Cinema com Rapadura

Críticas   quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Duas Coroas (2017): carente de estrutura dramática

Docudrama religioso tenta explorar a figura importante de Maximiliano Kolbe e acaba criando uma narrativa sem variações dramáticas e pouca substância.

Em geral, os filmes precisam apresentar conflitos para os personagens e um arco de transformação que componha sua narrativa. É muito difícil se sustentar sem os elementos clássicos de uma história, pois a tarefa exige um apuro técnico e um domínio sobre técnicas menos comuns de desenvolvimento dramático. “Duas Coroas” não consegue ser bem sucedido em moldar sua trama de maneira convincente, já que a falta de estrutura dramática gera um resultado laudatório e de tom único que não promove identificação com a figura real biografada nem explora as riquezas daquele indivíduo.

O enredo gira em torno da jornada real de Maximiliano Kolbe (Adam Woronowicz), um sacerdote que, desde muito novo, já demonstrava possuir grande fé. Ao ingressar na Igreja Católica, ele realiza feitos importantes, como criar a Milícia da Imaculada para espalhar a palavra de Deus por diferentes locais e a publicação e revistas com o mesmo propósito. A trajetória do homem é interrompida violentamente quando é capturado pelos nazistas e enviado para o campo de concentração de Auschwitz, onde entrega sua vida para salvar um sujeito que mal conhecia. Anos depois da sua morte, o papa João Paulo II reconhece o legado deixado por Maximiliano e o proclama santo.

A vida do clérigo possui momentos que podem ser vislumbrado em uma tela de cinema, adaptada em um roteiro que trabalhasse o contraste entre a religião e a violência do mundo ao redor. Entretanto, o diretor estreante Michal Kondrat constrói um documentário incapaz de acertar o teor da narrativa e a caracterização do protagonista: não são oferecidas camadas para o personagem, sempre descrito como o mais perfeito dos homens (bondoso, sábio, empático, misericordioso, solidário…) e desprovido de qualquer defeito ou da mais leve sombra de questionamento interno – desde o início, já sabe o que quer, atravessa sua jornada reafirmando suas milhares de virtudes a todos com quem convive e não apresentando nenhuma mudança. Além disso, o roteiro não escapa da mesma linha dramática de glorificação, apesar do uso de diferentes recursos estéticos.

A começar pelo tipo de documentário, percebe-se como as escolhas artísticas do cineasta não fogem do problema central. É construído, na realidade, um docudrama portador de momentos claramente documentais, com entrevistas e imagens de arquivo ou de localização geográfica, e outros de encenação ficcional com atores. Quando os relatos dos clérigos que conheceram Maximiliano são ouvidos, inúmeros casos exemplares de seus feitos são enumerados de modo a transmitir admiração e a reconstruir o passado daquele homem. Situações que retratam uma fé inabalável, sua influência sobre os demais, a dedicação extrema ao trabalho e o temperamento irretocável são expostas através de falas longuíssimas, demonstrando a falta de articulação entre testemunhos e imagens representativas. Ademais, o próprio Michal Kondrat dá depoimentos quebrando a quarta parede e mostrando os resultados da pesquisa por ele feita – um aspecto de pouco alcance narrativo para justificar essa filmagem diferente que apenas indica o deslumbramento do biógrafo.

Por consequência, as sequências encenadas não trazem nada de muito diferente. Uma atmosfera solene e exagerada toma conta, devido à ausência de diálogos comuns próprios do ambiente retratado por mais inusitado que possa ser em algumas ocasiões. Cada fala e gesto precisa ter uma grandiosidade que passe uma mensagem edificante sobre sacrifício e benevolência aos demais personagens e ao espectador. Isso se reflete também nas próprias cenas criadas, todas elas meras ilustrações do que já havia sido dito anteriormente pelos entrevistados: o menino demonstrando sua crença precocemente após uma visão da Virgem Maria; ainda na infância, uma conversa com um padre para revelar sua inteligência ímpar; as humilhações sofridas de outros religiosos que não acreditavam nas atitudes do sacerdote; a reafirmação de seu louvor a deus ao acreditar na possibilidade de uma cura incomum, entre outros.

Da mesma maneira, alguns traços estilísticos exaltam excessivamente o biografado e acabam chamando atenção demais para si mesmos. São os casos da trilha sonora, composta principalmente por notas de piano e ruídos típicos de uma ovação religiosa, que chega a gritar os acordes, o ritmo e as sensações que pretende transmitir – algo que se torna muito intrusivo e manipulativo das emoções de quem assiste -; e do design sonoro nas transições entre passagens ficcionais e documentais, sempre marcados por efeitos nada discretos que remetem a uma procissão. Além de forçar as reações do público a cada instante, tais detalhes definem um estilo de direção absolutamente carregado e cansativo independentemente da breve duração.

Por outro lado, há certos elementos interessantes que preenchem a existência do protagonista justamente por não serem tão esperados em sua realidade. Ele, em dado momento, se interessa pela capacidade mobilizadora do cinema e se apaixona pelas potencialidades da ciência. Em outras ocasiões, se relaciona com contextos históricos alarmantes para a humanidade, como a viagem pelo Japão (anos antes das bombas de Hiroshima e Nagasaki) e a morte no campo de concentração nazista. Ainda que sejam menções qualificadoras da narrativa, não chegam a ser um benefício completo porque não estão ali para dar nuances à personalidade do clérigo, criar novas possibilidades para sua caminhada ou comentar as disparidades entre as crenças de um mundo melhor e uma conjuntura de atrocidades de grande escala. Estão ali novamente para reafirmar as qualidades imensas do homem.

“Duas Coroas” pode ter a melhor das intenções ao escolher Maximiliano Kolbe como centro do docudrama. É uma figura dona de uma trajetória relevante e expressiva, capaz de despertar a curiosidade e a atenção de diferentes plateias. Porém, esperar que o personagem, por si só, garanta uma obra bem-sucedida é exigir demais de um único aspecto da narrativa. Enquanto supervaloriza o biografado, esquece como é preciso escrever um roteiro com estrutura e tom mais complexos do que a simples glorificação.

Ygor Pires
@YgorPiresM

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Duas Coroas (2017)

- Michal Kondrat

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