Cinema com Rapadura

OPINIÃO   quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Querido John

Depois de "Diário de uma Paixão", Nicholas Sparks ganha mais uma boa adaptação cinematográfica.

É curioso como alguns filmes possuem uma incrível capacidade de conquistar o espectador mesmo diante de seus clichês evidentes. Neles, as situações são correntes, os personagens são comuns e o desfecho dificilmente consegue fugir do inevitável final feliz. Mas a impressão é de que o longa tem um enorme coração, exalando diferentes sensações com uma enorme facilidade e fazendo com que o público sinta uma imensa afeição pela história, torcendo por um lugar comum chato, mas redentor. É assim em “Um Amor para Recordar”, “A Casa do Lago”, “Um Lugar Chamado Notting Hill” e tantos outros romances ou comédias românticas. É assim também neste “Querido John”, que mesmo cercado de falhas, cumpre com louvor sua proposta: emociona.

Adaptação das páginas do livro homônimo de Nicholas Sparks, que já teve seu “Diário de uma Paixão” filmado com uma maior graciosidade, a película traz o jovem soldado John Tyree (Channing Tatum) no papel principal.  Ao lado do tímido pai (Richard Jenkins), ele passa seu período de licença do exército em uma  pacata cidade litorânea dos Estados Unidos. Numa de suas diversas andanças pela praia local, ele conhece Savannah (Amanda Seyfried), uma bela e simpática universitária que curte férias na localidade ao lado de família e amigos.

A identificação entre os dois é imediata e não demora muito até que o primeiro beijo aconteça. Depois de duas semanas de paixão, John e Savannah, porém, precisam se separar. Enquanto ele deve retornar para seus compromissos profissionais, ela retoma os estudos. A comunicação entre eles, no entanto, não cessa. Através de cartas, o casal fala sobre o seu dia a dia e mantém bastante viva a relação. Até que um desastre acontece… Os atentados de 11 de setembro forçam John a permanecer longe de sua amada e a distância passa a ser um entrave ainda maior.

Se a sinopse lhe deu a impressão de que o filme aborda um inocente amor adolescente, você não está errado. Mas, se a partir daí, você fez uma associação com uma franquia vampiresca de gosto duvidoso, está extremamente equivocado. “Querido John” é, sobretudo, um filme puro em seus sentimentos,  cheio de sensibilidade, cuja história de amor convence até os que passaram recentemente por uma desilusão afetiva. É tão puro que demora anos até que os protagonistas tenham a primeira relação sexual . E o que dizer da cena do primeiro beijo?

O roteiro escrito por Jamie Linden (“Somos Marshall”) preza por um desenvolvimento gradual da aproximação entre John e Savannah, o que beneficia no convencimento dessa relação diante do público. Os dilemas, que inevitavelmente encontrarão, são deixados para depois, enquanto isso eles curtem a perfeição da relação descrita por Linden. Mesmo um pequeno desentendimento é logo resolvido, dando lugar a agradáveis conversas e afagos apaixonados. E quando os dois se distanciam, a saudade transpõe a tela.

A direção de Lasse Hallström (“Chocolate” e “Sempre ao seu Lado”) busca na harmonia dos quesitos técnicos sua principal característica. Se a edição é incapaz de retratar bem os sete anos que se passam, a fotografia é de encher os olhos. Mas o maior recurso utilizado pelo diretor é mesmo a trilha sonora, assim como em grande partes dos filmes do gênero. A música cantada está sempre lá, presente em todos os momentos da fita, contribuindo para o bom ritmo da narrativa e intensificando a trama amorosa.

“Querido John”, entretanto, tem um grande problema. Nada parece original. Além disso, a grande semelhança da trama com “Diário de uma Paixão” desqualifica boa parte dos méritos alcançados pelo longa. Quando John parte para a guerra, então, essa sensação fica mais evidente. Mas a situação piora quando o roteiro força uma saída menos óbvia, trazendo em um personagem secundário uma crescente importância, quando nem mesmo sua relação com os protagonistas foi bem explorada.  Por mais contraditório que isso possa soar, às vezes, um final açucarado é a melhor saída, e definitivamente essa opção cairia melhor nesta produção.

Em termos de elenco, Amanda Seyfried mais uma vez se destaca. É interessante reparar como seu personagem amadurece com o passar dos anos, modificando desde os trejeitos até o modo de falar, transitando da meiguice à convicção. Seu companheiro de tela, porém, não corresponde. Channing Tatum surge inexpressivo, mas não chega a prejudicar a fita. Quem está melhor é Richard Jenkins, como seu introspectivo pai, um colecionador de moedas incapaz de encarar os olhos de algum estranho.

Talvez daqui a alguns anos, este longa não seja tão bem lembrado quanto outros os romances citados no texto. A razão para isso: ter nascido depois, já que possui boa parte dos elementos que compõem esses filmes.  Pode até dar uma sensação de dejá-vu, mas é difícil ignorar a intensidade e a beleza desta história. Aos apaixonados, então, conferi-lo pode ser um prato cheio. Quem não gostaria de viver (pelo menos em parte) o que John e Savannah viveram?

Darlano Didimo
@rapadura

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