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Críticas   segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Belzebuth (2017): o diabo ainda é capaz de surpreender

Mesmo repleto de referências notórias, a obra consegue de maneira eficiente apresentar sua veia autoral enquanto intriga e perturba o público.

Presumivelmente, é possível afirmar que filmes sobre possessões demoníacas tornaram-se a essa altura já bastante familiares aos entusiastas dos gêneros de terror e suspense. Expoente mor deste segmento, o clássico setentista “O Exorcista” estabeleceu muitas das convenções que viriam a ser seguidas por toda uma leva de filmes dessa temática lançados posteriormente. Ciente deste fato, o cineasta mexicano Emilio Portes, que anteriormente dirigiu a comédia “Pastorela”, faz bom uso de tais referências em Belzebuth, uma obra consciente de suas inspirações e ao mesmo tempo ambiciosa o suficiente para se permitir transgredi-las em prol da busca pela autoralidade.

Na trama, após perder seu filho recém-nascido e sua esposa de maneira trágica, o detetive Emmanuel Ritter (Joaquín Cosio) é designado a investigar uma série de assassinatos cujos alvos são crianças. O que antes parecia se tratar apenas de um caso comum, aos poucos ganha ares paranormais quando o agente americano Ivan Franco (Tate Ellington) capta traços de uma presença demoníaca nos cenários dos crimes, o levando a crer que a chave para desvendar tal mistério possa estar no paradeiro de Vasilio Canetti (Tobin Bell), um excêntrico padre excomungado pelo Vaticano.

O fatídico segmento que culmina no primeiro assassinato logo após a abertura é, certamente, um dos momentos mais impactantes e memoráveis de todo o filme. Não por acaso a cena se inicia com um plano sequência que, embora discreto, é plenamente capaz de prender a atenção do espectador enquanto a câmera parece espreitar por de trás da porta e avança lentamente em direção ao feliz casal que observa com carinho seu bebê minutos antes do atentado ocorrer. Embora meramente sugestivo, seu desfecho é extremamente brutal e emocionalmente devastador, forçando o público a imergir rapidamente na narrativa de forma bastante eficiente e orgânica.

Passado o choque inicial, o roteiro de Portes e do estreante em longas-metragens Luis Carlos Fuentes não perde tempo com diálogos expositivos ou flashbacks desnecessários, mantendo a princípio o ritmo narrativo coeso e assertivo ao longo de todo o primeiro ato. Nessa fase é possível perceber referências pontuais de “O Exorcista III” e “Seven – Os Sete Crimes Capitais”. No entanto, tais modelos são subvertidos em função do enredo. Diferente dos padrões estabelecidos por essas obras, o personagem Ritter mesmo sendo mais velho e experiente, devido ao trauma sofrido torna-se um homem explosivo e rancoroso, indiferente com o sofrimento alheio e sem nada a perder. Sua personalidade contrasta com o jovem Ivan, cuja fé e senso moral o tornam bem mais afável e cauteloso que seu parceiro. As atuações convincentes de Joaquín Cosio e Tate Ellington ajudam a acentuar ainda mais tais contrastes.

A partir do segundo ato, o filme assume de vez seu caráter sobrenatural, incorporando elementos de “O Bebê de Rosemary”, “O Gênio do Mal”, “Estigma” e “O Fim dos Dias”. Aqui, mergulha no cinema de terror, mas sem deixar de lado seu principal ingrediente, o suspense. É também nesse ponto que o personagem de Tobin Bell, conhecido por interpretar o serial killer Jigsaw na franquia “Jogos Mortais”, é enfim introduzido. Misterioso e eloquente, sua presença sinistra confunde a todo instante o público que passa a suspeitar até o final de suas reais intenções. Por outro lado, seus diálogos são realmente inspirados e rendem boas reflexões que retêm a atenção e cativam o interesse do espectador.

Infelizmente, nem tudo são acertos. A começar pelo núcleo protagonizado pela atriz Yunuen Pardo e pelo ator mirim Liam Villa, cujos personagens foram totalmente subaproveitados e mal desenvolvidos. Em ambos os casos um maior aprofundamento contribuiria substancialmente para a mítica da história. Nem ao menos o conflito da crença materna é explorado, restando apenas o questionamento se aquela mãe realmente acreditava na natureza extraordinária de seu rebento ou apenas agia conforme era necessário para garantir a sobrevivência da família. No entanto, sem dúvida as maiores falhas encontram-se no terceiro ato, quando o prolongamento exagerado do clímax acaba por comprometer o ritmo até então consistente. Além disso, o filme não é capaz de entregar de maneira satisfatória um final corajoso e coerente com o conflito do personagem principal, optando por resolvê-lo simplesmente através de um exorcismo ao invés de fazê-lo confrontar os demônios do passado e obrigá-lo a lidar diretamente com as consequências advindas de seu livre-arbítrio.

Em síntese, apesar de apresentar pequenas imperfeições e cometer certos deslizes em seus momentos finais, a obra ainda assim se sobressai em comparação à grande maioria das produções do gênero. Ela é capaz de soar coesa e intrigante na maior parte do tempo, conseguindo imprimir com sucesso sua vertente autoral ainda que notoriamente mescle referências e homenageie diversos clássicos do terror e suspense. Obrigatório para aqueles que buscam uma nova abordagem em um contexto já tão batido, este filme é a prova cabal de que o diabo ainda é capaz de surpreender e aterrorizar os bem-aventurados amantes da sétima arte.

Alan Fernandes
@alanfdes

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Saiba mais sobre

Belzebuth (2017)

Belzebuth - Emilio Portes

Após perder sua família de forma extremamente trágica, o detetive Ritter deve investigar uma série de massacres cujas vítimas são crianças. O que antes pareceu se tratar de um caso bastante claro torna-se muito mais denso quando um investigador americano e um ex padre excomungado pelo Vaticano aparecem com um ponto de vista diferente.

Roteiro: Luis Carlos Fuentes e Emilio Portes.

Elenco: Joaquín Cosío, Tobin Bell, Tate Ellington, José Sefami, Yunuen Pardo, Liam Villa, Giovanna Zacarías e Aida López.

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