Cinema com Rapadura

OPINIÃO   sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Moulin Rouge – Amor em Vermelho

“Moulin Rouge” chegou quebrando conceitos e ultrapassando barreiras. O filme de Baz Luhrmann redefiniu o gênero musical e ousou na forma e conteúdo. Reunindo sucessos badalados da música pop, consegue agradar mesmo usando da velha história de amor. Visual extravagante e montagem frenética são só alguns elementos que fizeram desta uma produção cultuada tanto por consumidores do cinema de massa quanto por cinéfilos mais exigentes.

Na Paris do final do século XIX, o Moulin Rouge era o mais importante bordel freqüentado pela burguesia francesa. Dentre as belas cortesãs do local, conhecidas como “garotas esplendorosas”, uma se destacava pela beleza e pelo poder de atração que exercia sobre os homens. Apelidada de “diamante cintilante”, Satine (Nicole Kidman) era disputada todas as noites por homens ávidos em possuí-la na cama. Christian (Ewan McGregor) chega à cidade-luz, em 1899, para tentar a vida como escritor. No meio de uma agitação cultural que pregava os ideais de liberdade, beleza, verdade e amor, ele conhece Toulouse (John Leguizamo), desesperado por concluir sua montagem a tempo de apresentá-la a seu investidor Harold Zidler (Jim Broadbent), proprietário do cabaré.

Na noite em que o novo escritor seria apresentado a Zidler, Satine confunde Christian com o Duque (Richard Roxburgh), um homem rico com sérias intenções de transformar o Moulin Rouge em um teatro e sua principal estrela em uma grande atriz, com a condição de tê-la com exclusividade. Dessa confusão, nasce uma paixão que porá a vida dos dois amantes e a propriedade da casa noturna em risco.

“Moulin Rouge – Amor em Vermelho” chegou em 2001 revolucionando a linguagem dos musicais. Notado no Festival de Cannes, o longa-metragem do diretor Baz Luhrmann (“Romeu + Julieta”) recebeu, no ano seguinte, seis indicações ao Globo de Ouro e oito ao Oscar, incluindo melhor filme. Depois de inovar na década de 90 com o polêmico “Romeu + Julieta”, Luhrmann vai mais além, ousando na forma de contar a mesma história sobre um amor impossível. O filme é um exemplo clássico de que o como se conta uma história é mais importante do que a história em si. Dados os destinos dos personagens, a forma que o conteúdo toma chama mais a atenção do que ele próprio.

O resultado é arrebatador. As canções, o ritmo, as atuações, a direção e os diálogos envolvem o espectador. Os mais conservadores podem chiar, mas é quase impossível resistir à linda história de amor entre os protagonistas. Porém, não só de romance é feito “Moulin Rouge”, mesmo sendo esse o tom dado à produção, especialmente após a primeira metade. Humor e tensão são recorrentes no trabalho realizado pelo diretor e pela montagem de Jil Bilcock. Essa última muito importante, já que o ritmo frenético toma conta do filme. Os planos de curta duração, os rápidos movimentos de câmera e a explosão de efeitos e cores da direção de arte exigiram muito de Bilcock e poderia ter causado o efeito contrário. Todo esse exagero exigiu muita coragem. O público acostumado a produções do gênero como “A Noviça Rebelde” poderia e deve ter estranhado no início, mas bastam quinze minutos de exibição para todos os receios serem desfeitos.

Também roteirista ao lado de Craig Pearce, Luhrmann também ousou ao optar por levar clássicos do pop às vozes de seu elenco. Ao invés de criar canções originais, ele caçou grandes sucessos do pop, incluindo canções extremamente melosas e bregas e as transformou, dando a elas uma roupagem mais moderna e áurea cult. Na trilha sonora, você encontra desde Madonna até Beatles, passando por U2, Elthon John, Whitney Houston, Joe Cocker, David Bowie e Fatboy Slim, além de clássico de outros musicais famosos como “A Noviça Rebelde” e “Os Homens Preferem as Loiras” revisitados. Apesar de tantos sucessos já consagrados, a canção original dos amantes “Come What May” ainda é uma das preferidas do público e quiçá a mais bonita.

Como Satine, Nicole Kidman é a encarnação da perfeição. Com o trabalho reconhecido e finalmente consagrado, ela recebeu o Globo de Ouro de melhor atriz em uma comédia ou musical e foi indicada ao Oscar. Versatilidade é o seu sobrenome. Em um único trabalho somos apresentados a diferentes facetas da atriz. A veia cômica, o talento dramático, a cantora, a dançarina e a cara-de-pau. Por vezes, ela e o restante do elenco são colocados em situações nonsense como no musical de “Spetacular Spetacular”, mas o envolvimento é tanto que o constrangimento passa longe e o público é contagiado pela cena. O poder da voz reconhecido aqui foi mais tarde utilizado na animação “Happy Feet: O Pingüim”, que segue os mesmos moldes de “Moulin Rouge”, reciclando sucessos musicais. Ewan McGregor tira de letra a força da presença de Kidman e acompanha o ritmo de sua parceira. Outros que garantem ótimos momentos são Richard Roxburgh, John Leguizamo e toda sua trupe de artistas.

Se musicalmente falando o filme é uma explosão, visualmente ele consegue repetir o feito. Abusando das cores e do vermelho, em especial, o trabalho de direção de arte e figurino se sobressai. Vencedores do prêmio da Academia, Anne Beauchamp (diretora de arte) e a dupla Catherine Martin e Angus Strathie (figurinistas) criaram um visual vanguardista de encher os olhos e tocar o coração. Impecável em todos os aspectos, “Moulin Rouge” é um espetáculo para se assistir não uma, mas quantas vezes forem necessárias para que se compreenda sua grandeza e importância. Agradando aos fãs dos grandes romances, aos adoradores da cultura pop e aos amantes de cinema com “C” maiúsculo, este musical é emoção garantida.

Igor Vieira
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