Cinema com Rapadura

OPINIÃO   domingo, 08 de junho de 2025

Missão: Impossível — O Acerto Final (2025): grandioso no espetáculo e na exposição

Capítulo final sacrifica o ritmo e o prazer da jornada ao priorizar falas excessivas e reverência ao próprio legado.

Após quase três décadas correndo — não só nas ruas, mas também contra o tempo e contra a morte —, Tom Cruise chega a sua suposta última tarefa em “Missão: Impossível — O Acerto Final”. Dirigido por Christopher McQuarrie, o oitavo capítulo se propõe a encerrar um longo ciclo, mas também prestar uma homenagem à jornada construída ao longo dos anos. Contudo, ao tentar dar respostas, reverenciar o passado, construir tensão, refletir sobre o presente e, claro, entregar muita ação, o filme acaba se tornando um fechamento irregular, agradável, mas distante do auge da franquia.

O novo longa dá continuidade aos eventos de “Acerto de Contas Parte 1” — ainda que o longa anterior tenha passado batido, seja por sua qualidade questionável, ou após ter sido atropelado pelo fenômeno Barbenheimer nos cinemas. Ethan Hunt (Cruise) segue tentando parar a Inteligência Artificial denominada Entidade, que agora ameaça não apenas toda a rede mundial, como a própria existência humana ao se apropriar do controle das ogivas nucleares das potências atômicas. Enquanto o destino do mundo balança, Hunt ainda precisa enfrentar inimigos que atormentaram o seu passado e tentam destruí-lo mais uma vez.

No geral, não há como negar que parte da essência dos últimos longas da franquia segue presente. Tom Cruise continua desafiando o bom senso e as leis da física em suas várias acrobacias com pouco ou nenhum uso de efeitos digitais. O ator se entrega de corpo e alma pelo espetáculo, e McQuarrie sabe como mover a câmera para privilegiar os movimentos do protagonista e todos os riscos que ele está correndo. Uma das cenas mais apreensivas do longa mostra Hunt, sozinho, enfrentando os perigos de explorar um submarino afundado. Em contraste com outra grande sequência envolvendo uma perseguição entre aviões, ambas causam sentimentos igualmente estimulantes no público.

Apesar disso, “O Acerto Final” tropeça onde a franquia costumava brilhar. “Missão: Impossível” atraía pelo seu ritmo frenético e pela capacidade de fazer parecer leve, o que é, essencialmente, um exercício de tensão contínua. Porém, as duas partes finais estão determinadas a explicar cada plano, cada consequência e cada motivação em um grau de exposição que só não incomoda mais do que os constantes jograis em que um personagem completa a fala do outro, mesmo estando a milhares de quilômetros de distância. Isso, somado ao retorno de personagens de filmes anteriores e à tentativa de dar algum peso simbólico a cada atitude tomada, faz com que seja difícil acreditar que os capítulos finais foram comandados pelo mesmo diretor de “Nação Secreta” e “Efeito Fallout”.

É curioso notar que o excesso de exposição, aliado a uma escolha de subtramas cada vez mais emaranhadas, prejudicam até o uso da ameaçadora Entidade como vilã. O bom timing de trabalhar uma metáfora contemporânea com os impactos de uma Inteligência Artificial superpotente poderia adicionar camadas interessantes, como o confronto entre o humano, caótico e instintivo, e a máquina, fria e metódica. Mas o roteiro faz o oposto da regra de ouro do cinema ao falar muito mais do que mostrar. E ao tentar sistematicamente nos convencer de que essa é “a” missão que definirá o destino da raça humana, termina por sufocar o próprio senso de entretenimento da obra.

Lá pela segunda metade, felizmente, o filme encontra sua energia. Perseguições, reviravoltas e tudo o mais que tanto esperamos do espetáculo de ação que a franquia estava acostumada a entregar. Contudo, ainda que os trailers não tenham antecipado as maiores set pieces tanto quanto no longa anterior, o peso das decisões ruins até aqui acaba pesando. Basta ver o quanto a química entre os membros da equipe, antes uma das maiores qualidades da cinessérie, agora nunca deslancha — com destaque para a sequência sofrível envolvendo Hunt e Luther (Ving Rhames).

No fim, a sensação é de que o peso dramático de ser o encerramento da saga de Ethan Hunt não permitiu que “O Acerto Final” pudesse ser tão divertido. E isso é, mais do que tudo, uma pena, pois perder a leveza tão característica justo no fim faz com que a despedida de um personagem tão icônico tenha um gosto agridoce, no pior dos sentidos. Apesar de melhorar em relação a “Acerto de Contas Parte 1”, as tentativas de inflar demais a própria importância e fazer conexões com o legado de obras anteriores fizeram com que a verdadeira missão — entreter o público — ficasse em segundo plano.

Martinho Neto
@omeninomartinho

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