Cinema com Rapadura

OPINIÃO   sábado, 06 de junho de 2009

Exterminador do Futuro: A Salvação, O

A saga de John Connor volta às telonas, dessa vez, recuperando um pouco do ritmo dos dois primeiros filmes da franquia. Em “O Exterminador do Futuro: A Salvação”, as cenas de ação dominam boa parte da película, em detrimento de uma história cheia de erros de narração. Já do ponto de vista técnico, o longa é de encher os olhos.

John Connor começou a protagonizar uma trama mesmo antes do seu nascimento. Durante “O Exterminador do Futuro” (1984), o robô T-800, interpretado por Arnold Schwarzenegger, caça a mãe de John, Sarah Connor, com a missão de matá-la, já que no futuro ela vai dar à luz ao líder da Resistência humana contra o sistema de computador auto-suficiente Skynet. Para protegê-la, a Resistência envia o seu representante, Kyle Reese, que também virá a ser o pai de John.

Em “O Exterminador do Futuro 2 – O Julgamento Final” (1991), o T-800 volta, mas desta vez para proteger o agora adolescente Connor do robô T-1000, representante das máquinas. Tido como o melhor da franquia, esse filme investe nas cenas de ação e nos efeitos especiais, porém nunca deixa de lado a história interessante e ousada. E é exatamente aí que “O Exterminador do Futuro: A Salvação” falha. A megalomania está mais uma vez presente, mas apenas ela.

Ignorando acertadamente a tragédia que foi “O Exterminador do Futuro 3 – A Rebelião das Máquinas”, esta fita resume logo em seu início toda a saga de John Connor (Christian Bale) e, posteriormente, nos apresenta a um novo personagem: Marcus Wright (Sam Worthignton). Wright é um criminoso acusado de matar o irmão e dois policiais durante uma tentativa de assalto. Prestes a ter a sentença de morte executada em 2003, ele aceita doar o corpo para experiências científicas depois de muita insistência da doutora Serena (Helena Bonham Carter).

Logo após, o filme dá um salto. Estamos em 2018. O Dia do Julgamento já aconteceu e a Skynet domina o mundo com os seus robôs aquáticos e terrestres de todos os tamanhos. Como previsto, John Connor lidera a Resistência armada, tática que tenta criar estratégias para derrotar de vez o sistema inimigo. Logo em sua primeira incursão no filme, mísseis e tiros são disparados sem pudor pelas duas forças antagônicas, até que John se depara com a tentativa da Skynet de criar os seus primeiros T-800 a partir de experimentos humanos.

Depois da batalha, Marcus Wright retorna a vida, mas a sua verdadeira natureza é desconhecida até por ele mesmo. Ele se junta ao jovem Kyle Reese (Anton Yelchin), que está sendo perseguido justamente por estar destinado a se tornar o pai de Connor. Ao mesmo tempo, John Connor parte em uma missão para testar um sinal que pode desativar as máquinas e levar os humanos à vitória.

Destinado a ser o primeiro filme de uma nova trilogia, “O Exterminador do Futuro: A Salvação” impressiona já na primeira sequência de ação. A competente fotografia dessaturada de Shane Hurlbut dá o tom de sequidão e isolamento que só uma região em guerra pode ter. A trilha de Danny Elfman também explora bem o tema original composto por Brad Fiedel através de versões mais aceleradas, enquanto os efeitos especiais são os elementos mais espetaculares da película. Com uma parte técnica irrepreensível nas mãos, o diretor McG aproveita o que tem de melhor e já começa o filme em um clima alucinante. No entanto, quando o longa tem que contar uma história e não mais apostar em explosões, McG cai bastante no conceito.

O diretor, que possui no currículo longas não muito respeitados, como “Nós Somos Marshall” e “As Panteras 1 e 2”, se sai muito bem ao retratar os confrontos da Skynet com a Resistência. As tomadas sem cortes são de tirar o fôlego, como na cena em que John Connor tenta enfrentar uma nave inimiga sozinho no helicóptero. Sempre em movimento, a câmera de McG busca continuamente tornar as lutas mais realistas e convincentes, mesmo com os inúmeros efeitos especiais. A filmagem de longe de um desses personagens digitalizados é uma das estratégias para esse convencimento do público, como em uma cena em que Kyler, Marcus e Star fogem de um robô gigante e de uma nave inimiga. O cineasta possui vários méritos e deve passar a ser observado pelos cinéfilos em plantão por suas inovações técnicas. No entanto, ele ainda precisa escolher melhor seus trabalhos, além de aprender a diminuir as inverossimilhanças que são tão comuns em roteiros de Hollywood.

O maiores culpados pelos erros da película são os roteiristas John D. Brancato e Michael Ferris, que também já foram responsáveis por fracassos como “Mulher Gato” e “O Exterminador do Futuro 3”. Diferente do que muitos podem pensar, a dupla não faz de John Connor o protagonista, mas sim de Marcus Wright. É ele a chave principal do filme, o que já revela um pouco a falta de criatividade dos roteiristas ao contarem a história da vida de Connor. Eles desviam o foco para falarem de algo irrelevante para um filme que tem como objetivo apenas entreter: a natureza humana. As lições de moral encontradas por Brancato e Ferris são clichês e vazias. Criar um robô com sentimentos até que não é uma má ideia, mas deixá-lo no centro de uma trama que já tem os seus personagens principais escolhidos há décadas é um pouco demais.

Além disso, as coincidências que se seguem para levar Marcus ao encontro de Connor são mal construídas. Para isso, uma série de eventos clichês se sucedem, desde o encontro com Kyle Reese até a paixão instantânea uma jovem integrante da resistência por Marcus. Mas a maior falha do roteiro é transformar a batalha final em algo absolutamente pessoal para Connor, ou seja, o que era para ser uma luta pela humanidade vira uma mera batalha pela manutenção da vida de Connor.

Mesclando nomes consagrados e desconhecidos, o elenco de “O Exterminador do Futuro: A Salvação” também é prejudicado pelo argumento do filme. Se Christian Bale não está bem em mais um blockbuster americano, Sam Worthignton domina a tela. O jovem talento compõe Marcus Wright com a força e a instabilidade psíquica que o roteiro lhe exige. Para quem gostar do ator, Worthignton vai protagonizar o próximo filme de James Cameron, “Avatar”. Ainda no elenco principal está Bryce Dallas Howard, como a esposa de John, Kate Connor. Substituindo Claire Dannes, Howard não realiza um trabalho muito melhor do que o da sua colega de trabalho, ou seja, está muito mal.

Já entre os coadjuvantes o destaque vai somente para Anton Yelchin, que volta às telonas depois da ótima performance em "Star Trek". Enquanto isso, Helena Bonham Carter e Jane Alexander, que interpreta uma integrante de uma espécie de outra corrente de resistência humana, não têm espaço suficiente para demonstrarem toda a capacidade artística que possuem.

Melhor do que o último filme da franquia, mas imensamente inferior aos dois primeiros, “O Exterminador do Futuro: A Salvação” vale apenas como um belo espetáculo visual e de ação. Com uma trama cheia de falhas, a franquia continua a denegrir a incrível história de John Connor retratada por James Cameron nos anos 80 e 90. Em resumo, a série começa com um pé esquerdo a nova trilogia de “O Exterminador do Futuro”.

Darlano Didimo
@rapadura

Compartilhe

Saiba mais sobre