Apesar da forte e dramática história de George Reeves, o primeiro homem a viver o Super-Homem num longa metragem para o cinema, "Hollywoodland - Bastidores da Fama" acaba por se tornar um filme irregular, graças às escolhas de narrativa equivocadas. Uma pena, já que o filme conta com ótimas atuações, principalmente de seus protagonistas, Ben Affleck e Adrien Brody.
Hollywood produz tragédias na mesma medida que produz ídolos. Como o cartaz do filme anuncia, "morrer em Hollywood pode torná-lo uma lenda", em um raro caso de material publicitário que conta uma verdade. George Reeves é um dos expoentes disso. Um bom ator, bem quisto por todos com quem trabalhara, mas que ficou estigmatizado pelo icônico papel de Super-Homem, que veio a parar nas suas mãos meio que por um acaso e aceitado com relutância e fora relegado ao ostracismo após o cancelamento da série do herói. Sua morte, até hoje, gera controvérsias e sua trajetória de ascenção e queda, com certeza, é uma história que vale a pena ser vista. Apesar de contar com tão forte trama, os realizadores de "Hollywoodland – Bastidores da Fama" acharam que não era o suficiente e encaixaram uma trama paralela sobre um fictício detetive particular, suas dificuldades e problemas. Tal personagem, que deveria servir de elo de ligação do espectador com a história, acaba por enfraquecê-la.
Após o corpo de Reeves (Ben Affleck) ser encontrado em sua casa sob circunstâncias suspeitas, sua mãe resolve procurar os serviços de uma firma de detetives para investigar o caso, que acaba caindo nas mãos de Louis Simo (Adrien Brody), um ex-empregado do escritório. Assim, acompanhamos o desenrolar de investigação de Simo sobre o falecido, o que nos leva aos tais "bastidores da fama" citados no sub-título nacional, com a luta de Reeves para ser um ator reconhecido, seu caso com Toni Mannix (Diane Lane), mulher mais velha e casada com o chefão de um grande estúdio, Eddie Mannix (Bob Hoskins), homem determinado a ver sua esposa feliz, não importa como, além do noivado do ator com a bela (e interesseira) Leonore Lemmon (Robin Tunney), já perto de sua morte. Além disso, acompanhamos o divorciado detetive em sua vida particular, tendo que lidar com o impacto que a "morte do Super-Homem" teve em seu filho (Zach Mills), com sua ex-mulher (Molly Parker) e seu novo namorado (Brad William Henke), com um relacionamento com sua secretária (Caroline Dhavernas) e com um cliente paranóico.
Sim, são realmente MUITAS tramas paralelas, o que aumenta excessivamente a duração do filme, deixando-o bem mais longo do que deveria, e exige mais atenção do espectador, acabando por cansá-lo um pouco. Os constantes saltos na cronologia também não ajudam. Num momento, vemos Reeves no apogeu da sua fama como o Homem-de-Aço. Quando ele aparece novamente em cena, o seriado é cancelado. Faltou um pouco mais de organização ao filme. Mas, mesmo assim, temos que ressaltar a maneira como certos pontos da história são bem contados, como o relacionamento entre George e Toni e, posteriormente, entre ele e Lennore. A semelhança na maneira em que os dois relacionamentos começam e o modo como tais relações sobrevivem é simplesmente fascinante. Já a trama sobre o detetive é repleta de clichês, como a sedutora femme fatale, o ameaçador capanga (Joe Spano), a surra que nosso herói leva num momento-chave e o erro fatal do protagonista. A história paralela do homem que tem certeza do adultério cometido pela esposa é especialmente despropositada para a história maior do longa. Assim, colocando um dos protagonistas em situações típicas de ficções, a história de Reeves acaba por perder um pouco de credibilidade. Se, como em "Chaplin", Simo tivesse sido introduzido como uma mera figura para nos conduzir pela história (como fora o personagem de Anthony Hopkins no citado longa), tais problemas teriam sido solucionados facilmente. Porém há um (pequeno) lado positivo. Ao acompanharmos a trajetória de Louis Simo, vemos a similaridade do caminho traçado por ele e Reeves. Tal paralelo tem seu clímax na cena final do filme, que é simplesmente belíssima.
Apesar de seu personagem atrapalhar o que deveria ser a trama principal do filme, Adrien Brody está muito bem no filme, transmitindo com relevância a ambigüidade nas ações de Simo (presente durante boa parte do filme). Mas Ben Affleck é realmente o destaque. Ele consegue mostrar todas as nuances de George Reeves nos diferentes momentos de sua vida. É triste saber que o alegre, gentil e esperançoso jovem que vemos na festa, no início do filme, terá um fim tão trágico. Em cada um dos retrocessos que ocorrem na vida de Reeves vemos a melancolia se acumular na expressão de Affleck, se refletindo na músicas cantadas por ele, nos momentos finais da vida de seu personagem. Ainda merecedores de nota, as interpretações de Diane Lane, que, em uma cena chave com Affleck, no ato final do filme, consegue transmitir toda a carga emocional que sua personagem acumulara durante o relacionamento com George e Bob Hoskins, que impõe uma presença marcante durante seu curto tempo de cena. Já o resto do elenco oscila entre o caricatual (como a Lennore de Robin Turney) e o bom (como o agente de Reeves, Art Weissman, vivido por Jeffrey DeMunn).
A direção de Allen Coulter é agradável para um estreante na tela grande. Apesar de saber lidar com os atores e ter um bom domínio de câmera, o diretor ainda precisa aprender a diferença entre o ritmo de TV (onde o resto de seu bom material se encontra) e o de cinema. Se continuar nesse passo e com um pouco mais de experiência, pode se tornar um cineasta promissor. Já a edição do filme feita por Michael Berenbaum, editor cuja maior parte de seus trabalhos também são televisivos, possui os problemas acima citados. A trilha de Marcelo Zarvos (que também cuidou da trilha de "O Bom Pastor") é bastante eficiente em evocar tanto momentos de maior tensão quanto mais emocionais. Destaca-se também a boa maquiagem criada para o filme (que dá consideráveis saltos do tempo durante a projeção).
Com algumas referências – intencionais ou não – a mitologia do Último Filho de Krypton (como a frase sobre terras que George fala durante um almoço), o filme é um prato cheio para os estudiosos da história do cinema e do Homem-de-Aço. O projeto desse filme passou por várias mãos por muito tempo em Hollywood e tinha muito potencial. Se tivessem sido sanados alguns problemas, poderia ter sido um clássico, mas, assim como a carreira de Reeves, ficou no terreno das boas intenções, terminando por ser apenas mediano.
