Cinema com Rapadura

OPINIÃO   sexta-feira, 29 de março de 2019

La Casa de Papel (Netflix, Partes 1 e 2): a arte do roubo

Um plano perfeito, o maior roubo da história e a mistura equilibrada entre novela e série que também vai te prender na Casa da Moeda.

Produzida pela rede televisiva espanhola Antena 3, “La Casa de Papel” começou com um sucesso nacional. Não demorou até que a Netflix percebesse o potencial da série, adquirisse os direitos de transmissão e a adicionasse ao seu vasto catálogo de alcance internacional. Originalmente lançada com 15 episódios de aproximadamente 70 minutos cada e agrupados em duas partes , a obra foi reeditada pelo serviço de streaming e esticada. O que eram 15 transformaram-se em 22, também separados em duas partes, mas com duração de 45 a 55 minutos. Resultado? A série de lingua não-inglesa mais assistida na história da Netflix até então, segundo pesquisa divulgada pelo serviço em 2018. O motivo? Uma mescla muito bem feita entre os dramas latinos, a agilidade de um clássico do gênero de assalto à banco e um roteiro astuto, que explora a fundo seus vários personagens, conferindo a eles as armas necessárias para ganharem o afeto da opinião pública dentro e fora das telas.

Um homem misterioso, cuja identidade não é revelada, mas pede para ser chamado de “O Professor”, reúne um grupo de oito peculiares ladrões, cada um portando uma especialidade, para executar o que acredita ser um plano infalível caso seguido à risca: assaltar a Fábrica Nacional de Moeda e Timbre, na Espanha. Só que não se trata de um roubo qualquer. A ideia é ganhar o máximo de tempo possível enquanto fabricam seus próprios milhões. Sem mais delongas, a história apresenta a geniosa Tóquio, olho que tudo vê e voz que conduz o espectador até o término do assalto, com isso logo de cara já estreita sua relação com o interlocutor. Mais rápida ainda é a narrativa quando em seu primeiro episódio já coloca os atracadores para dentro da Fábrica. Toda essa agilidade é uma isca do texto inteligente de Álex Pina (“Kamikaze”), criador da série, que estabelece desde o princípio um senso de urgência envolvente e amplia as possibilidades para brincar com as expectativas.

Apelidos e máscaras de Dalí

Seja série ou seja filme, nada em cena é por acaso (se for, algo está errado). Por isso, cada decisão precisa ser pensada minuciosamente. Em “La Casa de Papel”, tudo começa com a caracterização dos ladrões, cujo roupão e a máscara do famoso pintor catalão Salvador Dalí são elementos fundamentais na composição e no desenvolvimento da narrativa. A cor da vestimenta, por exemplo, representa um aliado estético dos antagonistas (o vermelho simboliza o perigo iminente e a ameaça) e também oferece agradáveis rimas visuais ao longo de toda a produção. As faces de Dalí dizem muito sobre a personalidade do arquiteto do plano e soam muito menos ofensivas que a de zumbis ou esqueletos. Juntos, esses elementos apresentam uma contradição satisfatória, adicionando ainda mais complexidade à intenção dos bandidos perante a polícia, que se vê incapaz de diferenciar quem é quem, e os reféns, que são constantemente surpreendidos por intimidações e fino trato.

Seguindo essa linha de raciocínio, os nomes dos personagens evidenciam muito da personalidade deles, permitem teorias engraçadas e comprovam a riqueza do roteiro. O Professor (Álvaro Morte, “Durante a Tormenta”) com certeza é o mais próximo de um estereótipo, contudo, seu carisma se sobressai. Calculista, dono de uma inteligência ímpar, com trejeitos de mestre, metódico em seus atos e também no jeito de se vestir, ele é a figura mais complexa. Tokio (Úrsula Corberó, “Árvore de Sangue”) é atrevida, fugaz, apaixonante e seu corte de cabelo ao melhor estilo mangá faz jus ao apelido. Río (Miguel Herrán, da série Elite”) pode ser facilmente associado a malemolência do jovem carioca, com seu bom humor cativante e sua paixão inocente.

Nairobi (Alba Flores, da série O Tempo entre Costuras”), de traços típicos da África Oriental traz um passado de dificuldades assim como a terra que carrega seu codinome, mas é destemida e empoderada o suficiente para bater de frente com o próximo da lista. Berlín (Pedro Alonso, “Onde está a Felicidade?”) surge frio, cético e ditatorial. Seus métodos cruéis lembram sem muito esforço os de um certo ditador alemão. Moscú (Paco Tous, “Um Contratempo”) e Denver (Jaime Lorente, “Elite”). Rússia x EUA. Pai e filho. Precisa dizer algo mais? Completando o esquadrão, Oslo (Joseph Whimms) e Helsinki (Darko Peric, “Um Dia Perfeito”), dois brutamontes taciturnos, necessários por sua força e frieza e tão impiedosos como o clima europeu.

Manipulação e dinâmica de grupo

Outro ponto que torna a série notável é sua habilidade em manipular o espectador, uma conquista da montagem hábil e fluida. Desde os primeiros episódios a narrativa faz com que o espectador acredite na vantagem dos ladrões sobre os oficiais do governo, e isso acontece graças a inserção de flashbacks (narrados por Tokio e comandados em aula pelo Professor) que revelam o passo a passo de como o plano foi pensado. São inúmeras sequências em que se aguarda ansiosamente por uma explicação detalhada de como foi possível prever os atos da polícia e assim ludibriá-la, mas em outras a explicação não vem. Como é falado em dado momento, trata-se de um jogo, no qual os assaltantes vão distribuindo migalhas e mais migalhas, e que ao final tem o objetivo de levar os perseguidores a becos sem saída, a fim de roubar o tempo deles. Com isso em mente, a montagem alterna entre cumprir e quebrar expectativas, gerando boas frustrações e tensão de qualidade.

Sob a condução de uma direção afiada, que mostra sensibilidade para capturar cenas mais dramáticas (quando a câmera trafega pela mise-en-scène com calma) e energia quando precisa imprimir tensão (aqui o equipamento se move com mais balanços, quase que subjetivamente), o elenco entrega uma dinâmica palpável. Todos contracenam bem entre si, embora alguns mereçam mais destaque: como o relacionamento cheio de admiração de Denver com o pai e carinhoso com uma das reféns; a relação abusiva e machista do egocêntrico Berlín com os sequestrados, em especial com outra refém, com a qual ele estabelece um vínculo forçado; o vai e vem de Tokio com o garoto Río; e por fim, o envolvimento conflitante do Professor com a inspetora Raquel Murillo (Itziar Ituño, “Errementari: O Ferreiro e o Diabo“). Apenas algumas conexões dentre as várias da narrativa, que ainda vê no prisioneiro Arturito (Enrique Arce, “O Tempo entre Costuras“) um tipo canalha, cômico e pronto para operar uma fuga sem precisar se arriscar. Inevitável não se apegar a esse viciante conjunto de personagens, suas características peculiares e seus dramas.

Veredito

“La Casa de Papel” é um dos melhores produtos gerados pelo subgênero de assalto a banco. Busca alguma saídas convencionais, exibe uns diálogos expositivos e um punhado de exageros, tanto no drama quanto na ação – o modo primitivo com o qual os assaltantes manejam suas armas chega a ser risível. Porém, tudo pode ser relevado em prol do entretenimento que a série oferece. Esperta, rápida, emocionante, marcante e com estudos de personagens preciosos, seus pontos positivos são muito mais relevantes do que algumas pontas soltas. Com 22 episódios consistentes, divididos em partes igualmente sedutoras e arrebatadoras, a série garante um lugar cativo no cenário da cultura pop e deixa um grande ponto de interrogação para o que deve acontecer na vindoura terceira parte, levando em consideração seu desfecho aparentemente conclusivo. Cinema com Rapadura adverte: cantarolar a música “Bella Ciao” não é sinal de loucura.

Renato Caliman
@renato_caliman

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