Cinema com Rapadura

OPINIÃO   quinta-feira, 09 de agosto de 2007

Baixio das Bestas

“Baixio das Bestas” não se propõe a ser um filme-denúncia, mas um relato do que há de pior dentro de cada um dos seres humanos. Grande vencedor do Festival de Brasília, coloca em evidência a violência nua e crua em todas as suas formas. O talento de Cláudio Assis, a competência de Walter Carvalho e as atuações do elenco transformaram o já dito em um grande filme.

Em uma cidade no interior de Pernambuco, Seu Heitor (Fernando Teixeira) leva a neta, que mal completou 16 anos, ao posto de gasolina na entrada do município para exibi-la aos caminhoneiros que ali estão de passagem. Os homens pagam uma quantia em dinheiro para observar Auxiliadora (Mariah Teixeira) nua. Mas o avô, que dizem as más línguas ser também o pai da garota, é um falso moralista que ainda abusa sexualmente dela.

Cícero (Caio Blat) é um jovem abastado que estuda no Recife e aos finais de semana vai visitar os pais. Vivendo de bebidas, drogas e orgias com o seu amigo Everardo (Matheus Nachtergaele), ele desenvolve uma obsessão pela jovem Auxiliadora. Essas são as tramas principais que se desenrolam em “Baixio das Bestas”, segundo longa de Cláudio Assis.

Mais uma vez o diretor opta pelo submundo e pelo lado perverso do ser humano. A quem possa reclamar do excesso de violência física e psicológica em cena, Assis dá o seu recado. Em determinado momento, Everardo olha para a câmera e diz que o melhor do cinema é que “no cinema tu pode fazer o que tu quer”. É certo que existem algumas cenas gratuitas, mas na maioria delas, o cineasta consegue causar o incômodo necessário sem ultrapassar limites. Um exemplo disso é a seqüência em que vemos, através das sombras projetadas na parede, Everardo e sua turma estuprando a prostituta Bela (Dira Paes). A cena é de uma beleza terrível e os méritos vão todos para a fotografia de Walter Carvalho.

Aliás, Cláudio Assis tem preferência pelas sombras. Sua câmera acompanha os personagens na penumbra e escuridão como se delas fizessem parte. A câmera também é fixa, sem gerar envolvimento com a ação transcorrida e por conseqüência compaixão aos personagens. A única que desperta qualquer sentimento positivo no público é a jovem Auxiliadora. Impossível ficar indiferente logo no início quando vemos seu avô tirar-lhe as roupas e aparecer não um, nem dois, nem três, mas uma dúzia de caminhoneiros se tocando. A pobre criatura indefesa sozinha na selva com um bando de predadores à espreita.

Algo que chama a atenção é a fotografia limpa. Ao contrário do que era de se esperar pela temática abordada, as cenas não desagradam aos olhos com imagens sujas e granuladas. Talvez possa ser uma tese do diretor que a podridão do mundo não esteja no mundo em si, mas dentro das pessoas, capazes dos piores atos de violência, seja ela de que nível for. Seres humanos transformados em animais, verdadeiras bestas como sugere o título.

“Baixio das Bestas” traz na presença feminina a força que elas representam no Nordeste. Enquanto os homens passam o dia bebendo, fumando, fornicando, brincando maracatu e mantendo hábitos esquisitos, são as mulheres que sustentam a casa e botam ordem na situação. Seja comandando um bar, lavando roupa para fora ou mesmo se prostituindo. É assim com Auxiliadora, com Bela e as outras moças do bordel, com a mãe de Cícero e com a dona do bar próximo ao posto de gasolina.

Tão intensas como os personagens, são as atuações. Viscerais e cruas, elas ajudam a criar o clima de zoológico humano. Todos se saem bem, inclusive Caio Blat, diria uma amiga. O elenco tem nomes globais conhecidos e reconhecidos como Nachtergaele e Dira Paes e outras presenças fortes do cinema nacional como Hermila Guedes, Marcélia Cartaxo e Irandhir Santos.

Este é ao mesmo tempo um filme para poucos e para todos. Uma produção que poucos têm estômago para suportar até o fim, mas que todos merecem assisti-la. Sem qualquer pretensão de ser um filme-denúncia ou propor a solução para as situações retratadas, o filme de Cláudio Assis vai fundo naquilo que se propõe. O constrangimento dos espectadores pelo exposto e por imaginar que levados ao limite, qualquer um poderia agir da mesma forma. Mostrando que o tempo corrói o que de bom poderia existir em cada um de nós, “Baixio” é um ótimo exemplar do cinema nacional que diverge do produzido pelas grandes indústrias do entretenimento.

Igor Vieira
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