Mikey Madison entrega um desempenho marcante em um filme que expõe, sem julgamentos, até onde somos capazes de ir para realizar nossos sonhos em um mundo de relações tão frágeis e desiguais.
É possível que, ao começar “Anora”, muitos espectadores sejam levados a pensar que estão assistindo a uma comédia romântica moderna e voltada para adultos. A personagem-título, interpretada por Mikey Madison, se envolve em um relacionamento com Ivan (Mark Eydelshteyn), um jovem rico que se mostra ser a porta de saída de sua vida marginalizada em um clube de strip. O diretor Sean Baker (“Projeto Flórida”) dedica bastante tempo a essa primeira parte do filme com a intenção de criar um vínculo entre Ani (como a protagonista prefere ser chamada) e seu projeto de príncipe encantado.
Desde cedo, Ivan mostra traços de imaturidade e egoísmo que, de certa forma, prejudicam esse papel de herói romântico. Isso não é culpa do ator, afinal, Mark Eydelshteyn constrói o personagem com uma autenticidade que deixa claro o privilégio de quem nunca precisou pensar um minuto sequer nas consequências de seus atos antes de tomar qualquer ação. Mesmo assim, é essencial para o espectador acreditar que Ani está, de fato, entregue a esse romance improvável. Para isso funcionar, ainda que o diretor gaste vários minutos e até comprometa o ritmo da obra, a atuação sublime de Mikey Madison se destaca.
A atriz preenche a tela ao dar vida a uma mulher complexa. Ani é forte e determinada, e apesar de não vermos tanto sua vida pregressa, entendemos que ela é uma sobrevivente. Mas a jovem, como qualquer um, possui suas vulnerabilidades que a deixam suscetível ao brilho de promessas que parecem boas demais para ser verdade. Madison domina cada nuance, e seu desempenho é essencial para a conexão emocional do público com o filme. Baker complementa essa força com um visual igualmente vibrante, criando uma atmosfera que reflete o fascínio de Ani por essa nova vida, ao mesmo tempo em que sugere sutilmente o quão frágil essa ilusão pode ser.
O tempo vai passando até que a narrativa repentinamente toma um rumo completamente diferente, abandonando a leveza inicial e revelando sequências mais aceleradas e enervantes. Se você viu a descrição do filme como uma comédia, provavelmente as cenas com esse tom comecem a partir de agora. Contudo, ainda que o longa flerte com o humor nesses momentos caóticos — principalmente quando o segredo do relacionamento vem à tona para a família do agora marido da protagonista —, o desconforto prevalece. Ani é colocada em situações bizarras envolvendo sair com os capangas da família russa (um em especial desenvolve um cuidado inusitado com ela), encontrar Ivan e enfrentar os pais dele, e tudo o que vemos são gritarias e confusões no melhor estilo “Joias Brutas”.
Baker usa essas situações não para aliviar a tensão, mas para intensificá-la e, de quebra, expor o abismo entre as realidades dos dois personagens principais. Quando tudo desmorona, o peso recai desproporcionalmente sobre Ani, enquanto Ivan e sua família seguem praticamente ilesos. Baker não julga a protagonista (nem ninguém, na verdade) por buscar a felicidade por meio de um “contrato” de alto custo pessoal envolvendo sexo e poder. Porém, em um mundo onde o dinheiro exerce tanta influência sobre as relações humanas, essa diferença escancara como as estruturas sociais protegem os privilegiados e punem os mais vulneráveis.
Depois de todo o turbilhão de emoções, o clímax do filme ainda dá um último golpe impactante, fugindo de qualquer tentativa de romantizar ou suavizar a trajetória da protagonista. Baker deixa claro que, apesar das escolhas questionáveis para tentar melhorar de vida, Ani está sozinha para lidar com as consequências de uma sociedade que a julga por suas ambições enquanto ignora os erros dos mais poderosos. A falta de aprofundamento no passado da personagem demanda que o público complete certas lacunas para que a experiência seja completa. Ainda assim, vê-la se desprendendo de todas as armaduras que precisou usar a vida inteira para conseguir sobreviver é bastante comovente.
“Anora” não é uma obra fácil de categorizar. Ele desafia as expectativas ao misturar gêneros e oferecer uma visão atual e sem enfeites sobre relações marcadas pela desigualdade. Ainda que o ritmo seja um ponto baixo a se considerar — talvez realizar a montagem do próprio filme tenha deixado Baker apegado demais às cenas —, a obra tem seus méritos ao abordar uma narrativa sobre o poder do dinheiro nas relações humanas e o quanto uma pessoa precisa se desgastar na busca por felicidade em um mundo desigual. A intenção do humor passa do ponto, mas o desconforto gerado faz até mais pela história do que os possíveis risos.
