Uma obra-prima do diretor Stanley Kubrick que já conquistou seu lugar no hall dos filmes que todo amante do cinema tem que assistir.
Imagens marcantes, histórias complexas e desfechos que dão margem a variadas interpretações. Essas são algumas das características que permeiam a filmografia de Stanley Kubrick e que se fazem presentes de uma forma magistral em “Laranja Mecânica”, filme adaptado da obra de Anthony Burgess, que, por sua vez, sofreu influência de Aldous Huxley, autor de “Admirável Mundo Novo” e um dos percussores na abordagem de retratos comportamentais futuristas. O título do filme, inclusive, seria uma alusão à condição de máquina a que o homem se assemelha quando passa a ser produto do sistema em que vive.
A história gira em torno de Alex, um jovem que vive numa conjuntura indefinida de um futuro próximo, talvez. Ele e seu grupo, assim como outras gangues semelhantes, vivem de cometer delinqüências apenas pelo prazer de fazê-lo. Assaltam, estupram e assassinam sem nenhum tipo de culpa ou remorso como parte de sua rotina.
O que Alex não esperava, no entanto, era ser capturado pela polícia em uma dessas suas “aventuras” e ser submetido a um novo tratamento experimental com objetivo de “curar” indivíduos delinqüentes. O jovem é injetado com a droga milagrosa enquanto é exposto a cenas da chamada “ultraviolência”. Alex desenvolve, então, aversão às atividades que antes praticava e, por associação, à 9ª Sinfonia de Beethoven, sua música preferida.
Devolvido à sociedade, Alex colhe os maus frutos de seu passado. Pessoas antes agredidas por ele agora podem se vingar sem que ele possa se defender. Até seus antigos companheiros de gangue, que haviam se sentido traídos e ultrajados pelo jeito autoritário de seu ex-líder, abusam agora da condição de Alex para agredi-lo. O jovem sofre efeitos que o incapacitam apenas à vaga menção da prática de violência.
Malcom McDowell, que interpreta Alex, talvez seja – além da direção magistral de Kubrick – o grande trunfo de “Laranja Mecânica”. O ator consegue passar toda a repugnância do personagem na primeira parte da história, assim como a compaixão que ele desperta depois de submetido ao “tratamento” na prisão. Não se sabe ao certo o tipo de sentimento que se espera do espectador com relação ao protagonista depois do término do filme e talvez outro ator não conseguisse transitar com tanta competência entre essas nuances de personalidade que o personagem exige. Além disso, a figura de McDowell já se tornou um símbolo clássico de associação dessa obra de Stanley Kubrick.
A trilha sonora conta com peças de compositores famosos, sendo mesmo a 9ª Sinfonia de Beethoven a melodia que permeia os momentos principais da história. Uma contradição bastante comentada com relação à trama de “Laranja Mecânica” é justamente o contraste entre a personalidade violenta de Alex e a sua sensibilidade e capacidade de se emocionar com a música de Beethoven.
Outro ponto destacável é a presença de cenas fortes pelo seu conteúdo e estética. Kubrick consegue construir imagens que não se dissolvem facilmente na cabeça do espectador. O momento em que Alex e sua corja agridem um bêbado na rua, assaltam um casal logo no começo da história ou a famosa cena inicial em que o olhar fixo do protagonista vai dando abertura ao cenário totalmente surreal de uma leiteria onde os jovens ingerem substâncias “estimulantes” podem ser citadas como alguns dos inúmeros momentos memoráveis da projeção.
Uma espécie de vocabulário particular também é apresentado no filme. Palavras como “guliver” e “devotchka” são usadas para substituir “cérebro” e “moça” respectivamente. Todas essas associações, no entanto, têm uma relação lógica pensada pelos roteiristas e diretor.
O desenvolvimento da trama propriamente dita não segue nenhum padrão batido ou clichê. Até o momento final, muita coisa permanece em aberto e explicações lógicas não cabem no roteiro. As diversas interpretações e entendimentos ficam a critério de cada espectador e suas referências particulares.
“Laranja Mecânica” faz parte da lista de filmes que todo amante do cinema tem que assistir. É instigante, é marcante, é desafiador, é uma das razões pelas quais Stanley Kubrick é tido como um dos melhores diretores de todos os tempos.
