Frank. Como já era de se esperar, o noivo Ben não simpatizou muito com tantos obstáculos, muito menos quando sabe que precisará ficar sem sexo até a lua de mel, que acontecerá apenas em três semanas. O filme mostra a constante busca de Ben e Sadie pelo entendimento como um verdadeiro casal, até culminar naquilo que poderia ser uma redenção, onde não acreditam que podem dar certo, justamente por estarem se conhecendo melhor e encarando problemas conjugais antes mesmo do matrimônio. Até aí tudo bem. A história não é original, mas conflitos amorosos podem ganhar uma nova roupagem e serem convincentes se bem argumentados, como temos nos excelentes “Closer – Perto Demais” ou “Tudo Acontece em Elizabethtown”, que não abordam o casamento, mas discutem as crises da vida a dois de formas peculiares. Em “Licença Para Casar”, o que vemos é uma tentativa frustrada e desinteressante de fazer os protagonistas confirmarem o amor que sentem um pelo outro.

O maior problema do roteiro é justamente por causar momentos pouco aproveitáveis ao espectador. O curso ministrado pelo pastor Frank põe Ben e Sadie em situações embaraçosas não somente como casal, mas como personagens. É difícil acreditar que Sadie seja tão conservadora e não perceba que Frank está apenas testando os dois com inúmeras palhaçadas para fortificar o relacionamento. A partir do momento em que Ben percebe isso e tenta ir contra ao curso do pastor, já quebra uma linha argumentativa da história, deixando com que o personagem de Mandy Moore se torne imbecilizado. Até porque não há uma abordagem que demonstre a ingenuidade ou o tradicionalismo apurado da garota, fazendo com que todas as suas aparições seguindo os conselhos de Frank sejam desinteressantes. Além disso, o próprio pastor Frank aparece na trama como um ser qualquer que apenas quer atrapalhar o relacionamento. Quando suas intenções tendem a ficar claras, a reviravolta não funciona, pois não há texto para a história se manter. Até porque para entrar no clímax e finalizar a história, o diretor Ken Kwapis (“Quatro Amigas e um Jeans Viajante”) investe um timing errado que não demonstra naturalidade.

Após a redenção do amor de Ben e Sadie, começa a luta para a retomada do relacionamento, o que culmina no melodrama convencional da reconquista, que enfada muito mais o espectador. O que continua sendo imperdoável, já que muitos filmes do gênero conseguiram fazer algo “bonitinho” para fechar a história de amor, como no correto “De Repente é Amor” e no recente “Um Beijo a Mais”, apesar de que neste último o melodrama foi exagerado. De qualquer forma, “Licença Para Casar” peca em praticamente todos os aspectos que envolve, do roteiro à direção. O diretor Kwapis não dá ritmo à trama e desgasta o público com tentativas forçadas de fazer com que aquilo se aproxime da realidade de qualquer casal. Errando a mão na condução do longa, Kwapis ainda assim consegue tirar poucos risos do público, como os impagáveis bebês gêmeos mecanizados que Ben precisa cuidar enquanto faz compras, e estes ainda durante os minutos finais, tomando sol na Jamaica. Contrapondo isso, cenas como a de Ben guiando Sadie no carro ou até as discussões dispensáveis que têm antes de dormir são frustrantes. Kwapis faz também mau uso do kroma key, ou fundo azul/verde, usado para recorte de cenário e não investe em uma trilha sonora eficiente.

No elenco, Mandy Moore está diferente de seus personagens anteriores, porém com uma performance medíocre. Sem qualidade na construção da personalidade de Sadie, parece que a moça está sempre sorrindo e saltitando por tudo que falam para ela. Criando uma personagem plana, quando precisa solidificar o carisma do público, não consegue por incompetência própria. O que é uma pena, visto que ela está até relativamente correta em “Um Amor Para Recordar” e em “Minha Mãe Quer Que Eu Case”. Já o timing de John Krasinski para a comédia é instável, lembrando bastante a forma como Zach Braff age em suas dramédias, sendo que este sempre sabe o que está fazendo e é carismático. Comparações à parte, Krasinski tem um bom andamento dentro da trama, porém, quando precisa elevar o clímax, não tem punho o suficiente para construir uma boa cena. O experiente Robin Williams já não tem muito como variar seus personagens e está do jeito de sempre. Desta vez, faz do pastor Frank um ser repudiável pelo curso nonsense que expõe o casal. Para um comediante de primeira linha, é preocupante não rir neste novo trabalho.

Seguindo um ritmo lento e nem um pouco carismático, “Licença Para Casar” não se junta às comédias românticas contemporâneas que, mesmo clichês, nos fazem acreditar na ideologia do amor acima de todas as coisas. As duas semanas em que esteve entre os dez mais vistos nos Estados Unidos renderam um bom dinheiro e talvez se repita também no Brasil. Porém, sair satisfeito será uma raridade. Prevendo isso, os produtores optaram por colocar os erros de gravação no final do filme, para divertir o público e tentar compensar a falta de diversão do filme. Pareceu até que nos bastidores Mandy Moore e John Krasinski tinham mais harmonia do que no próprio filme. Nota dois.

Diego Benevides
@DiegoBenevides

Compartilhe

Saiba mais sobre