Cinema com Rapadura

OPINIÃO   segunda-feira, 27 de julho de 2009

Inimigos Públicos

Quando a produção de “Inimigos Públicos” foi anunciada, uma onda de expectativas foi lançada sobre o filme. Afinal, o longa contaria com o maior astro do cinema no momento, Johnny Depp, com a direção do competente Michael Mann, além de abordar a história de um dos maiores gângsteres americanos de todos os tempos, John Dillinger. Não tinha como dar errado! E a película não decepciona, mesmo não sendo perfeita.

Baseada em fatos reais, a trama se passa quatro anos depois do “crash” da bolsa de Nova Iorque, período em que os Estados Unidos sofrem com a temida Grande Depressão. Considerados um dos grandes culpados pela grave crise financeira que o país atravessa, os bancos são alvos de inúmeros assaltos super planejados. Os criminosos aqui não são movidos apenas pela falta de caráter, mas buscam vingança. Se boa parte da população os considera heróis, a polícia local os trata como marginais de alta periculosidade. O maior deles é John Dillinger (Johnny Depp), que é seguido de perto por Baby Face Nelson (Stephen Graham) e Pretty Boy Floyd (Channing Tatum).

Na época, ainda não temos uma polícia especializada, mas apenas bureaus de investigação, os quais no futuro se transformariam no FBI. A entidade passa por um período de estabelecimento e precisa mostrar trabalho, mesmo rodeada de agentes inexperientes. Por isso, eles fazem uma lista com os maiores assaltantes a bancos e consideram John Dillinger o inimigo público nº 1 dos EUA. A sua prisão é uma prioridade, principalmente para o chefe do bureau de Chicago, Melvin Purvis (Christian Bale), profissional ético e dedicado. Mas Purvis sabe que a captura ou mesmo a morte de Dillinger não será fácil de ser executada.

Enquanto planejam, Jimmy (para os íntimos) ou Sr. Dillinger (para os não-tão-chegados) foge de prisões e assalta instituições financeiras com mesma eficiência. Sem demorar mais de dois minutos em cada banco, ele lidera uma gangue bem mais organizada e profissionalizada do que a própria polícia. Mas ainda sobra tempo para curtir. E é em uma dessas ocasiões que John conhece a meio francesa meio índia Billie Frechette (Marion Cotillard), uma mera guardadora de casacos de um hotel de luxo. Donos de passados não tão glamorosos, os dois se identificam e passam a viver juntos. No entanto, o bureau aperta o cerco a Dillinger, e eles terão de fugir dessa intensa caçada.

Em uma das melhores cenas de “Inimigos Públicos”, o protagonista assiste, em um cinema local, ao filme “Vencido pela Lei”, de 1934, com Clark Gable. Na produção, o famoso ator interpreta um gângster que, mesmo sendo um criminoso, não é tratado pela fita como um simples vilão idealizador de planos maquiavélicos para destruir a sociedade. O mesmo ocorre com John Dillinger. O personagem é visto com um homem comum a quem o destino reservou enormes peripécias. A sua esperteza, sua capacidade de liderança e seu inevitável espírito “anarquista” o levaram a se tornar o maior gângster dos Estados Unidos. Mesmo se tratando de um assaltante de bancos, ele possui um enorme respeito ao código de ética criado entre os criminosos do ramo, o qual possui como principais valores: nunca agredir pessoas inofensivas e nunca roubar de quem não rouba.

Retratando também com perfeição a trajetória da vida de John Dillinger, o roteiro de Ronan Bennett, Michael Mann e Ann Biderman tem como referência inicial as tentativas da polícia americana de aumentar a sua verba para conter os criminosos depois da fuga do maior deles de uma prisão de alta segurança. A negação da justiça, no entanto, não impede que seja montado um escritório destinado exclusivamente a caçar Dillinger. A inexistência, na época, do mais popular meio de comunicação do planeta, a televisão, impossibilita uma maior divulgação das fotos dos bandidos e dificulta o trabalho da polícia. Mostrando como o processo de investigação ocorreu até a morte do inimigo público nº 1, o argumento monta uma trama que vai crescendo em atrativos ao longo do filme, mesmo com o desfecho já conhecido.

O protagonista é construído como um homem de estratégias excelentes, mas não perfeitas, tanto que ele chega a ser capturado duas vezes. Do mesmo modo, Melvin Purvis possui falhas em seu trabalho. O bureau jamais chega a ter Dillinger nas próprias mãos, a não ser morto. O fracasso e, principalmente, o sucesso seguem esses dois personagens até a última sequência do filme, mas eles possuem apenas um curto encontro. É interessante observar o quanto os dois são parecidos, mesmo em funções absolutamente distintas. Em uma cena, por exemplo, a namorada de John, Billie Frechette, é espancada por um policial, até que Purvis chega e a carrega para fora da “sala de tortura”, já que ela não consegue andar. Ou seja, mesmo sendo uma importante fonte para a investigação, Frechette é tratada como o código de ética da sociedade preconiza.

Baseado no livro “Public Enemies: America's Greatest Crime Wave and the Birth of the FBI”, de Brian Burough, o roteiro, entretanto, peca em duas situações. A mais grave delas é se focar demais na vida de Dillinger e esquecer um pouco o contexto histórico que os EUA passam. A fita não explica e não dá motivos para que a população trate o criminoso como um herói. A outra falha se dá no tratamento ao romance do personagem principal com Frechette, pois o nascimento da relação acontece de maneira muito brusca e pouco natural. Mesmo depois de apenas dois ou três encontros, o argumento não justifica o crescimento do amor entre eles.

A direção de Michael Mann é no mínimo curiosa. Assim como em “Miami Vice” e “Colateral”, o cineasta opta por câmeras digitais que dão um ar mais realista a película. Mas se nas duas primeiras produções tínhamos as urbanizadas cidades com cenário principal, em “Inimigos Públicos” o campo também tem uma importante função, talvez por isso a opção não tenha a mesma eficiência. As cenas de tiroteios e perseguições, em que é exigida uma certa verossimilhança, funcionam perfeitamente. Mas quando as balas cessam e dão lugar aos diálogos com suas frases de efeito, o filme decepciona. Os belos planos tão típicos em filmes do gênero, com a excelente fotografia de Danti Spinotti, perdem força com a textura da imagem.

Com câmeras digitais, as atuações também têm um efeito diferente, mesmo com os intensos closes de Mann. As performances precisam ser mais improvisadas, mas o roteiro aqui não coopera. Mesmo assim, o elenco competente se sai muito bem. Johnny Depp mostra versatilidade, dessa vez deixando os personagens excêntricos de lado. Ele justifica o status de maior ator do momento com uma interpretação intensa e humana. O nível de dramaticidade da sequência de seu assassinato é que o mais surpreende. Marion Cotillard também está esplêndida. Se Billie Frechette parece frágil na primeira hora da produção, na segunda, ela demonstra a força que só o amor é capaz de fazer nascer. Já Christian Bale está apenas correto, encarnando, mais uma vez, o representante da lei na cidade, assim como na franquia “Batman”. O restante do elenco não recebe grande destaque na produção.

Mesmo não sendo a obra-prima que se esperava, “Inimigos Públicos” é imensamente melhor que a maioria dos filmes em cartaz. Acompanhar a fascinante história de John Dillinger e o seu confronto com a polícia e com a própria ética é um entretenimento de primeira qualidade. Aqui não temos vilões nem mocinhos, mas apenas seres humanos com códigos de honra diferentes.

Darlano Didimo
@rapadura

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