Filme de estreia de Felipe Hirsch mostra conflitos humanos encenados em um horizonte infinito.
Muitos filmes têm cidades entre seus personagens principais. É difícil imaginar “Taxi Driver” fora de Nova York ou “Tudo Sobre Minha Mãe” sem Barcelona, por exemplo. “Insolação”, o filme de estreia do diretor teatral Felipe Hirsch, depende de Brasília para fazer efeito. Inspirados pela grandiloquência vazia da capital federal, Hirsch e a parceira Daniela Thomas constroem um filme notadamente incomum, embasado em narrativa entrecortada e mise-en-scène quase artificial, que dimensiona os conflitos poéticos do pensamento humano.
Uma lanchonete decadente localizada na vastidão desértica de Brasília é o ponto de encontro de vidas à deriva. Perdidos entre suas ambições e desolações, os personagens são instigados por uma espécie de diretor (Paulo José) a refletir sobre a profusão de sentimentos que toma conta de seus cotidianos herméticos. Eles compartilham, quase em silêncio, amores, perdas, alegrias e infelicidades. A partir de narrativas alternadas, o público acompanha a rotina dessas pessoas, que agem como se estivessem presas em um dia infinito, sem qualquer noção de tempo ou espaço.
Já na primeira cena, Felipe Hirsch e Daniela Thomas demonstram a importância de Brasília como elemento formador das discussões que acompanham o filme. Os planos abertos revelam o desequilíbrio entre a cidade, conhecida por suas distâncias e construções grandiosas, e o homem, miúdo e quase insignificante entre as toneladas de concreto erguido. Hirsch e Thomas filmam seus atores como peças mínimas de um cenário natural aterrador. Os atores desenvolvem seus personagens como indivíduos que lutam contra a megalópole que os esmaga e diminui.
A necessidade de extravasar esses sentimentos incompletos e contraditórios faz com que os personagens se sintam solitários e incompreendidos, ainda que as relações entre eles sejam pontuadas pelo embate constante e sensibilidade empírica que extrapolam a tela e atingem em cheio o público. Os diretores utilizam do campo e do contracampo frenético para retirar seus personagens de cena como se estivessem em um grande palco armado no meio da cidade, transformando sua plateia em voyeures de uma intimidade que, de certa forma, é comum a todos os indivíduos.
A personalidade do longa também é erguida pela narrativa desvinculada de qualquer noção temporal, mesmo que a repetição de cenas esteja relacionada ao processo de transformação arrebatador vivenciado pelos personagens. O público percebe que, a cada encontro na lanchonete, algo se deslocou ou se modificou na vida dos que estão presentes, mas a impossibilidade de precisar quantas horas ou dias se estenderam intensifica a impressão de inconstância que permeia os atos que se passam nas entrequadras e esplanadas de Brasília.
Consagrado no teatro, Hirsch impõe à linguagem cinematográfica um vestígio de sua experiência anterior que contribui decisivamente para o experimentalismo dramático que faz deste um exercício simultaneamente tão perturbador e empolgante. O personagem de Paulo José é o principal vértice dessa constatação. Amparado pela despreocupação dos diretores em filmar algo palatável ou calcado em qualquer tipo de realismo, o ator olha diretamente para a câmera e conclama seu público a carregar para casa um pouco da angústia abundante desferida pelos personagens.
Não é fácil digerir “Insolação”. Ao dizer tanto de nós mesmos, o filme de Felipe Hirsch se torna uma experiência que dificilmente se restringe à sala de cinema. Abatido pela sinestesia da trilha sonora e pelos ambientes sem qualquer sinal de população, o espectador carrega consigo o espanto de verificar a impotência e o despreparo dos personagens para lidar com as situações que são criadas por eles mesmos. Irremediavelmente, o público associa sua própria vida ao que está sendo mostrado na tela – e por isso mesmo o longa machuca e incomoda tanto.
Ao criarem um filme que se alimenta da ambiguidade de personagens que amam e odeiam em excesso, Felipe Hirsch e Daniela Thomas resgatam uma vocação às vezes relegada pelo cinema brasileiro. Para além de retratar as mazelas sociais de nosso país, os filmes também podem reproduzir a essência do que se desencadeia no lado menos explícito de nossas cidades.
