Cinema com Rapadura

OPINIÃO   sexta-feira, 12 de agosto de 2005

Oldboy

Oldboy é como uma maravilhosa noite de sexo: intenso, forte, diferente, ousado e acima de tudo, inesquecível.

Quem diria que os dois melhores filmes do ano, para mim, não viriam do país que produz mais filmes. Um dos fortes candidatos vem da Alemanha e se chama “Edukators”. Um outro candidato vem da Coréia do Sul e atende pelo nome de “Oldboy”, a segunda parte de uma trilogia sobre vingança que o diretor Park Chan-wook está dirigindo.

Não assisti ao primeiro filme – pecado que em breve irei extirpá-lo da minha longa lista – mas, de antemão, digo que a segunda obra é magnífica e que pode ser assistida independente da primeira, já que uma não é continuação da outra e sim, apenas obras que dissertam acerca de um mesmo tema: vingança.

Logo no início, conhecemos o personagem vivido maravilhosamente bem por Choi Min-sik, Oh Dae-su. Ele se encontra sentando em uma delegacia por ter bebido além da conta e está à espera de seu amigo No Joo-hwan (Chi Dae-han). Após ser liberado, Oh Dae-su tenta falar com sua filha, cujo nascimento é comemorado no mesmo dia, entretanto, após entregar o telefone para que Joo-hwan dê os parabéns para sua filha também, Oh Dae-su é seqüestrado, deixando como pista apenas um par de asas de brinquedo compradas para sua filha. Então, a vida de Oh Dae-su se resume a um quarto e uma televisão – que acaba se tornando, como disse o próprio protagonista, seu relógio, calendário, escola, lar, igreja, amiga… e amante. Entretanto, após longos quinze anos (!) o herói (ou seria anti-herói?) é liberado sem nenhum motivo aparente e parte à procura de vingança e descobrir a razão de ter excluído de qualquer contato humano durante os quinze anos em que passou no cativeiro.

À partir daí, somos mergulhados em uma espiral de loucura e demência pouco visto no cinema atual. Admito que quando o final do terceiro ato se aproximava, as únicas palavras que permearam minha mente foram – desculpem pelo palavreado – 'C*r*l*o!' 'P*t* q*e p*r*u' e 'Agora f*d*u'. O porquê de tanta vulgaridade? Assistam e descobrirão (desafio qualquer um a reagir de forma indiferente a ele).

Contudo, a força do filme não se concentra somente no final. A qualidade técnica é impecável: desde o seu roteiro (que foi escrito por ‘apenas’ cinco pessoas, e que se constitui como um dos mais consistentes da atualidade) até sua edição (frenética, deixando o filme ágil e interessante), passando pelas interpretações (puxa vida! a maior injustiça foi Choi Min-sik não ter ganho o prêmio de melhor ator em Cannes). Tudo no filme soa real e humano (ou desumano, dependendo do seu ponto de vista, já que arrancar os dentes de alguém com um martelo ou comer um polvo vivo não é para qualquer um). Isso sem contar o belíssimo plano-seqüência em que mostra Oh Dae-su, desengonçadamente, lutando com uns capangas.

Outro ponto que chama atenção é a violência do filme. Não chegando a ser algo que você vire o olhar para não se impressionar (como foi o chocante “Irreversível”), este longa faz com que você sinta dor, tanto psicológica como física, pelo destino de alguns personagens.

Assim, com tantas coisas memoráveis, “Oldboy” se configura como uma das melhores produções que aportaram aqui nos cinemas tupiniquins em 2005. Melhor filme do ano? Talvez. Mas garanto que é um filme que ficará pulsando em sua mente como poucos.

Cinema com Rapadura Team
@rapadura

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