Cinema com Rapadura

OPINIÃO   sábado, 06 de junho de 2009

Exterminador do Futuro: A Salvação, O

“O Exterminador do Futuro” é uma obra prima dos anos 80. Pena que este quarto filme é exibido décadas depois e não dá certo entreter plateias com fórmulas ultrapassadas. A trama desconexa e sem atrativos faz deste “Exterminador”, literalmente, uma perda de tempo.

Sai Arnold Schwarzenegger, entra Christian Bale. O atual governador da Califórnia e eterno exterminador levou mais do que a icônica frase “I’ll be back” do longa-metragem, mas também todo o carisma e o charme da franquia. Diversos são os percalços que o diretor McG encontrou e criou em sua visão da clássica obra de James Cameron. O primeiro deles e de longe o mais gritante é o roteiro. Escrito pela dupla John D. Brancato e Michael Ferris, o enredo é superficial e repugnante. Não repugnante no sentido de nojento, mas sim de distanciar o interesse do público pela história contada.

“O Exterminador do Futuro” foi uma das franquias responsáveis pela inserção do conceito de viagens temporais no cinema hollywoodiano. Sem falar em todo o clima pós-apocalíptico e da possibilidade do fim da humanidade pela tecnologia que, tardiamente, seriam discutidos com brilhantismo em “Matrix”. O extermínio do homem pela ferramenta que o acompanhou desde a pré-história: a sátira da modernidade. Ironia maior é McG pegar toda essa filosofia e dar descarga, transformando o quarto “Exterminador” em uma sucessão de explosões e luzes sem sentido, patrocinada pela guerra sem objetivos entre a raça humana e as máquinas.

Não espere encontrar explicações neste capítulo. Aquelas que são oferecidas não satisfazem ou não são suficientes para fazer o telespectador compreender o porquê da disputa pelo poder em um planeta semi-destruído. Paralela a trama do primeiro filme, desta vez a batalha é transportada para o ano de 2018. Nada de jaquetas de couro ou Harley Davidson. O período é contemporâneo a criação do andróide T-800, o modelo que Schwarzenegger personificou. Nessa época, o super computador Skynet impera entre os seres mecânicos e planeja a aniquilação da raça humana, em especial do jovem Kyle Reese (Anton Yelchin), o número um em sua lista negra.

No comando da resistência está o revolucionário John Connor (Bale), que tem a alcunha de livrar o mundo da ditadura férrea e salvar o jovem Reese, que é ninguém menos que seu próprio pai. Homens frágeis e “inteligentes” de um lado e máquinas “indestrutíveis” e assassinas de outro. A vantagem pende para os soldados de lata. Infelizmente a reposição de humanos não acompanha a rapidez da linha de montagem do Skynet. Acuados, o foco de resistência de Connor prepara uma última intifada contra a matriz inimiga. Nesse momento surge o misterioso Marcus Wright (Sam Worthington), que no melhor estilo “hasta la vista baby”, não faz ideia de onde e nem quando é aquele tempo. Logo os protagonistas se cruzam e a verdade, ou melhor, um ralo motivo, surge para justificar a guerra de Connor e a existência de Wright.

Outro ponto negativo é o elenco, salvo a atuação de Sam Worthington, que revela grande talento e de fato convence pelo personagem que é. Iniciante nas grandes produções, o ator se destaca e toda vez que entra em cena chama a atenção para si, seja desferindo socos nos momentos de fúria ou demonstrando afeto pelo próximo. Nem todo charme e carisma foram levados. Worthington cadencia no papel o espírito do longa, superando em qualidade o brilho de Bale, com seu tímido John Connor.

De asas abertas do sucesso “Batman – O Cavaleiro das Trevas”, Bale não se apresenta de forma convincente. Mesmo com todos os gritos e sempre na linha de frente do combate, não está a altura do único revolucionário capaz de salvar o futuro da humanidade. Também não esteve mal, apenas não transformou a escuridão que acostumamos a ver na determinação que seu novo personagem pede. O elenco secundário desempenha bem seu papel, que é realmente o de fazer número. Não que esta seja a real função dos coadjuvantes, mas neste trabalho ficou claro que era esta a intenção do diretor. Alguns até desnecessários, como a jovem criança muda que acompanha Reese e a esposa grávida de Connor. Em momentos chaves da narrativa, suas presenças só aumentam o dramalhão da deslocada trama.

Mas nem tudo são pedras. O tratamento de áudio, a música e os efeitos especiais são notáveis. Como qualquer um irá perceber logo no início, as explosões e grandiosidades nos andróides comprovam o orçamento de US$ 200 milhões de dólares. A maquiagem é excepcional e os efeitos visuais de primeira linha. A equipe não se esqueceu de nenhum detalhe e traz uma realidade povoada por máquinas para bem perto, quase real. A revolução de Stan Winston nos “Exterminadores” anteriores continua presente neste. As criaturas tiveram o tratamento do lendário designer. Inclusive, este foi seu último trabalho antes de seu falecimento, fato registrado pela dedicação do longa-metragem a sua memória.

A música composta por Danny Elfman, outro integrante do panteão de Hollywood, é marcante. Logo na apresentação dos créditos, os ouvidos acostumados com seu trabalho já reconhecem a batida frenética. E falando em “ouvir”, aqueles que possuem uma audição mais sensível, se preparem, pois o som das armas, carros, motos, andróides, bombas, enfim, tudo aquilo que foi feito para fazer barulho, realmente faz. Somados às cenas desérticas ou entupidas de destroços e corpos, os sons provocam a sensação de uma real guerra. No campo visual e auditivo do público o filme satisfaz com louros.

“O Exterminador do Futuro: A Salvação” é um filme de mediano para baixo. McG erra em apostar no carisma de Bale para sustentar a franquia. Os tempos são outros. Na década de 80, Schwarzenegger veio ao mundo pelo original e pela continuação. No entanto, aqueles eram tempos em que músculos e explosões atraiam o público. Atualmente, inúmeros fatores são necessários para emplacar e fazer alguém sair com um sorriso no rosto da sala de cinema. Se em décadas atrás o ponto marketing não era tão visado, hoje é fundamental. Suspense e emoção a cada trailer, pôsteres colocando os inimigos frente a frente e a dúvida sobre a presença do “exterminador pai”, prova de que um banner espetacular não reflete o conteúdo de seu produto.

Pablo Cordeiro
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