Cinema com Rapadura

OPINIÃO   segunda-feira, 07 de outubro de 2013

Mato Sem Cachorro (2013): despretensioso e divertido

Apesar da irregularidade, comédia leve provoca boas risadas.

Mato-Sem-Cachorro-pôsterO que esperar de um filme que conta com Bruno Gagliasso como protagonista e cuja história gira em torno de um cachorro com narcolepsia? E se esse filme tiver a participação de humoristas polêmicos por suas piadas de mau gosto e politicamente incorretas? E se o trailer passar a ideia de um grande especial para a TV, com direito a merchandising agressivo de um fabricante de rações? O diretor Pedro Amorim consegue, em sua estreia em longas, derrubar preconceitos e realizar um bom trabalho.

Ao fugir de uma banquinha de vendedores de rua, um cachorrinho quase é atropelado por Deco (Bruno Gagliasso), um jovem desorganizado e relapso. Zoé (Leandra Leal) é uma produtora da Rádio Blast FM que, depois de salvar Deco de um linchamento, o ajuda a levar o pequeno animal ao consultório de um veterinário (Rafinha Bastos) incrivelmente mal-humorado.

A partir daí, eles decidem adotar o filhotinho, Guto, que sofre de narcolepsia, e começam a namorar. Depois de um vídeo produzido por Deco ir parar na internet, seu relacionamento chega ao fim. A única coisa que resta a ele, enquanto bola um plano para reconquistar a amada, é ser atormentado por seu primo Leléo (Danilo Gentili). Paralelamente, Zoé se envolve com Fernando (Enrique Diaz), o dono de um spa canino, e se aprofunda no trabalho, com sua colega Ananda (Letícia Isnard).

O roteiro é simples e bem desenvolvido. Além da relação entre os personagens, aposta nas referências à cultura pop. A forma como utiliza a cantora Sandy, em uma divertida descontrução de sua imagem de “boa moça”, é um grande acerto. Há também citações do desenho Caverna do Dragão e até a participação de Sidney Magal. Outro ponto alto é a banda do irmão de Zoé, “Sidney e suas cópias”, que faz um ótimo remix  de “Meu Sangue Ferve por Você” com “Us Mano e As Mina” e “I Love Rock N Roll”.

O casal de protagonistas era fundamental para que o longa funcionasse. E a escolha foi certeira. A construção da relação de Zoé e Deco, mostrada em um vídeo clipe, com todas as fases do relacionamento, é interessante. Essa relação é tão real que, mesmo depois de muito tempo da separação, ainda resta uma forte ligação entre eles. Leandra Leal tem uma boa atuação. Apesar de ser uma mulher determinada e forte, é perceptível como ela muda sua fisionomia na presença de Deco, ainda que tente esconder o que sente por ele. E sua tristeza, em um momento chave do filme, é digna de aplausos.

Bruno Gagliasso é, surpreendentemente, o grande destaque. Ainda que abuse de algumas muletas, como sempre ajeitar os óculos ou o cabelo desgrenhado, o seu sofrimento por não poder ficar com Zoé é palpável, assim como é convincente a sua decisão de uma mudança para reconquistá-la. O modo de falar e sua postura corporal refletem seu jeito tímido e inseguro. Tudo isso muda paulatinamente no decorrer da trama, sem saltos inexplicáveis.

Destauqe também para Enrique Diaz. É curioso como ele convence ao mostrar um sujeito que não tem o menor senso de ridículo. O modo como tenta resolver todos os seus problemas da forma como cuida dos cães em sua clínica rende algumas das melhores piadas da fita. Já Danilo Gentili mostra que, apesar de engraçado, não é bom ator. Sempre que sua participação é mais longa, o humorista se perde por não poder fazer os improvisos que são a base de sua carreira na comédia. Ainda assim, ele gera bons momentos, como a perseguição ao passeador de cães, as piadas sobre cariocas e paulistas ou o momento em que precisa “acalmar” Guto.

Se os protagonistas têm profundidade e motivações bem definidas, o elenco de apoio é irregular. Ananda (Letícia Isnard) é confusa, sem uma definição de sua personalidade. Otávio (Tatsu Carvalho), que passou de estagiário a chefe de Leléo, também é subaproveitado, em inserções desnecessárias. Já Mariana (Gabriela Duarte) é uma boa surpresa, provocando risos em todas as suas cenas. A participação de Marcelo Tas, que interpreta os gêmeos donos da rádio, também é elogiável.

A trilha sonora é repleta de músicas que compõem o cancioneiro popular, como “Fogo e Paixão”, e, como não poderia deixar de ser, “Eu Não Sou Cachorro Não”. Infelizmente, os efeitos sonoros dos cachorros não receberam a mesma atenção. Sempre que algum deles aparece em cena, ouve-se um choro ou rosnado, mesmo que o animal não esteja fazendo nenhum ruído. O mesmo acontece com todos os momentos em que Guto cai no sono, quando o desmaio ocorre com grosseiro efeito de aceleração.

“Mato Sem Cachorro” é uma boa comédia que acerta ao reconhecer suas limitações e não tentar ser mais do que precisa. Com isso, se torna uma boa surpresa, especialmente em um ano com tão poucas produções de qualidade no gênero.

David Arrais
@davidarrais

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