O que acontece quando as artes se juntam numa só obra? Ora cinema, ora teatro, ora pintura. David Lynch tentou de todas as formas expressar, diante de um único veículo, toda aquela carga de conhecimento que veio acumulando diante das suas diversas experiências artísticas. E teve um resultado deveras excepcional.
Só a cargo de curiosidade, o longa “Cidade dos Sonhos” foi inicialmente pensado como um seriado televisivo. Lynch, como já tinha trabalhado anteriormente com esse tipo de mídia, era o encarregado de fazer algo bem sombrio, transcendente e encantador. De fato o fez. Contudo, o episódio piloto da série foi recusado pelos executivos responsáveis, com o argumento que consideraram o trabalho muito complexo para o público americano. Foi aí que a produtora Studio Canal assumiu o financiamento do projeto e propôs á Lynch para transformá-lo em um longa. E, por nossa felicidade, foi o que aconteceu.
Na época de seu lançamento, foram distribuídos folhetos explicativos e todos os olhos se voltaram para essa humilde e rejeitada produção. Até mesmo sessões extras foram requisitadas em alguns festivais em que ele foi exibido. Mas até hoje, apesar de diversas interpretações, é incerto qual o verdadeiro – se é que existe -, desenrolar da história. Isso acontece devido aos cortes abruptos na história, às imagens desfocadas, a uma apresentação não-linear dos fatos e de pequenas e divergentes pistas que cabe a cada um criar sua interpretação.
O filme narra a história de Betty (Naomi Watts), que vai até Los Angeles para tentar ingressar no mundo do cinema de Hollywood. Chegando à casa onde iria ficar, ela conhece Rita (Laura Harring), uma moça que havia sofrido um acidente de automóvel e perdeu sua memória. Aos poucos, as duas vão descobrindo o que aconteceu com Rita e desvendam segredos de sua história. Nesse contexto, ambas mergulham num mundo de desejo, sedução, traição e ódio, numa história com reviravoltas e muitas pistas nas entrelinhas.
Primeiro podemos observar os quesitos técnicos do filme. Como já citei, “Cidade dos Sonhos” foi originalmente imaginado como um seriado de televisão. E é justamente essa a impressão que temos quando o assistimos. O longa tem a aparência de um seriado B dos anos 90, com uma fotografia morta, mas com o emprego constante de “cores-chave” da trama, sendo elas azul e vermelho. O clima é constantemente obscuro, que é criado através da edição empregada, da trilha hipnotizante magistralmente criada por Angelo Babalamente e, é claro, pela singular e personificada direção de David Lynch.
O elenco foi minuciosamente escolhido. Naomi Watts consegue alternar entre a ingenuidade, arrependimento e revolta de forma perfeita. Ela se entregou completamente ao papel, se expondo a situações que poucas atrizes ousariam fazer. Laura Harring, que contracena com Naomi, também demonstra um grande talento, além de uma escultural beleza. Infelizmente, como o próprio filme mostra, essa é uma atriz desprezada por Hollywood, que sumiu aos poucos durante o tempo. Justin Theroux completa o elenco principal, que fecha o triângulo amoroso do filme.
Inclusive, acho necessário salientar o quanto Lynch pôs em seu filme diversas figuras bizarras. Entre os personagens, podemos destacar o “Cowboy”, Coco, o mendigo e um casal de idosos que são o foco do mistério do filme. Todos tem uma aparência exótica, que centram a atenção dos expectadores e formam, em conjunto, algo abstrato, anormal, que contribuem para o clima incerto e denso que é proposto no filme.
Adentrando no quesito direção, acredito que esse seja, juntamente com o roteiro, um dos grandes trunfos do filme. David Lynch abusa de seus conhecimentos e não nega seu pé em outros ramos da arte, como a pintura, por exemplo. Ele, que já fez exposições de quadros e fotografias, faz do filme uma obra surrealista. Lynch é basicamente o exemplo de quando um artista plástico aventura-se em outras áreas; e o efeito foi positivo.
Apesar de não se arriscar com ângulos de câmera inteligentes ou seqüências, cinematograficamente falando, belas ou plausíveis, Lynch sabe comandar, em seu estilo particular, o filme. Ele utiliza-se de flashbacks e brinca entre o real e a ilusão, nos mergulhando em delírios e sonhos da personagem. Seu estilo cinematográfico tão alternativo tem uma classificação especial no vasto campo cinematográfico, mas não como o cinema inteligente e belo que estamos mais habituados a apreciar.
O roteiro é de uma complexidade enorme, porém não é incompreensível. Ele brinca com os personagens e situações, muda nomes, investe em pequenos detalhes e firma-se nas sensações do espectador. Além de tratar de temas importantes, como a desvalorização do profissional no meio artístico, Lynch trabalha com as lembranças e sonhos de uma maneira que impõe respeito. É muito difícil entender o filme na primeira vez que o assiste; ao menos os pequenos detalhes. Nele há diversas pistas nas falas, nos objetos e nos personagens. É um divertido e fatídico quebra-cabeças.
Definitivamente “Cidade dos Sonhos” é um filme para ser discutido, para se descobrir as diversas interpretações, para observar detalhes e tentar encaixá-los nas outras situações da trama. É o tipo de filme que as pessoas não estão habituadas a fazer e muito menos a admirar. Mesmo não sendo nem um pouco convencional, Lynch nos mostra o quanto é divertido desbravar novas mentes e prega que o cinema vai muito além de um simples conceito.
“Cidade dos Sonhos” não é somente um dos filmes mais complexos do cinema atual, como consegue desorientar a cabeça de seus expectadores. Uma das mais sombrias odisséias comercializadas da atualidade.
