Cinema com Rapadura

Críticas   segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Um Herói de Brinquedo (1996): clichê heroico [NATAL]

Longa trabalha com clichês clássicos dos anos 1990, mas passa forte mensagem que permanece atual.

O relacionamento familiar é um dos grandes problemas enfrentados pela sociedade hoje. Ao longo dos anos foi crescendo o ideal do materialismo, que subverte as relações pessoais. Obviamente isso afeta a convivência entre pais, que se tornam ausentes, e filhos, que, carentes, buscam de alguma forma preencher esse vazio. É exatamente sobre isso que trata Um Herói de Brinquedo, filme natalino tão clássico quanto os próprios clichês que utiliza durante toda a história.

O tema pode até ser batido, principalmente em filmes dos anos 1990, mas aqui eles conseguem divertir e emocionar. Muito disso se deve ao carisma de Arnold Schwarzenegger (“O Exterminador do Futuro”), que aqui vive o empresário e pai Howard Langston. Mais atento aos negócios do que à família, Howard se torna um pai ausente e vê seu vizinho solidário (e aproveitador) Ted Maltin (Phil Hartman, “Pequenos Guerreiros”) se tornar quase que um substituto. Não bastasse isso, perde a confiança do filho Jamie Langston (Jake Lloyd, “Star Wars: Episódio I – A Ameaça Fantasma”), que cobra fidelidade às promessas feitas pelo pai. E aqui começa a história, quando o menino pede um boneco do famoso “Turbo Man” como forma do pai reconquistá-lo, e se não conseguir um, não será bem visto pelos amigos.

Começa então a busca do pai pela redenção. Na procura do boneco, conhece Myron (Sinbad, “American Dad!”), que compartilha do mesmo objetivo. Myron eleva o humor no segundo ato do filme enquanto compete contra Howard pelo tão desejado herói de brinquedo. Ainda que seja o antagonista, é ele quem traz uma reflexão sobre o problema da fixação pelas compras de Natal, mesmo que de modo bem conspiracional.

A trama de fácil identificação permite que o aproveitamento seja o melhor possível. Jake Lloyd está bem no filme, e a relação com Schwarzenegger comove; o garoto, apesar da desconfiança, insiste em acreditar que Howard cumprirá suas promessas, enquanto o pai, na busca pela redenção, acaba piorando a situação. Nesse meio tempo, surge a exaltação do divórcio (materialismo ataca novamente) como passo dado para uma vida mais tranquila para o vizinho e seu filho. Ainda que a relação entre ambos seja comovente, falta mostrar mais da frustração do garoto em vez de sua idolatria pelo herói da TV, que ressaltaria a disparidade emocional entre ele e o vizinho que consegue tudo do pai.

Durante todo o filme temos o boneco do “Turbo Man” servindo como MacGuffin (objeto motivador perseguido pelo protagonista), e no terceiro ato temos um Deus Ex Machina (solução inesperada, mirabolante); este último pode não ser visto com bons olhos na maioria das vezes, mas aqui é interessante notar que o Deus Ex Machina é o próprio MacGuffin, e Howard de repente se vê na pele do “Turbo Man”. Na tentativa de passar a mensagem de que o próprio pai deveria ser o presente (e estar presente), isso é feito da maneira mais literal possível, e se prova certeira não só na conquista do público, mas quando o filho reconhece isso e doa o boneco que tanto desejava.

Vale ressaltar como a trilha sonora conta sutilmente essa história. No início do filme, vemos uma trilha clássica que dá uma sensação de épico, mas com tons de humor, acompanhando Howard. Quando ele se vê na pele do herói, a trilha tem o mesmo tom clássico e épico, mas dessa vez numa guitarra elétrica e bastante heroica, marcando a virada do protagonista.

O roteiro de “Um Herói de Brinquedo” é simples e os diálogos são até fracos, mas essa relação entre Jamie e Howard, e a evolução de ambos ao decorrer do longa, deixa uma forte mensagem sobre a importância da família que permanece muito atual, talvez mais do que nunca, numa sociedade que se afasta pela tecnologia e não é capaz de perceber toda a alegria dessa época, e que o verdadeiro presente de Natal mora em casa.

João Victor Barros
@jotaerrebarros

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Um Herói de Brinquedo (1996)

Jingle All the Way - Brian Levant

Um homem de negócios (Arnold Schwarzenegger) chega atrasado na aula de caratê do seu filho, que recebeu a faixa azul. Para tentar compensar, ele promete ao menino que lhe dará qualquer coisa que ele peça no Natal. O garoto então pede o "Turbo Man", o brinquedo sensação do momento e sonho de todas as crianças. Acontece que já véspera de Natal e o brinquedo não existe em lugar nenhum assim, com todos os estoques já estando esgotados. Ele então se propõe a cumprir a promessa, não importando o quanto isto lhe custe, mas, além de se meter em uma série de complicações, ainda tem de ser mais esperto que um carteiro, que tem o mesmo objetivo dele e igualmente obstinado no seu intento.

Roteiro: Randy Kornfield

Elenco: Arnold Schwarzenegger, Phil Hartman, Sinbad, Rita Wilson, Jake Lloyd, Martin Mull, Laraine Newman, James Belushi, E.J. De la Pena, Robert Conrad, Justin Chapman, Harvey Korman, Richard Moll, Daniel Riordan, Chris Parnell, Patrick Richwood, Kate McGregor-Stewart, Danny Woodburn, Paul Wight, Amy Pietz

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