Cinema com Rapadura

OPINIÃO   quinta-feira, 06 de agosto de 2009

Exterminador do Futuro: A Salvação, O

O novo filme da franquia criada por James Cameron há 25 anos retorna com carga total nas mãos de um competente McG. Até Schwarzenegger deu as caras, e valeu à pena! Mesmo ele não estando presente.

Uma releitura total! Foi o que fez o diretor McG. Com poucos filmes no currículo – “As Panteras” (Uma boa tacada), “As Panteras – Detonando” (Que acabou indo longe demais) e o interessante “Somos Marshall” –, o diretor demonstra muita habilidade e, principalmente, criatividade para lidar com cenas de ação sem tornar o longa acéfalo.

A história se passa em 2018, um futuro próximo que é aquilo que todos esperavam: um empilhado de corpos, prédios destruídos e sobreviventes amargados pela vida de infindáveis perseguições. Como Sarah Connor predestinou, o mundo entrou em uma terrível guerra contra a inteligência artificial criada pela a Skynet. As máquinas se tornaram inimigas mortais dos humanos, que resistem contra seus andróides e todo um arsenal letal. E John Connor está lá. Uma das peças chaves da resistência humana. Seguindo suas palavras no rádio, diversos sobreviventes sentem a esperança de que uma vitória é possível.

Paralelo a isso, temos Marcus Wright, um prisioneiro, aparentemente morto, que volta a vida em 2018… bem nem precisa dizer que ele é nosso Exterminador do Futuro da vez, ou do passado se pensarmos melhor. O grandalhão sabe que algo está errado, pois afinal suas últimas lembranças são do corredor da morte, mas suas descobertas realmente vão além do que ele esperava. Ele é encontrado e escoltado, ou vice versa, por Kyle Reese, jovem rapaz que resiste contra as máquinas, acompanhado apenas por sua amiga (de não mais de oito anos de idade), a simpática Star. Reese terá a importante missão de ser o pai de John Connor, ele apenas não sabe disso.

Abordando um ponto interessante, McG nós liga diretamente ao primeiro filme e apresenta este estranho relacionamento, onde o filho, que é mais velho que o pai, precisa mantê-lo vivo, senão deixará de existir. O mote é forçado por natureza, mas não ganha ares “cartunescos” nas mãos do diretor, pelo contrário, ele trabalha muito bem a forma de como Reese, único contato humano do futuro com Sarah Connor, enxerga John. Realmente um herói, um símbolo, mas que na realidade é um homem que conhece parte de seu futuro e tenta entendê-lo, e a seu lado lutam muitos outros.

O elenco traz algumas revelações, como Sam Worthington, ator novato que interpreta o confuso Marcus Wright. Mostrando algumas semelhanças físicas com seu antecessor robótico, o “Governator” Schwarzenegger, Worthington é um ator que acrescenta muito coisa para o papel, apesar de seu personagem não lhe dar muitas opções de desenvolvimento. Wright é um homem atormentado, que foi condenado no passado, mas ele mostra que não existe certo ou errado, que nada define o caráter de um homem, no caso dele, meio homem.

Christian Bale está visceral na pele do linha dura John Connor, um personagem bidimensional, o líder que impõe respeito, violento contra seus inimigos, mas que é bastante humano em algumas decisões crucias. Um exemplo que o diferencia da frieza das máquinas. Foi noticiado que nos bastidores do filme Bale perdeu a linha com uma das pessoas da produção do filme. Ele despejou tudo que tinha direito com o microfone gravando e o áudio foi parar direto na internet, claramente. A ponto de bater no rapaz, Bale foi contido por terceiros e acalmado logo depois. Isso mostra, tomada as devidas proporções, de como o ator encara seus personagens, coisa que vem fazendo na maioria de seus papéis, como em “O Operário”, um filme nada comercial, que teve pouca visibilidade, mas que mesmo assim, para o papel, o ator emagreceu mais de 20 quilos e ficou com um aspecto cadavérico. No final, todo este desespero e raiva que foram registrados, acabaram bem empregados e estão palpáveis na tela.

Já Anton Yelchin está em ascensão. Interpretando o jovem Kyle Reese, o ator aumenta sua lista de bons filmes. Sua naturalidade teve total espaço na história. Com seu timing perfeito para o humor, seu personagem é com certeza o grande diferencial do longa. Protagonista de algumas das melhores cenas do filme, o jovem está entrando de cabeça neste universo imenso do cinema blockbuster (ele também estrelou “Star Trek”), sempre trazendo personagens que chamam a atenção por serem inusitados e únicos .

O time de coadjuvantes é de primeira. A bela Bryce Dallas Howard é Kate Connor, mulher de John e médica da resistência. Grávida, ela é feita de serenidade e confiança no marido. A também muito bela Moon Bloodgood interpreta a decidida Blair Williams, que ao ser resgatada por Wright, vê nele um homem e não uma máquina e acaba por ajudá-lo, indo contra as ordens da resistência. E por fim, Helena Bonham Carter eleva ainda mais a moral do filme com sua interessante personagem, a Dra. Serena Kogan.

A grande sacada da obra é seu roteiro que unilateraliza muito bem seus personagens. A trama não tem um foco, ao contrário, vai se dividindo. Christian Bale parece estar em menos da metade do filme. O que é muito bom (não que Bale esteja mal), pois com outros núcleos fortes a história se torna realmente interessante e muito bem distribuída. A direção de McG está muito eficiente. O diretor traz cenas muito bem estruturadas e, mesmo que algumas delas sejam 70% criadas no computador, percebemos a preocupação de se usar bonecos animados, maquiagens perfeitas e longas sequências planejadas – como a do helicóptero em que Bale parece realmente pilotar a aeronave.

Aliás, temos de tudo neste filme. Perseguições de carros, de caças, de helicópteros, de motos e também robôs gigantes. Os efeitos são de impressionar, principalmente quando um suposto T-800 aparece como um Schwarzenegger campeão de fisiculturismo que acabou de fazer “Conan, o Destruidor”. Não é ele, mas é muito realista e bem feito. Com essa inserção, o diretor homenageia os capítulos anteriores da história. Utiliza outros elementos clássicos, como a canção “You Could Be Mine” do Guns ‘N’ Roses – que foi imortalizada em “O Exterminador do Futuro 2- O Julgamento Final”- e também a famosa frase “Eu voltarei!”, ponto máximo de risadas daqueles que apreciam os filmes

”O Exterminador do Futuro: A Salvação” teve um resultado positivo. Com um final que comporta inúmeras possibilidades, vemos que logo teremos uma continuação. O diretor McG deu um passo importante em sua carreira, com um filme de ação que traz diversas qualidades: uma produção excelente, ótimo roteiro, trilha sonora impactante – que faz uma releitura da marcante trilha – e um elenco afiado. Todos os elementos dos filmes anteriores estão ali, só que reprogramados. Vale à pena conferir.

Ronaldo D`Arcadia
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