Cinema com Rapadura

OPINIÃO   sexta-feira, 27 de maio de 2022

Top Gun – Maverick (2022): a apoteose de Pete “Maverick” Cruise

Alicerçado pelo realismo na realização das suas façanhas mais absurdas, o filme desafia o adormecimento do cinema de espetáculo a partir da força de um gigante que se recusa a descansar.

Caças de combate rasgam os ares em alta velocidade. Almirantes da marinha correm para recebê-los nos hangares movimentados. Danger Zone ecoa pelos ouvidos do espectador e os anos oitenta retornam, mais vivos do que nunca. Por mais que a sua introdução, mimetizando perfeitamente a de seu antecessor, trace fortes elos com o passado, o maior mérito de “Top Gun: Maverick” se faz na valorização do futuro.

Suspenso por sua incontrolável determinação — e que, conforme já vimos em 1986, chega a pender ao egocentrismo —, o aviador Pete “Maverick” Mitchell (Tom Cruise) é convocado para instruir futuros prodígios da organização Top Gun, através da qual ele próprio se tornou uma lenda da aviação. Rebaixado após um experimento em que buscava sustentar a manutenção de pilotos em detrimento da substituição tecnológica, ele se vê forçado a se tornar o mentor de Rooster (Miles Teller), filho de seu falecido melhor amigo Goose. (Anthony Edwards).

Tem-se assim um retorno ao passado que irá desafiar as percepções do invencível aviador, figura que não parece se distanciar daquele que lhe concede vida. Movido por uma valorização invejável de suas próprias habilidades, não é recente a preferência do ator pelo cumprimento de suas próprias cenas de ação, rejeitando também o uso de efeitos digitais. Nesse sentido, Cruise tem se tornado um dos grandes responsáveis pela manutenção do gênero nos últimos anos, dedicado a permitir que as façanhas mais absurdas sejam concretizadas das maneiras mais realistas possíveis.

Partindo dessa crença quase ingênua em relação à indústria atual — mas que em mãos como as suas ainda tem rendido frutos impressionantes —, já era de se imaginar o salto de fidelidade na representação das tomadas áereas. Hábil na unificação de reações genuínas e planos que destacam a grandiosidade das paisagens sendo dinamicamente percorridas, a direção de Joseph Konsinski dimensiona tais passagens ao registrar com bastante clareza as arriscadas manobras e elevadas altitudes. Não suficiente, todavia, ela também se destaca por reservar o devido valor às expressões encapsuladas do elenco, jamais se esquivando do determinante fator humano por detrás das equipadas bestas de metal e aço.

Apesar da humanização das máquinas que os pilotos secundários permitem, é interessante observar como a sua presença não ultrapassa o exercício arquetípico. Longe de ser um defeito, contudo, essa e outras estratégias simplificam a narrativa ali desenvolvida, que inclusive vai pouco além do que a emulação dos mesmos propósitos e objetivos que estimularam Maverick e Goose há quase 40 anos. Isso reforça ainda mais a força emitida pelo primeiro, consagrado em tela como um símbolo vivo de uma vertente cinematográfica que tenta resistir em meio aos algoritmos.

Embora a simplicidade da trama de “Top Gun: Maverick” possa vir a ser mal enxergada por alguns — inclusive buscando outros ecos com os anos 80 ao trazer velhos reflexos do maniqueísmo da Guerra Fria, por exemplo —, é justamente nesse fator que encontra o seu verdadeiro charme. Ao redirecionar todas as atenções para as suas sedutoras demonstrações do controle que o homem (ou pelo menos um deles) pode exercer sobre a natureza, a produção se consagra em seu ímpeto de utilização do cinema como espetáculo.

Espetáculo esse, todavia, que ainda busca se fundamentar no fator humano, encontrando respostas para a instrumentalização excessiva do pensamento, e que diversas vezes desumaniza protagonistas ainda investidos de significado. Mesmo que flerte com um grau de egocentrismo — visto que a grande influência que Tom Cruise (felizmente) orquestra o filme como um grande registro de sua coragem, borrando os limites que o separam do aviador título —, a sinceridade do astro para com aquilo que realiza em tela dimensiona o projeto, que acaba se valendo pela dupla dimensão entre a grandiosidade estética e o reconhecimento subjetivo da paixão pelos feitos cinematográficos.

Davi Galantier Krasilchik
@davikrasilchik

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