Longa combina a linguagem da geração TikTok com a estética dos anos 2000 para retratar a trajetória de ascensão e queda de um hacker adolescente.
“O Rei da Internet” nos transporta para o início dos anos 2000, época em que a internet discada ainda se mostrava um território pouco explorado e repleto de possibilidades. Acompanhamos a trajetória de Daniel Nascimento, jovem hacker interpretado por João Guilherme, cuja habilidade com computadores lhe deu uma válvula de escape para o bullying e a fobia social, mas também se tornou uma ferramenta para invadir sites de bancos e roubar cartões de crédito.
Para mergulhar na história, o filme aposta em uma linguagem visual agressiva. A montagem acelera sem parar, recriando o estilo dos clipes da época usando cortes rápidos, colagens, telas se sobrepondo e tudo o mais que gritasse anos 2000. A trilha sonora acompanha o ritmo com volume alto e contínuo, mantendo a narrativa como um fluxo quase ininterrupto de estímulos. Algumas sequências flertam com o absurdo, como o concerto de piano ou o encontro com o mascote do Linux, encaixando-se bem dentro dessa estética juvenil hiperestimulada. A intenção do humor é evidente, mas também são cenas que mostram como validação e poder se tornam vícios instantâneos naquele ambiente.
Essa escolha visual funciona especialmente bem na primeira metade. O diretor Fabricio Bittar demonstra grande compreensão do comportamento daquela juventude que crescia diante de um universo digital ainda pouco compreendido pelos adultos. Daniel aprende a hackear porque encontra na internet um espaço onde finalmente se sente respeitado. Mas existe também a excitação de descobrir algo que quase ninguém era capaz de entender totalmente.
Apesar da recriação bastante interessante, ainda que limitada, dessa época específica, a obra acaba assumindo uma linguagem feita para a “geração TikTok”. A própria narração quase onipresente faz parecer até que estamos assistindo ao Daniel reagindo à própria história. A forma acompanha diretamente o conteúdo, aproximando o filme da linguagem fragmentada das redes sociais contemporâneas e reproduzindo a intensidade e o imediatismo típico da internet.
João Guilherme sustenta bem essa energia, evitando dar a Daniel os trejeitos clichês de um gênio nerd antissociável, tampouco de um anti-herói incompreendido. O personagem é impulsivo e imaturo como qualquer adolescente, facilmente seduzido pela ideia de ser admirado. Sua identidade é construída inteiramente a partir de uma necessidade intensa de controle e pertencimento. E o ator entrega o necessário para manter o personagem crível tanto no sofrimento quanto no deslumbramento.
Contudo, a intensidade incessante começa a cobrar seu preço conforme o longa avança. O excesso de estímulos acaba reduzindo os espaços de respiro que poderiam ser utilizados para desenvolver conflitos internos mais profundos no protagonista. O impacto constante perde força justamente por não permitir contraste. Seria possível, inclusive, explorar melhor a posição de testemunha em tempo real da própria trajetória que Daniel ocupa como narrador.
Também é válido observar como Bittar demonstra certa admiração pela rebeldia do hacker em frases como “por que entrar para a marinha quando você pode ser um pirata?”. Além disso, a narrativa se mostra mais interessada pela ascensão e queda de Daniel dentro desse universo do que, por exemplo, pelas consequências concretas de seus crimes. Não chega a ser uma glorificação, mas existe um olhar claramente atraído pela possibilidade de burlar sistemas e desafiar estruturas de poder.
Ao combinar a estética dos anos 2000 com a agilidade dos anos 2020, “O Rei da Internet” se destaca justamente por essa sensação de caos permanente. O filme revisita uma época em que a internet era um espaço igualmente fascinante e perigoso. Mesmo quando exagera na própria linguagem, Fabrício Bittar consegue capturar a obsessão de alguém que descobriu cedo demais a sensação de poder que existia por trás da tela do computador.
