Com uma repercussão um tanto quanto discreta e sem causar muito alarde, a Pixar consegue definitivamente chamar a atenção e ratificar o seu bom desempenho dos últimos anos. E o responsável por isso tudo é nada menos do que um ratinho que sonha em ser cozinheiro e que, por fim, acaba por literalmente deixar o mundo boquiaberto com tamanha genialidade.
Não se deixe impressionar pelas conclusões precipitadas. Talvez este seja o melhor conselho para aqueles que não são fãs assíduos de animações ou simplesmente não tiveram o interesse despertado para conferir o filme em questão. Como já é de conhecimento do público em geral, o ano de 2007 vem sendo marcado pelas impactantes estréias de “Homem-Aranha 3”, “Piratas do Caribe 3” e companhia. Em meio a esse furacão de blockbusters hollywoodianos, surge um estranho no ninho chamado “Ratatouille”, aposta da Pixar que veio de maneira menos alarmante, mas que acabou por se tornar uma espécie de “unanimidade positiva” dos espectadores.
No filme, podemos nos deparar com a inusitada história de Remy, um esperto ratinho que tem o sonho de se tornar chefe de cozinha. Para isso, ele acredita em seu talento nato de conseguir sentir a essência dos alimentos como ninguém e ainda acaba por ser encorajado pelos ensinamentos do famoso chefe francês Auguste Gusteau, ex-dono de um renomado restaurante de Paris que caiu de qualidade após o seu falecimento. Remy vivia tranqüilamente com sua família e seus amigos mas, após um incidente, ele acaba indo parar no tal restaurante, fato que torna ainda mais vivo o seu desejo. Assim, surge na vida do ratinho o desastrado Lingüini, um garoto que começa a trabalhar no Gusteau’s (o restaurante em questão) como faxineiro. Por obra do acaso, ele acaba estragando uma sopa que seria servida aos clientes, mas conta com a ajuda de Remy para consertar o desastre e fazer com que este incidente se torne um verdadeiro sucesso. A partir daí, uma deliciosa trama tem início descrevendo minuciosamente como a dupla Remy e Lingüini lida com o fato de que agora eles são os principais responsáveis pela comida do restaurante. Um rato como chefe de cozinha? Ora… Mestre Splinter foi líder de quatro tartarugas adolescentes mutantes, não foi?!
Deixando de lado as comparações, “Ratatouille” já começa a impressionar pelo excelente roteiro apresentado. A dupla Emily Cook e Kathy Greenberg conseguiu impressionar por apresentar uma originalidade e, acima de tudo, uma criatividade mais elevada do que poderia se esperar, a começar pela caracterização das personagens. Remy, Lingüini e os demais tiveram suas qualidades, defeitos e trejeitos minuciosamente trabalhados e escancarados em cada cena em que apareceram, fator que ressalta o desenvolvimento da trama pelas situações que eram apresentadas. Não há furos e, por mais que aquele velho sentimento do “tudo vai acabar bem” seja inevitável, a história mantém o espectador atento para o que vai acontecer e como tudo realmente ficará bem. Inclusive, considero louvável o fato de “Ratatouille” não se tornar maçante ou, principalmente, exagerar nos clichês (o que facilmente poderia ter acontecido). A mensagem do longa e suas lições de moral são transmitidas de maneira sutil e, mesmo quando não são, não deixam o público entediado. Vale ainda ressaltar as boas resoluções que Cook e Greenberg encontraram para os conflitos retratados na animação.
Não é necessário muita atenção para reparar o altíssimo nível de “Ratatouille” com relação a arte desenvolvida. Com um gráfico que beira o impecável e aspectos que chocam pela beleza evidente, a animação conta ainda com uma notável direção de Brad Bird, que mantém um trabalho tranqüilo e extremamente cuidadoso durante todo o filme. Esse cuidado pode ser visto com certeza em um bom sentido, já que se trata do admirável foco do cineasta nos movimentos (especialmente dos ratos) e detalhes em geral para chegar o mais próximo possível da realidade. O caro leitor pode reparar no tal fator ao observar as cenas onde os ratos começam a correr juntos, na corrente de água onde Remy se perde de sua família, na própria Paris retratada com carros, planos gerais da cidade, a neblina noturna na cena de Remy e Lingüini perto da ponte, etc. E são exatamente os planos que também merecem destaque no longa. Com a capacidade de realçar muito bem o trabalho de arte, as cenas contam ainda com a significativa contribuição do jogo de iluminação que engrandece as tomadas.
Para fechar com chave de ouro, vale ainda mencionar uma trilha sonora conveniente para o bom trabalho geral apresentado em “Ratatouille”. Uma mescla muito boa de timbres conseguem complementar as intenções de cenas, principalmente quando se trata de comicidade e suspense, onde o espectador se mostra ainda mais ansioso por não saber o desfecho de determinadas situações.
Enfim, um verdadeiro “tapa com luva de pelica” da Pixar no rosto da Dreamworks. Se pouco antes de sua estréia, “Shrek Terceiro” parecia indestrutível, agora “Ratatouille” responde em alto e bom som para quem quiser ouvir. É um tanto quanto notória a mudança de rumo da Pixar, resta apenas saber até que ponto o estúdio está disposto a arriscar. No entanto, até aqui, não há nada a fazer a não ser admirar o incrível trabalho mostrado na história de Remy e companhia. Em poucas palavras, um espetáculo que merece ser aplaudido de pé e, sem dúvidas, justas dez estrelas.
