Um filme cuja realização era algo completamente desnecessária. Mais desnecessário ainda é a sua chegada aos cinemas brasileiros, visto que em DVD certamente faria melhor. Enfim, mais uma continuação que chega para consolidar a absurda falta de criatividade do mercado atual.
Impressionante como funciona a indústria cinematográfica: não pode um filme se sair bem nas bilheterias, que uma continuação, por mais que não tenha nenhuma ligação com o filme anterior, é quase obrigatória. Tudo bem que a ânsia pelo capital domine a indústria, mas essa ânsia muitas vezes fica acima do bom senso, como no caso dessa continuação de “Efeito Borboleta”, tanto que nos EUA foi lançado diretamente em DVD. Se o filme de 2004 foi bem sucedido tanto nas bilheterias quanto nas críticas, a velha tradição de aproveitar uma idéia que deu certo e transformá-la em receita para continuações idênticas, onde mudam apenas os nomes dos personagens e alguns detalhes da história, se aplica a esse "Efeito Borboleta 2". Já que a avacalhação estava declarada, ele poderiam ao menos escolher uma equipe técnica mais competente, pois, o que esperar de um filme cujo diretor tem em seu currículo apenas o fraquíssimo "Mortal Kombat: Aniquilação", e o roteirista tem na bagagem “sucessos” como "Crocodilo", "Octopus – Uma Viagem ao Inferno" (e sua continuação!), "Desastre", "Trem da Morte" e "U.S. Seals II"? Sem falar que nenhum membro do filme original – nem da equipe técnica nem do elenco – estão de volta. O resultado não chega a ser tão desastroso assim, mas também, passa a ser longe de algo de qualidade.
Na trama, Nick Larson (Eric Lively) não poderia estar em melhor momento. A empresa na qual trabalha está indo de vento em popa e seu namoro com Julie (Erica Durance) parece perfeito. Mas tudo muda repentinamente quando ele recebe um telefonema de seu supervisor exigindo sua presença justamente no dia do aniversário de Julie. A partir de então, uma cadeia de eventos vai resultar na morte de três pessoas em um trágico acidente – incluindo sua jovem namorada. Um ano depois, Nick ainda tenta reunir os pedaços de sua vida destruída. Mas para a sua surpresa, em determinados momentos ele começa a ter estranhos surtos epilépticos nos quais mantém a consciência e parece estar viajando no tempo. Agora, Nick tem a oportunidade de mudar o passado e reconstruir sua existência de uma vez por todas, recuperando o emprego e impedindo a morte do seu amor. Mas a missão é mais difícil do que aparenta, já que qualquer pequeno detalhe modificado pode significar uma enorme reviravolta no futuro.
A história toda não passa de uma cópia do primeiro filme, substituindo apenas o detalhe de que ao invés de o protagonista viajar no tempo lendo seus diários, ele viaja através de fotografias. Toda aquela história de que o destino não pode ser mudado, que o passado não pode ser alterado sem ter sérias conseqüências no futuro, está de volta sem brechas para inovação – sequer o detalhe de o dom ser transmitido de pai para filho ficou de fora. Para um roteirista que só fez filmes bombas, Michael Weiss fez um trabalho que exige bem mais inteligência, e pode-se dizer que o resultado não foi dos piores, apesar da total falta de criatividade. Quem gostou do primeiro filme, todos os ingredientes estão lá de volta: reviravoltas o tempo todo, ocasiões trágicas que deixam o protagonista em situação delicada, além da adição fortes apelos sexuais – esses, usados de maneira exagerada. Não tem como negar que o roteiro é demasiadamente instável, cheio de momentos que fazem cair a adrenalina, mas deixando de lado o fato de ser um filme desnecessário e de cunho puramente comercial, "Efeito Borboleta 2" pode até agradar a quem procura por uma diversão rápida marcada por uma história absurda e com momentos de tensão. Seu grande problema é esse: ser a continuação de um bom filme, o qual é infinitamente melhor do que este. Assim, mesmo não tendo simplesmente nenhuma relação com o original, é um filme mediano, que acaba por perder muito seu valor com as inevitáveis comparações. E convenhamos, alguma desculpa para que fizesse um elo entre os dois filmes – afora a temática semelhante – e justificar o status de continuação, não iria nada mal.
Desde a entrada do título nos créditos iniciais, percebe-se o amadorismo para com a produção. Afinal, porque diabos o número 2 do título é desenhado em forma de sangue, parecendo mais se tratar de um filme de terror? Talvez, se o design fosse usado em “O Grito 2” fosse entendível, mas não, é sinal de que o diretor John Leonetti realmente não sabe o que faz. Sua direção não parece estar tão teatral quanto em “Mortal Kombat: a Aniquilação”, porém, ele ainda se mostra deficiente em termos de linguagem cinematográfica, na condução do elenco, além de nunca conseguir manter um ritmo frenético e que jogue o espectador dentro da trama, do contrário da direção de Eric Bress e J. Mackye Gruber no primeiro filme. Enquanto o original se tornava mais emocionante à medida que os fatos corriam, esse é exatamente o contrário. Começa interessante, mas lá pela metade – talvez por tudo ser previsível demais – chega a ficar cansativo e o espectador não vê a hora de o filme chegar ao fim. Vale ressaltar que a má condução de Leonetti é mais prejudicada ainda com a fraquíssima edição e os efeitos especiais bastante ruins. Tudo bem que um filme de orçamento reduzido não se pode exigir grandes efeitos, mas convenhamos, os efeitos vistos quando o personagem Nick vai se transportar no tempo, qualquer filme amador faria.
Infelizmente, o elenco não ajuda em nada para elevar o nível rasteiro da produção. Tudo bem que a condução de John Leonetti mata qualquer filme, mas Eric Lively (da série "The L Word") e Erica Durance (a Louis Lane do seriado "Smallvile") parecem estar brincando de atuar, mostrando-se completamente à vontade em seus papéis. No primeiro, Ashton Kutcher e Amy Smart também não fizeram maravilhas, mas pelo menos notava-se um esforço por parte deles, enquanto os protagonistas desse novo filme parecem estar cientes do desprezo que ele viria a receber e não se preocuparam nem um pouco em interpretar de uma maneira diferente de um seriado adolescente. Ele não consegue transmitir o peso que seu personagem transmite – afinal, não é qualquer um que tem o poder de "brincar de Deus", e não consegue ser convincente quando se mostra abalado psicologicamente; e ela até se sai bem quando se apresenta sentimental, mas sua personagem acaba por ter poucas chances de expor essa vertente. Pelo visto, o melhor momento de ambos é mesmo a caliente cena de sexo – que por sinal, Erica Durance está exuberante, como você nunca viu em "Smallvile".
"Efeito Borboleta 2" é um filme que até funcionaria se tivesse sido lançado diretamente em DVD, assim como fora feito lá fora. Definitivamente, está totalmente fora dos padrões de um filme de circuito grande dos cinemas, ou quem sabe, chegando aos cinemas com um outro título, pudesse causar uma impressão pelo menos mediana. Mas é uma pena que a ânsia comercial de hollywood esteja acima de tudo, a ponto de aproveitar um filme famoso e fazer uma continuação que nada tem a ver com o original, com uma equipe técnica e um elenco medíocre. Ainda assim, se você curte o estilo de filme do primeiro, pode ser que se divirta com esse, mas lembre-se de deixar as comparações de lado, pois se for para comparar, a existência de um segundo "Efeito Borboleta" sempre será sem sentido.
