Comédia romântica faz mais do mesmo e passa sem ser notada.
A família dos Jones é exemplar para os moradores do bairro. Aparentemente perfeitos, eles tornam-se alvo dos olhos curiosos dos vizinhos que desejam ter uma vida, pelo menos, próxima da deles. O problema é que essa é uma falsa família criada por uma indústria cada vez mais sem limites, a indústria da publicidade. Assim, ao promover um estilo de vida que todos desejam, eles promovem também a necessidade das pessoas em consumir aquele estilo de vida, bem como suas roupas e assessórios, em termos publicitários, um tipo de marketing pessoal.
Algo interessante a ser mencionado é o caráter metalinguístico do tema. Um filme por si só já serve de propaganda, ainda mais se tratando de uma comédia romântica em que a maioria das pessoas desejam ter uma história ao menos parecida com a dos protagonistas. Ao criar uma falsa família perfeita, o filme levanta uma discussão publicitária com um fundo moralista dentro de um formato que quase nunca se preocupa com os efeitos publicitários que ela promove a cada história. Pena que a obra despreze essa discussão.
Tirando o fundo moralista, o longa cai em contradição ao seguir um formato já extremamente desgastado e que precisa de um novo gás com urgência, a comédia romântica. Ela, que antes era sinônimo de sucesso de bilheteria, agora é um tiro no escuro. Em alguns momentos, o filme até funciona, muito pelo talento de seu elenco encabeçado por Demi Moore, mas em sua maior parte a trama não alcança o patamar de algo discutível. Tudo isso graças à superficialidade que está presente em toda parte na obra que não permite que nada seja discutido com uma mínima relevância para a história.
No elenco da família os Jones temos David Duchovny e Demi Moore que fazem o falso casal Jones, além de Ben Hollingsworth e Amber Heard, na pele de seus falsos filhos. O “casal” até que segura bem a missão de ditadores de um modelo de perfeição a ser almejado por todos, o que eles não seguram é a ideia um tanto forçada de terem que se apaixonar um pelo outro. Tudo bem que existe a premissa de que o amor pode vir de onde menos se espera, mas da forma como se desenvolve a história, esse “amor” não caiu muito bem.
Quem assina o roteiro é Derrick Borte, que também faz sua estreia na direção. Enquanto na primeira função ele tem um fraco desempenho, na segunda ele tenta se redimir. O principal problema do roteiro é que de oportuno ele transforma-se em mais do mesmo. As soluções acabam sendo as mais batidas.
Tecnicamente o filme também deixa a desejar. Salvo a edição, que faz alguns cortes bem interessantes à cena, tudo é muito comum. A obra parece seguir um manual de instruções americano. Mais um filme daqueles que você vê encalhado em alguma prateleira, esquece-o e só volta a lembrar quando ele passar na sessão da tarde. E olhe lá se passar. A cena final traduz muito bem esse perfil, sem qualquer emoção, ela não acrescenta nada e poderia nem ter existido se alguém com bom senso tivesse cortado.
“Amor por Contrato” prova perfeitamente que existe sim pano para manga em um mercado que teima em recorrer às mesmas temáticas, o problema é a falta de coragem em ousar e inovar. A vida não é tão superficial como a indústria publicitária quer.
