Uma excelente mistura de drama com comédia de situações que não se tornam tão impossíveis de acontecer, regada a uma excelente trilha sonora faz de "Um Cara Quase Perfeito" um ótimo filme, porém feito para um determinado nicho, e que infelizmente não é o maior consumidor de cinema atualmente.
Jack Giamoro é o maior agente de talentos de sucesso em Los Angeles. Só tem um problema: a sua vida é um grande vazio! Não sabe o porquê de estar trabalhando, vive em um casamento que parece sem sentido. Guarda mágoas que o alterou de certa forma e nem sabe que elas existem e, para tentar mudar de vida, ele resolve entrar em um curso onde as pessoas terão oportunidade de se conhecerem melhor. A partir daí, a sua opção é escrever um diário, não um diário qualquer, um que possibilite aos poucos ir descobrindo o seu verdadeiro eu. E são nesses papéis que ele acaba escrevendo segredos que poderiam acabar com sua empresa e sua vida. Tudo piora quando, em uma maré que parece ser de má sorte, sua mulher revela que o traiu, sua casa é assaltada e ele tem o diário roubado. Jack agora terá que fazer de tudo para recuperar o diário e nessa busca tentar descobrir sua verdadeira identidade.
Mike Binder, esse é um nome que deverá ser guardado e muito bem lembrado quando for mencionado como diretor e roteirista de um filme. Não porque ele inove em suas produções, use ângulos diferentes, ou encha seus filmes com efeitos especiais. Binder está muito aquém desse status há muito reverenciado. Mas ele está em um nível que muitos possam deixar passar despercebido. Ele é perito em trabalhar a realidade, tanto na direção quanto nos roteiros. Não a nossa realidade brasileira que está muito distante, muito menos uma realidade baseada na cultura de um povo, mas uma realidade que existe em cada um dos seres humanos sobre a terra, a nossa realidade, de seres que tentam sobreviver neste mundo. Um misto de emoções que Binder consegue tirar do nada e transformar em expressões reconhecíveis, onde o espectador se torna hábil a identificar cada traço ou expressão de um semblante em uma emoção, e detalhe: uma emoção que muitos de nós já vivenciamos.
Por isso reforço a prerrogativa de dizer que "Um Cara Quase Perfeito" não é um filme para um público em geral, mas sim para um pequeno público seleto, que está ultimamente muito ocupado tentando conseguir sobreviver nesta louca selva que conhecemos como cidade e que possivelmente talvez nem consiga um tempo para respirar e ir ao cinema, o que reforça novamente minha prerrogativa de que este filme talvez não consiga o sucesso que ele merece ter.
O filme trata mais de um drama do que uma comédia, já que, no processo da descoberta da sua verdadeira identidade, Giamoro irá viver certos traumas de sua infância que o levaram a se tornar a pessoa apresentada no tempo atual cronológico do filme. Binder consegue também tirar atuações que não chegam a ser as máximas dos atores desta produção, mas que consegue desenvolver bem para cada um de seus personagens e consegue estabelecer tranqüilamente o elo entre o público e as criaturas do filme. Affleck, apesar de não ser um ator muito bom, parece que vem ganhando serenidade em suas atuações, com o recente trabalho premiado em "Hollywoodland", ainda inédito no Brasil, e neste trabalho. Rebecca Romijn se mostra muito bem neste papel, conseguindo passar de drama para comédia com naturalidade, demonstrando assim ainda um talento que falta ser explorado, mas que poderá ser digno de uma indicação ao Oscar, caso ela caia nas mãos de um diretor correto. O resto do elenco de apoio do filme está funcional em seus papéis.
Outro ponto fortíssimo do filme e que ganha muito o espectador durante os 96 minutos de projeção do filme. Encaixando perfeitamente, inclusive a trilha criada por Larry Groupé deixa de ser um acessório para se tornar personagem ao lado de Affleck e Romijn em várias das cenas que os dois aparecem.
"Um Cara Quase Perfeito" se torna uma das boas pedidas para este final de semana, mas, claro, analise bem antes de ir, afinal, não é um filme para um público em geral, e este filme, mais do que qualquer outro, depende muito dos sentimentos do espectador para que ele seja devidamente apreciado.
