Cinema com Rapadura

Críticas   terça-feira, 12 de março de 2019

Forrest Gump: O Contador de Histórias (1994): o prazer cinematográfico [CLÁSSICO]

A ternura, a simplicidade e a trajetória de Forrest Gump são ingredientes mais que suficientes para deixar os espectadores com um contínuo sorriso no rosto e a sétima arte mais bela.

Clássicos no cinema podem nascer de uma história marcante, de um estilo visual paradigmático, de contribuições sociais e históricas ou de um personagem arrebatador sempre lembrado. O último caso é a razão para a importância e para o sucesso de “Forrest Gump: O Contador de Histórias“, dirigido por Robert Zemeckis (“Aliados“), graças ao protagonista encantador, cativante e inocente que conduz uma narrativa sobre o papel de cada pessoa na condução de suas próprias vidas. Independentemente dos percalços, um QI abaixo da média ou ofensas de quem o ache idiota, o personagem-título é uma inspiração para seguir sua própria vontade, inclusive apenas correr.

Toda a história nos é mostrada pelo olhar de Forrest Gump (Tom Hanks), um rapaz ingênuo e de boas intenções, criado pela mãe Mrs. Gump (Sally Field) e sob a companhia da amiga Jenny (Robin Wright). Quando criança, ele sofre bullying de colegas de escola, que o chamam de idiota e ridicularizam  o aparelho em suas pernas para acertar a postura corporal. A partir do momento em que aprende a correr em alta velocidade, leva esse hábito por toda sua vida e, acidentalmente, participa de eventos importantes da história dos EUA, como a Guerra do Vietnã e o escândalo de Watergate.

Qualquer que seja o espectador, é muito difícil não ter seus olhares atraídos pela inspirada atuação de Tom Hanks. Somos puxados magneticamente para admirar a composição atenta aos mínimos detalhes do ator: as falas pausadas e cadenciadas de quem processa as informações em seu cérebro com um ritmo próprio, o sotaque do sul dos EUA, a incrível concentração para aspectos banais (como não desgrudar os olhos de uma bolinha de pingue-pongue para jogar bem), o semblante ligeiramente distraído de quem tenta acompanhar tudo que ocorre ao seu redor e o porte físico impecável daquele que se esforça para fazer muito bem cada atividade que desempenha. Mas, acima de tudo, sua performance traduz a delicadeza e o sentimento de um homem que expressa amor, preocupação, felicidade e tristeza sem se reprimir.

Além das suas próprias características, as relações construídas com as pessoas em seu círculo mais próximo conferem alma ao filme. De sua mãe, Forrest retira ensinamentos valiosos para toda sua existência, dentre eles a certeza de que não é inferior a ninguém, de que a morte faz parte da vida e de que os idiotas são aqueles que fazem idiotice – em especial, devido ao belo desempenho de Sally Field, que transmite um forte sentimento materno e de atenção ao filho. Do tenente Dan Taylor (Gary Sinise), com quem serviu no Vietnã, extrai uma figura de autoridade que se humaniza cada vez mais por influência do protagonista – o desempenho de Sinise é hábil para retratar a mudança de um temperamento agressivo e turbulento para uma personalidade mais equilibrada. E de Jenny, vem um relacionamento, mesmo com as atribulações e separações, que o ajuda a amadurecer e a faz enfrentar dificuldades e temores da vida – Robin Wright evoca muito bem o conflito entre a doçura com que trata Forrest e as dúvidas para se entregar àquela relação.

Toda a ingenuidade do protagonista se traduzem na forma como se envolve em tantas peripécias, pessoais ou não. Mudanças em sua vida acontecem por simples acaso, como sua ida à universidade como jogador de futebol americano devido à velocidade que conseguia correr, e aspectos sérios de sua realidade não são compreendidos ou interpretados de modo particular, como o abandono do pai e os abusos sofridos por Jenny em casa. Curioso também é o trajeto de Forrest se entrecruzar com acontecimentos da história norte-americana, como personagem ativo desses episódios ou mero espectador: o movimento pelos direitos civis dos negros, os Panteras Negras, o movimento hippie, a Guerra do Vietnã, os governos conturbados do país e vários outros compõem sua jornada de amadurecimento, graças a um eficiente trabalho de montagem e de efeitos visuais.

O percurso de Forrest em sua vida íntima ou por eventos públicos de repercussão histórica é filmado por Robert Zemeckis com uma leveza e um humor capazes de entreter a todos. Acompanhamos um sujeito que entra para a universidade, se alista no exército, participa de manifestações pelo pacifismo, entra em uma equipe de pingue-pongue e se torna capitão de um navio de pesca apenas por decisões inocentes e distintas de outras pessoas, algo que produz um tom cômico prazeroso – muitos momentos lúdicos e engraçados surgem da contraposição entre sua personalidade e o mundo cínico ao seu redor. Ainda assim, o cineasta também consegue construir sequências emocionantes quando o personagem precisa confrontar apreensões universais, como não se comover, por exemplo, com o luto após a partida de sua mãe, e com a preocupação que sente ao perguntar se seu filho era inteligente.

“Forrest Gump: O Contador de Histórias” não é um daqueles filmes que se pode encontrar aos montes a cada ano. Ele possui um diferencial muito grande, que se inicia com seu protagonista, mas também contempla o elenco como um todo, o roteiro simples e eficiente, a direção precisa e a trilha sonora evocativa de Alan Silvestri (“Vingadores: Guerra Infinita”). Revisitar esse clássico é sempre se surpreender encontrando novas virtudes e sentimentos positivos, afinal como diz Mrs. Gump “a vida é como uma caixa de bombons, você nunca sabe o que vai encontrar”.

Ygor Pires
@YgorPires6

Compartilhe

Forrest Gump: O Contador de Histórias (1994)

Forrest Gump - Robert Zemeckis

Quarenta anos da história dos Estados Unidos, vistos pelos olhos de Forrest Gump (Tom Hanks), um rapaz com QI abaixo da média e boas intenções. Por obra do acaso, ele consegue participar de momentos cruciais, como a Guerra do Vietnã e Watergate, mas continua pensando no seu amor de infância, Jenny Curran (Robin Wright).

Roteiro: Eric Roth

Elenco: Tom Hanks, Robin Wright, Gary Sinise, Mykelti Williamson, Sally Field, Michael Conner Humphreys, Hanna Hall, Haley Joel Osment, Siobhan Fallon Hogan, Afemo Omilami, Peter Dobson, Sonny Shroyer, George Kelly, Sam Anderson, Margo Moorer, Christopher Jones, Kevin Mangan, Brett Rice, Daniel C. Striepeke, David Brisbin

Compartilhe