Cinema com Rapadura

OPINIÃO   quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Sinônimos (2019): perdido na tradução

Contando a história de um israelense que se recusa a reconhecer sua cultura natal, o filme consegue passar efetivamente a sensação de pertencimento que imigrantes desejam sentir com ótimas atuações, direção e roteiro.

Em “Sinônimos”, acompanhamos a trajetória de Yoav (Tom Mercier), um jovem israelense que foge para Paris e tenta de todas as formas deixar sua própria nacionalidade de lado, se recusando até mesmo a falar em seu idioma natal. A repugnância pelo seu país de origem é o que o obriga a estar sempre com um dicionário francês, em uma tentativa sem fim de sentir e provar para os outros que merece fazer parte daquela cultura. Na sua primeira noite na capital francesa, ele é furtado e, ao pedir ajuda aos moradores do prédio onde está, conhece Caroline (Louise Chevillotte) e Emile (Quentin Dolmaire), um jovem casal que decide ajudá-lo. A partir daí, acabam formando um vínculo curioso com o estrangeiro.

Tudo na direção de Navad Lapid é executado de forma eficiente para fazer o espectador sentir o peso do senso de pertencimento que Yoav tanto deseja e luta para conseguir. Enquanto ele anda sozinho pelas ruas da cidade, começa a treinar novas palavras e expressões. A câmera continuamente segue seu ponto de vista, dando closes no seu rosto ou fazendo movimentos frenéticos que transparecem a confusão constante na qual se encontra o estado mental do protagonista. Portanto, esse estilo de direção se baseia no que o personagem está sentindo: eufórica nos seus melhores e mais confusos momentos e completamente estática nos seus piores.

Aprendemos muito sobre o imigrante através das histórias do seu passado que ele conta para Caroline e Emile. Nesse sentido. o destaque fica para a atuação de Tom Mercier e para o roteiro de Navad e Haim Lapid: diferentemente de grande parte dos filmes que retratam esses personagens como pessoas retraídas, este não tem papas na língua, não tem medo de falar o que está pensando e se recusa, durante a maior parte da narrativa, a se colocar como vítima – mesmo que ele seja exatamente isso em diversas situações. Apesar de ser expositivo demais em algumas ocasiões, os relatos mirabolantes contados conseguem captar o interesse do público, por todo o trabalho que o texto faz em deixá-lo imaginando o que aconteceu para que criasse um vínculo negativo com o seu passado. Mesmo assim, o foco é na sua jornada por uma nova fase da vida, não exatamente sendo a mesma pessoa que era antes, mas em quem está tentando se tornar e o que isso diz sobre ele.

Um aspecto que poderia ser melhor explorado é a relação do protagonista com Caroline e Emile que, apesar de em grande parte cumprir seu papel efetivamente na narrativa, se beneficiaria de um aprofundamento maior para que algumas atitudes no terceiro ato não parecessem tão bruscas ou fora de lugar. O filme também contém cenas com um personagem específico que são ricamente construídas: se levadas a sério podem ser consideradas um alívio cômico, porém se levadas para o lado mais surreal podem apresentar mais profundos (e sombrios) significados. A cinematografia é repleta de tons brancos, trazendo sempre o destaque para o figurino carregado de cores primárias quentes que chamam a atenção para os conflitos emocionais de quem está em cena. Por conta disso, a história é muito bem contada visualmente.

Apesar de tomar decisões drásticas como se recusar a falar sua língua original e até se afastar ao máximo da própria família por eles representarem uma aproximação com o país que ele tanto detesta, o filme consegue construir o porquê de sentir ressentimento e de renegar a sua cultura. O que pode parecer exagerado no primeiro ato começa a fazer mais e mais sentido ao longo da narrativa. O enredo transmite ricamente seu tema central na representação de como imigrantes como Yoav são discriminados fora de sua região de origem, às vezes até mesmo por aqueles que compartilham da sua nacionalidade.

Uma sequência em particular no terceiro ato constrói com maestria o desconforto e desespero do estrangeiro: saber que as pessoas que vivem na nação que ele tanto idolatra, em sua maioria, não se importam com a jornada dos viajantes em busca de uma vida melhor, fazendo de tudo para fingir que não estão vendo exatamente o que está diante de seus olhos e os diversos obstáculos que precisam superar no caminho. Talvez a crítica aqui não seja direcionada apenas aos franceses, mas sim para a Europa em geral. No entanto, a visão dos franceses como um povo emocionalmente distante diante de tal problema social é passada tão efetivamente que pode causar um frio na espinha do espectador.

Sinônimos é uma produção que exige a atenção em todos os momentos, pois algumas informações são dadas rapidamente ou ficam apenas subentendidas. Isso pode causar confusão naqueles que estejam menos concentrados. Com uma sequência final poderosa e comovente, o filme de Navid Lapid consegue passar com destreza a sua mensagem principal. Vale a reflexão.

Lívia Almeida
@livvvalmeida

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