Cinema com Rapadura

OPINIÃO   segunda-feira, 06 de novembro de 2006

Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, O

"O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias" veio para confirmar o talento de Cao Hamburguer como diretor. Mostrando que possui talento para lidar com crianças, o cineasta aborda a época brasileira de 1970 muito bem, contrastando o clima de euforia pela ótima campanha da seleção brasileira na Copa do Mundo de futebol com a repressão decorrida da ditadura.

O segundo longa-metragem de Cao Hamburguer confirma o talento do cineasta e a sua vocação para trabalhar com crianças. Excetuando "Frankenstein Punk" (1986), que é um curta de animação com massinha, e o episódio de "Filhos do Carnaval" (2004), toda a filmografia de Hamburguer é ligada ao universo infantil. "O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias" (2006) estaria a frente de todos, até por ser o trabalho mais pessoal, próximo do autobiográfico, do diretor.

Interessante notar que geralmente os filmes que mostram o ponto de vista das crianças têm uma leveza toda particular, independente do pano de fundo. Os filmes que mostram crianças sobrevivendo na guerra, como "Império do Sol", de Steven Spielberg, ou "Esperança e Glória", de John Boorman, são mais leves que filmes com adultos na guerra. Talvez porque as crianças ainda não têm consciência do que está acontecendo ao redor. O projeto cinematográfico que mais se aproxima de "O Dia em que Meus Pais Saíram de Férias" é o argentino "Kamchatka", de Marcelo Piñeyro, que também narra as memórias de um garoto durante o exílio de seus pais na época da ditadura militar. Como tenho uma atração maior pelo sentimentalismo, confesso ter gostado mais do argentino. Mas o filme brasileiro tem, é claro, o seu grande valor.

Na trama, o menino Mauro (Michel Joelsas), de 12 anos de idade, encontra-se no momento de transição da infância para a adolescência. Suas preocupações nada tinham a ver com as ditaduras militares existentes na América do Sul ou com a Guerra do Vietnã. Na realidade, o que o menino realmente queria era que o Brasil ganhasse a Copa do Mundo de 1970. Seus pais, no entanto, são bem adeptos da política, defendendo ideais de esquerda. Devido a isso, são acusados de "subversivos" e passam a ser procurados pelos militares. Então, eles se vêem obrigados a saírem às pressas em seu fusca sem ao menos entregarem o menino pessoalmente ao avô (Paulo Autran, em participação breve). Todavia o inesperado acontece. Ao chegar no apartamento do avô, Mauro descobre que o velho acabou de falecer. Sem poder avisar aos seus pais sobre a morte do senhor, o garoto fica sob os cuidados de um senhor judeu (Germano Haiut), vizinho de seu avô e funcionário da Sinagoga. Essa convivência inesperada, então, resultará em um mergulho, para ambos, em um mundo totalmente desconhecido.

Vale ressaltar que Germano Hauit é hazan (cantor de cultos judaicos) na vida real. Deu para perceber que Hamburguer utilizou atores conhecidos (Paulo Autran, Caio Blat e Simone Spoladore) apenas em papéis coadjuvantes, valorizando caras novas. Como a da menina Daniela Piepszyk, no papel da malandrinha Hanna. Só acho que o sobrenome complicado de pronunciar pode atrapalhar um pouco a popularização da garota.

As filmagens foram realizadas numa rua de Campinas, que ainda conserva a pavimentação de paralelepípedos e prédios de arquitetura datada. Assim, foi preciso apenas investir em carros antigos (os fuscas ainda são fáceis de encontrar nas ruas), nos figurinos de época e em alguns outros detalhes. Como o filme se passa durante a Copa do Mundo de 1970, podemos notar o quanto o clima de euforia pela excelente campanha da seleção brasileira contrasta com o clima de repressão causado pela ditadura. Da mesma forma, o garoto ora está angustiado pela estranha ausência dos pais, ora se diverte e faz amizade com os meninos do bairro. A cena dos meninos espiando as mulheres tirando a roupa pelo buraco que dá acesso aos provadores de uma loja de roupas é inspirada em "Era uma Vez na Ámerica", de Sergio Leone. Destaque também para a cena dos garotos dançando ao som de "Eu sou terrível", do Roberto Carlos. Essa cena enfatiza a diferença de gerações, a inquietude de uma nova geração que vai ter a sorte, no futuro, de viver sem a sombra da ditadura.

Já as cenas que mostram a vibração no país com as vitórias do Brasil são vistas com um misto de alegria e vazio, tristeza. Aliás, eu sempre sinto esse vazio quando o Brasil ganha nos jogos da Copa. Como se aquela alegria não significasse muito para nossa vida. Hamburguer soube trabalhar muito bem esse sentimento, até porque em 1970 o país estava vivendo um de seus momentos mais tristes. Por isso, por mais que o menino gostasse de futebol e colecionasse as figurinhas dos jogadores, havia algo mais importante na vida.

Aílton Monteiro
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