Cinema com Rapadura

OPINIÃO   domingo, 24 de maio de 2026

O Mandaloriano e Grogu (2026): Star Wars em piloto automático

Filme aposta em levar o carisma de Mando e Grogu para os cinemas, mas evita qualquer risco narrativo e não encontra uma história à altura do formato.

Com Din Djarin e Grogu se consolidando como alguns dos personagens mais populares do universo “Star Wars” recente, a Disney apostou na dupla para levar a franquia de volta aos cinemas após quase sete anos. O problema é que “O Mandaloriano e Grogu” não encontra uma razão convincente para existir além da necessidade do estúdio lucrar. O longa dirigido por Jon Favreau funciona como uma versão expandida de um episódio intermediário da série, com ritmo acelerado e clima leve de aventura espacial, mas incapaz de justificar sua duração ou provocar qualquer sensação genuína de importância.

A trama, de uma simplicidade extrema, traz Din Djarin (Pedro Pascal) aceitando uma missão envolvendo o resgate de Rotta (voz de Jeremy Allen White), herdeiro sobrevivente de Jabba the Hutt, em troca de informações úteis para a Nova República. A partir daí, o filme passa a acompanhar Mando e Grogu atravessando diferentes planetas, aceitando trabalhos suspeitos, perseguindo criminosos e escapando de situações perigosas. E Favreau parece pouco interessado em oferecer algo a mais que isso.

O início até sugere uma experiência mais energética, com uma boa sequência no planeta congelado. Com muita porradaria, várias explosões, naves e andadores imperiais em meio à neve, Favreau entrega uma sequência movimentada o suficiente para prender atenção momentaneamente. Contudo, o filme parece esgotar suas ideias logo ali. As cenas de ação, que continuam aparecendo com frequência ao longo das mais de duas horas de duração, raramente encontram criatividade suficiente para gerar qualquer impacto.

O valor de produção é perceptível graças aos efeitos visuais grandiosos, mas falta imaginação na forma como tudo é encenado. As inúmeras criaturas digitais são convincentes e há um cuidado constante em preservar e fazer referência à estética clássica da franquia. Porém, há uma artificialidade notável em parte dos ambientes e das sequências de ação. A paleta excessivamente dessaturada durante todo o filme contribui ainda mais para essa impressão.

Seria fácil justificar a simplicidade narrativa de “O Mandaloriano e Grogu” pela ideia de acompanhar uma aventura de “Star Wars” que não tenta parecer grandiosa. No entanto, em nenhum momento existe uma percepção real de risco. Tudo parece controlado demais, como se o filme evitasse qualquer possibilidade de desagradar o público ou alterar minimamente o status atual da franquia. Personagens surgem apenas como mecanismos que levam a outros personagens igualmente passageiros, criando uma sucessão de objetivos somente para manter a dupla em movimento.

A química entre Mando e Grogu continua funcionando quase automaticamente, e parte da diversão se sustenta na familiaridade com essa dinâmica. Porém, até mesmo o contexto emocional dos protagonistas, já construído ao longo da série, não faz tanta diferença. Exigir tal conhecimento prévio poderia limitar o público, por isso a relação entre Mando e Grogu pouco evolui além da ligação “pai e filho”, mais simples e universal.

Din Djarin segue preso ao arquétipo sisudo e eficiente que a série explora há anos, enquanto a presença de Grogu se limita à dinâmica de mascote que alterna humor e demonstrações ocasionais de poder. Depois de tanto tempo acompanhando o personagem, era razoável esperar que o filme finalmente aprofundasse suas habilidades ou explorasse melhor sua relação com a Força. Mas era confiar muito que uma empresa como a Disney se arriscasse justo no seu dispositivo de fofura mais lucrativo e responsável por alimentar tanto o carisma da franquia quanto o seu merchandising.

“O Mandaloriano e Grogu” aceita ser não mais que uma jornada episódica sobre dois personagens cativantes atravessando o espaço. Contudo, para fazer funcionar no formato longa-metragem uma fórmula que já enfrentava problemas no formato seriado, era preciso mais do que ação constante e referências familiares. Em vez de justificar o retorno de “Star Wars” aos cinemas, a obra reforça o desgaste criativo de uma franquia que, ao menos nos cinemas, está cada vez mais acomodada em repetir a si mesma.

Martinho Neto
@omeninomartinho

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