É compreensível o fracasso de bilheteria de "Miss Potter" nos EUA. Contando uma história romântica de uma maneira diferente, com personagens um tanto excêntricos e mostrando desenlances pouco convencionais, o público americano - já meio adverso a sotaques britânicos - torceu o nariz para esta produção, que se revela simpática e um passatempo bastante agradável.
Romances são uma constante nas telas do cinema, assim como cinebiografias e filmes de fantasia. A história de "Miss Potter" contém todos esses elementos, em maior ou em menor grau. Contando a fascinante história de Helen Beatrix Potter (chamada de Beatrix, já que sua mãe também se chamava Helen), autora inglesa nascida em 28 de julho de 1866, no auge da romântica era Vitoriana, que era uma mulher um tanto quanto… peculiar. Bastante tímida, não tinha muitos amigos e sua capacidade de se relacionar com outros era bastante limitada, algo que o meio social em que vivia, rodeada de burgueses esnobes, realmente não ajudava. Porém ela quebrou barreiras – e não só de best sellers – se engajando em causas políticas a favor da ecologia, tema recorrente em suas obras infantis. Uma personalidade dessas era candidata óbvia a ter sua vida contada no cinema.
Vivida na tela pela americana Reneé Zellweger (repetindo seu sotaque inglês de "O Diário de Bridget Jones"), vemos que Beatrix não é muito feliz no amor, rejeitando todos os pretendentes que seus pais, ricos em busca de se posicionarem bem socialmente, lhe apresentam. Se encontrando, por falta de termo melhor, encalhada (e bastante confortável com isso), a única paixão de Beatrix são seus textos e seus desenhos que ela vê como seus amigos (inclusive interagindo, até certo ponto, com eles). Acompanhada pela idosa Srta. Wiggin (Matyelok Gibbs, responsável por muitos dos momentos cômicos do filme), ela percorre todas as editoras de Londres tentando ter seu livro, "Peter Rabbit", publicado, sem sucesso. Por um golpe do destino, sua obra encontra guarita na editora dos irmãos Harold e Fruing Warne (Anton Lesser e David Bamber, respectivamente) que consideram o projeto fadado ao fracasso, mas o aceitam para dar a seu irmão caçula, Norman (Ewan McGregor, de "Peixe Grande"), algo o que fazer na empresa da família.
Ansiosos para provarem seus talentos, Beatrix e Norman se empenham na produção do livro, que vira um sucesso, levando Beatrix a escrever mais obras. Com o tempo que passam juntos na produção dos livros, os dois e a também irm'a solteira de Norman, Millie (Emily Watson, de "Dragão Vermelho"), acabam por se aproximarem e o editor e a Srta. Potter acabam por se apaixonarem, algo que não é bem visto pelos pais dela. A partir daí, muitos incidentes acontecem na relação deles dois, inclusive um extremamente trágico e súbito, colocando Beatrix em um caminho bastante inesperado.
O filme concede a seus personagens um senso de bondade inerente que é quase inebriante. Tomemos por exemplo os pais de Beatrix, Rupert e Helen Potter (Bill Paterson e Barbara Flynn). Se eles não concordam com o romance é porque, do ponto de vista deles, estão fazendo o que é melhor para sua filha (principalmente o pai de nossa protagonista), e em nenhum momento, eles transparecem como figura antipáticas para a audiência, por mais que o filme tente antagonizar Helen Potter. Aliás, os únicos personagens um tanto quanto mesquinhos no filme são grandes burgueses como os irmãos de Norman e Millie e o dono da incorporadora, que só é visto no final da produção. Nesse novo universo cinematográfico repleto de personagens cínicos e violentos, é bom apreciar um filme com personagens assim. Além disso, as intervenções animadas dos desenhos de Beatrix, que só interagem com ela, conseguem externar os sentimentos da autora sem pieguismo em excesso. Aliás, o melodrama excessivo é uma armadilha que o filme podia cair facilmente em seu terceiro ato, mas ainda bem que consegue evitar.
O elenco possui atuações homogêneas. A texana Zellweger se sai muito bem como a inglesa Beatrix, um trabalho mais complicado que a outra personagem britânica da atriz, Bridget Jones, já que, enquanto esta era sua contemporânea, compartilhando algumas manias e tiques da mulher moderna, Potter vivia em uma época diferente, regada pelo conservadorismo e era uma pessoa real e adoravelmente peculiar e Zellweger consegue retratar muito bem tais características. Ewan McGregor encarna um verdadeiro "gentleman" no sentido clássico da palavra, conferindo a seu Norman Warne o aspecto correto de um apaixonado da era vitoriana, lidando com várias normas de etiqueta (mas sempre dando um jeitinho de passar por elas, em nome do amor). Repetindo a ótima química que tiveram no razoável "Abaixo o Amor", toda vez que os personagens de McGregor e Zellweger entram em cena os atores deixam transparecer o que seus personagens sentem e entendemos tais sentimentos, o que é fundamental para um romance. Emily Watson faz muito bem seu papel de Millie Warne, mostrando a alegre excentricidade de sua personagem e sua sincera amizade com Beatrix (o primeiro encontro das duas já vale o filme). O restante do elenco, oriundo basicamente de produções de TV inglesas, mantém o nível de atuação, mas ressalto o trabalho de Barbara Flynn (sua Helen Potter tem ótimas cenas junto a personagem título do filme) e Matyelok Gibbs (que se destaca toda vez que sua personagem, a Srta Wiggin, aparece).
O diretor Chris Noonan, sumido desde seu ótimo "Babe – Um Porquinho Atrapalhado", leva o filme (acertadamente) com um tom mais leve, não ousando em seus enquadramentos e em suas tomadas, e sendo bastante cuidadoso nas curtas intervenções de animação do filme, provando ter sido uma boa escolha para capitanear esta produção. O belíssimo trabalho da equipe de figurinos (liderada por John Bright, de "Piratas do Caribe", e Anthony Powell, de "Indiana Jones e a Última Cruzada") e da direção de arte (chefiada por Grant Armstrong e Mark Raggett, que trabalharam juntos em "Closer – Perto Demais"), além dos ótimos sets de Tina Jones (de "A Rainha") nos transportam para a Inglaterra do início do século passado, ajudando a transmitir o clima que o roteiro de Richard Maltby Jr. (estreante no cinema, mas veterano de musicais da Broadway) queria passar.
Um filme desprentensioso que consegue divertir e sensibilizar, "Miss Potter" parece ter sido feito com bastante carinho por sua equipe de produção. Vale a pena acompanhar essa romantização da vida de Beatirx Potter e conferir o porquê de ela ser tão querida pelos ingleses.
