Apesar de uma história que não possui exatamente uma narrativa comum a que conhecemos normalmente nos filmes, "A Última Noite" ultrapassa o limiar de uma obra cinematográfica e se torna, na verdade, uma verdadeira exposição do melhor da produção, atuações e a maior de todas as lições: o que é realmente dirigir um filme.
A história do filme conta sobre um antigo programa de rádio, há mais de 30 anos no ar, daqueles exibidos ao vivo em um velho teatro, que chega à sua última apresentação. Com figuras carismáticas que sobem ao palco para entreter os ouvintes através de músicas, algumas clássicas, outras bem-humoradas, o filme acompanha na verdade os bastidores deste programa, com os sentimentos, as lembranças, as histórias e a conectividade entre aqueles personagens durante os seus últimos minutos antes da terminarem a última exibição do programa "A Prairie Home Companion", que é o título original do longa.
Esta não é uma produção comum. Com certeza, é um dos poucos filmes que leva a expressão "Ame ou odeie" em seu literal significado. O filme não possui exatamente um roteiro que traz estruturado os três atos, bem como clímax e todos os outros elementos que comumente são vistos nas produções Hollywoodianas. Na verdade, isso é o que é Robert Altman em sua máxima performance como diretor.
Em se tratar de bastidores de um programa de rádio que vai ao ar em um teatro, Altman consegue trazer para o filme o clima meio caótico e ao mesmo tempo organizado em sua estrutura organizacional, que talvez só mesmo quem já tenha vivido na pele essa "organização caótica" saberia entender e reconhecer o espírito, que em nenhum momento parece forçado, e é aí onde reside maior parte do sucesso deste filme.
No que diz respeito à interação entre as personagens, esse é um dos melhores filmes, onde, na verdade, em vários momentos parece não se tratar de um filme, mas sim um documentário real sobre este programa. As falas entrecortadas, acontecendo ao mesmo tempo, fluindo de uma forma impressionante, é capaz de levar o espectador a um verdadeiro nó na cabeça, ao mesmo tempo que este reconhece com perfeição um clima mais do que extraordinariamente convincente, chegando mesmo até a duvidar que as cenas gravadas neste filme foram realmente ensaiadas e demarcadas, como são realmente necessários para a gravação de um projeto cinematográfico. E essas falas acontecendo ao mesmo tempo, na verdade, deve se tornar um dos piores pesadelos para quem foi responsável pelas legendas em português desta produção.
No quesito interpretações, é simplesmente quase impecável. Com um elenco mais do que perfeito contando com "atores" no verdadeiro significado da palavra como Kevin Kline, Woody Harrelson, John C. Reilly, Meryl Streep, é impressionante vê-los tão bem acomodados com seus personagens, onde quaisquer expressão ou tom de voz conta um pouco do pano de fundo de todos personagens, que, vale salientar, já começam com uma carga emocional bastante carregada, já que se tratam de personagens que há mais de 30 anos estão neste programa e que nunca fizeram nada de suas vidas além de estarem ali. E por se tratar do último programa, o clima do filme é carregado por despedidas emocionadas, histórias, que, quando contadas, fazem com que o espectador realmente acredite que aqueles personagens existiam há muito tempo antes do início daquelas filmagens. A única personagem ainda destoante de todo o elenco é a de Lindsay Lohan, que, mesmo de forma fraca, consegue ser aceitável em seu papel.
O filme também conta com excelentes momentos de uma comédia que, mesmo com tons abertamente pastelão, consegue se tornar bastante aceitável em algumas cenas. Aliás, as cenas mais hilárias estão concentradas na personagem da produtora do programa (sempre é o produtor que sofre!) e algumas cenas com o personagem de Kevin Kline.
Mesmo contando com um roteiro atípico de Hollywood, torna-se um filme que vale a pena ser visto para quem curte uma obra de arte, mas que infelizmente não será do agrado de muitos. Afinal, Robert Altman é "o diretor".
