Cinema com Rapadura

Críticas   quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Podres de Ricos (2018): um autêntico retrato romântico do poder ásio-americano

Um marco de representatividade no cinema, a produção comprova que um filme sem clichês sobre a cultura oriental contemporânea pode ser lucrativo e orgulhar espectadores pelo mundo.

Faltou um nome no título de “Podres de Ricos” para refletir sua alma: asiáticos. Uma deliciosa sátira à cultura oriental contemporânea, o filme é baseado no livro de nome completo “Asiáticos Podres de Ricos” (do idioma original, “Crazy Rich Asians”) escrito pelo cingapuriano emigrante Kevin Kwan. Ele conta a história de uma chinesa americana que viaja até o outro lado do mundo para conhecer a família do namorado, mas sem saber que eles são… Adivinha!

Em sua essência, o filme é uma comédia romântica do tipo “peixe fora d’água”. O “peixe” aqui é Rachel Chu (Constance Wu, “Lego Ninjago: O Filme”), uma professora de economia em Nova York, nascida nos EUA e filha de mãe solteira chinesa. Ela é convencida por seu namorado, Nick (Henry Golding, “Um Pequeno Favor”), a acompanhá-lo até Cingapura para um casamento. A família de Nick também é de origem chinesa e mora neste país. Porém, o que deveria ser uma despretensiosa oportunidade para conhecer a possível futura sogra acaba se tornando um assombro quando Rachel descobre que Nick é herdeiro de um gigantesco império no oriente.

O choque cultural é o mote para as situações típicas desse tipo de comédia, como nos semelhantes sucessos de “Casamento Grego” e “Doentes de Amor”, que brincam com as diferenças entre casais interétnicos. Entretanto, em “Podres de Ricos”, Nick é tão chinês quanto Rachel, só que não para os olhos da poderosa Eleanor Young (Michelle Yeoh, “O Tigre e o Dragão”), a mãe ultra controladora dele. Para manter o prestígio, Eleanor acredita que Nick deve se casar com uma chinesa “pura”. Como Rachel nasceu na América, terra dos sonhos egocêntricos e longe das virtuosas tradições chinesas que priorizam a família, ela não é nada menos que uma ameaça aos planos que a dominadora mãe traçou para o filho.

Desde as primeiras cenas, o roteiro do filme se distingue por instigar uma feroz curiosidade em querer saber o que vai acontecer em seguida. Cada sequência prepara a próxima e, quando entrega, oferece em esbanjo grandioso, elegante, “crazy!”. A obra não só nos recompensa com situações divertidíssimas, mas o faz com um visual suntuoso, extravagante e requintado, assim como seus personagens e suas insânias consumistas, dos figurinos estilosos à impecável arte da produção. Metida nesse universo esbanjador e ostentoso da alta sociedade chinesa, Rachel deve refletir se sua estima é digna de aprovação e pertencimento pela família de Nick.

O elenco é formado inteiramente por atores de origem asiática que parecem brilhar na tela pela oportunidade de autocelebração. Destacam-se a doce e firme atuação de Wu como Rachel, além da divertida Awkwafina (“Oito Mulheres e um Segredo”) como a amiga confidente Peik Lin e, em evidência, Michelle Yeoh, que no lugar de ceder à vilania caricata, presenteia Eleanor com uma interpretação complexa, sensível e multifacetada. O filme ainda concede espaço para uma trama paralela, mais dramática, da empática e misteriosa Astrid, vivida por Gemma Chan (“Capitã Marvel”). Apesar de todos os louros pela rara escalação 100% oriental, o longa acaba pecando um pouco por mostrar somente tipos do leste asiático, omitindo representantes de pele mais escura do continente. Mesmo assim, é indiscutível a ausência de estereótipos e chavões habituais que costumam deturpar a imagem dos asianos no cinema.

Recusando ofertas tentadoras da Netflix por exclusividade na plataforma de streaming, Kevin Kwan e o diretor Jon M. Chu (“G.I. Joe: Retaliação”) fizeram questão de arriscar e lançar o filme nos cinemas para medir o sucesso e provar que grandes produções podem falar sobre o universo oriental sem precisar “embranquecer” as histórias, respeitando a diversidade e ainda assim ter lucro significativo. E como teve! Num fenômeno equivalente ao que os sucessos de “Mulher Maravilha” e “Pantera Negra” representaram para mulheres e afro-americanos, “Podres de Ricos” se tornou objeto de orgulho para comunidades ásio-americanas, que lotaram cinemas nos EUA e colaboraram para a bilheteria mundial da obra atingir cifras excepcionais.

William Sousa
@williamsousa

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Podres de Ricos (2018)

Crazy Rich Asians - Jon M. Chu

Rachel Chu (Constance Wu) é uma professora de economia nos EUA e namora com Nick Young (Henry Golding) há algum tempo. Quando Nick convida Rachel para ir no casamento do melhor amigo, em Singapura, ele esquece de avisar à namorada que, como herdeiro de uma fortuna, ele é um dos solteiros mais cobiçados do local, colocando Rachel na mira de outras candidatas e da mãe de Nick, que desaprova o namoro.

Roteiro: Pete Chiarelli, Adele Lim

Elenco: Constance Wu, Henry Golding, Michelle Yeoh, Gemma Chan, Lisa Lu, Awkwafina, Harry Shum Jr., Ken Jeong, Sonoya Mizuno, Chris Pang, Jimmy O. Yang, Ronny Chieng, Remy Hii, Nico Santos, Jing Lusi, Carmen Soo, Constance Lau, Pierre Png, Fiona Xie, Victoria Loke

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