"Hancock" acerta ao dar ênfase ao que realmente importa: o personagem principal. É o talento de Will Smith, os bons diálogos e cenas focadas no super-herói sem caráter que tornam o longa-metragem uma experiência divertida, perfeita para o verão americano e as férias escolares.
A competência de Will Smith é inegável. O ator tem carisma, tem a capacidade de tornar qualquer figura passível de compaixão e sabe usar esse irresistível poder para tornar seus filmes ainda mais interessantes. É o talento do protagonista de "Hancock" que torna o longa-metragem uma descoberta saborosa de uma nova versão do mundo de super-heróis.
John Hancock possui grandes poderes. Capaz de feitos tão incríveis quanto os de Superman, ele ajuda a cidade de Los Angeles a combater bandidos e evitar graves acidentes, mas, como não mede as conseqüências de seus atos, destrói quase tudo o que encontra pelo caminho, efeito, claro, piorado pelo alcoolismo do herói. Ao invés de promover a segurança dos cidadãos, Hancock causa prejuízos absurdos para o poder público e não faz questão de se justificar às pessoas que, supostamente, são salvas por ele.
É na condição de odiado por Los Angeles que Hancock conhece Ray, um relações públicas interpretado por Jason Bateman que sonha em fazer do mundo um lugar melhor. Ray se compromete a melhorar a imagem do herói e garantir o reconhecimento de seus atos em prol da comunidade. Mesmo relutante, Hancock aceita a proposta, o que preocupa Mary, esposa de Ray, interpretada por Charlize Theron.
São as ações atrapalhadas de Will Smith e o cinismo impresso em seu rosto que justificam o ingresso para "Hancock". A trama é fraca e bastante previsível, mas até que a verdadeira história comece a se desenrolar algumas boas cenas e diálogos são garantia de diversão, tudo graças ao carisma de Smith.
Charlize Theron, embora maravilhosa como sempre, constrói uma personagem irritante. A cara de dona de casa coitada é suficiente para desfazer qualquer simpatia que se tenha pela moça. Mary é uma mulher manhosa, com argumentos fracos e sensatez nula. É submissa e desinteressante. É ela, entretanto, a força motriz do segundo ato do filme, o exato momento em que "Hancock" perde sua força e se entrega aos clichês.
A premissa do longa-metragem é bastante interessante. Hancock é um herói sem caráter. Nenhuma referência à Macunaíma aqui, apesar de serem válidas. O super-herói destrói tudo, está longe de conquistar o coração de seu público e possui hábitos também distantes do aceitável. Diferente da conduta impecável de heróis clássicos, Hancock está mais próximo do real e, por isso, é mais humano. Pouco importa a origem de seus poderes, o que interessa é o uso que faz deles e as possibilidades que os talentos promovem.
Como em todo filme de super-herói, os efeitos especiais de "Hancock" são competentes, mas, diferente de outras produções, não são o foco da trama. Os efeitos são essenciais para dar material ao personagem e não o contrário. O diretor Peter Berg e os produtores acertaram em apostar no protagonista para obter sucesso e não em qualquer outro fator de menos importância. "Hancock" está longe de ser uma obra-prima, mas tampouco tem essa pretensão. É por isso, portanto, que há muito o que apreciar.
