Cinema com Rapadura

Críticas   segunda-feira, 06 de maio de 2019

A Menina e o Leão (2018): faz de conta com animais de verdade

Apesar de mostrar que leões não são de estimação, o longa constrói uma relação emotiva entre uma jovem garota e seu grande felino e promete diversão aos pequenos.

Bastam algumas cenas de “A Menina e o Leão” para se perguntar em espanto se o animal do título é real mesmo ou resultado de animação computadorizada. Acontece que o leão branco do título é de verdade e seu relacionamento com Mia (Daniah De Villiers, “The Dating Game Killer”) também. O filme dirigido por Gilles de Maistre (“A Busca do Chef Ducasse”) conta como os dois construíram uma relação de amor e confiança numa fazenda na África do Sul contra a expectativa da família criadora de animais e apesar dos riscos que o felino selvagem representa. Realizada ao longo de três anos, a obra acompanha o crescimento do pequeno filhote e do elenco mirim e lida bem com os desafios consequentes desse tipo de produção.

No início da história, Mia é uma pré-adolescente buscando sua individualidade. Ela ouve rock e é fã de futebol, mas não consegue dar a continuidade à sua vida em Londres porque seus pais, John (Langley Kirkwood, da série “Banshee”) e Alice (Mélanie Laurent, “Bastardos Inglórios”), decidem ficar de vez na fazenda de leões da família no sul do continente africano. Para compensar o desgosto da filha pela mudança forçada, John deixa que ela e o irmão Mick (o estreante Ryan Mac Lennan) tomem conta de Charlie, o pequeno filhote de leão branco que protagoniza o longa ao lado de Daniah. Para executar o roteiro, Gilles contou com a ajuda de especialistas que ajudaram a desenvolver a relação entre os irmãos e Charlie de maneira a diminuir os riscos inerentes de se trabalhar com animais selvagens.

Como um filme voltado para famílias, “A Menina e o Leão” conta demais com as sequências fofas de entrosamento entre Mia e Charlie montadas com uma trilha e uma canção repetitiva compostas para emocionar. Por esse uso recorrente da música, o resultado perde eficácia e deixa a impressão que o longa necessita do áudio para manter um ritmo entre as cenas. A maneira em que alguns momentos são encenados também são muito inverossímeis para os olhos de um público adulto, porém, dados o potencial de encantar crianças e o grau de dificuldade que se assume ao trabalhar tanto com animais selvagens quanto com um elenco infantil, é possível perdoar a produção por alguns deslizes de direção.

O roteiro admite que tentar manter contato com leões como se fossem animais domesticados é uma loucura pelo altíssimo risco de acidentes graves. No entanto, o forte vínculo emocional (fictício, diga-se de passagem) criado entre os protagonistas é apresentado como algo possível, e algumas situações colocadas para Mia são resultado de extrema irresponsabilidade. Dessa forma, recomenda-se alertar as crianças sobre os perigos reais do que se vê em tela. O desenrolar dos eventos do filme leva a agora adolescente para uma aventura com Charlie longe da fazenda dos pais e, para isso, a história tenta criar um senso de ameaça sem muito sucesso. Há o esboço de um antagonista e um contexto de gravidade, mas nada que faça os espectadores temerem de verdade pelo destino dos personagens.

Por trás da jornada de “A Menina e o Leão” existe uma forte crítica à caça esportiva e ao modo que a África do Sul em especial lida com a questão. Em certo momento, um dos personagens diz que a caça é algo instituído e não se pode mudar, para um pouco em seguida e de maneira bem sutil uma reportagem sobre eleições gerais no país ser exibida numa televisão. A mensagem de que sim, é possível, e a sugestão sobre como mudar são claras. Com um visual agradável das cores douradas da paisagem africana, mesmo sofrendo com a pobre execução de muitas cenas, o longa impressiona pela audácia de construir uma real relação entre crianças e um leão de verdade. Sua eficácia para uma audiência adulta é duvidosa, mas tem o potencial de atrair a atenção do público infantil. Neste caso, fica só o alerta de que nada do que é visto no filme pode ser tentado em casa sob qualquer circunstância.

William Sousa
@williamsousa

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A Menina e o Leão (2018)

Mia et le lion blanc - Gilles de Maistre

Mia (Daniah De Villiers) é uma jovem de 14 anos que desde pequena tem uma profunda amizade com Charlie, um leão branco da fazenda de sua família. Quando seu pai decide vender Charlie para caçadores de troféus, Mia não vê outra opção além de fugir com o leão para salvá-lo.

Roteiro:

Elenco: Daniah De Villiers, Mélanie Laurent, Langley Kirkwood, Ryan Mac Lennan, Lionel Newton, Lillian Dube, Brandon Auret, Elvis le Suricate, Benjamin Garrad, Andrew Stock, Lebohang Elephant, Jurgen Hellberg, Tessa Jubber, David Clatworthy, Ashleigh Harvey, Craig Wainwright, Sithandiwe Radebe, Francis Rangoajane, Chris April, Sisekho Velelo

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